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Textos do Exército Zapatista de Libertação Nacional, do seu Sub[p]Comandante Insurgente Marcos e demais membros do Comité Clandestino Revolucionário Indígena - Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional
6.11.04
México, outubro de 2004.
Ao povo do México:
À sociedade civil nacional e internacional:
Irmãos e irmãs:
O EZLN se dirige a vocês para dizer a sua palavra:
Primeiro. Devido à hostilidade de grupos paramilitares e à intolerância alimentada em algumas comunidades pelo Partido Revolucionário Institucional, dezenas de famílias indígenas zapatistas, há tempo, se viram obrigadas a refugiar-se e formar pequenos núcleos populacionais na chamada "biosfera dos Montes Azuis". Durante o tempo em que permaneceram nesta terrível situação, longe de suas terras de origem, os zapatistas refugiados se esforçaram para cumprir nossas leis que mandam cuidar dos bosques. Apesar disso, o governo federal de mãos dadas com as transnacionais, que pretendem apoderar-se das riquezas da selva Lacandona, mais de uma vez, ameaçaram desalojar violentamente todos os povoados desta região, incluindo os zapatistas.Os companheiros e companheiras de várias comunidades ameaçadas de desalojamento decidiram resistir enquanto o governo não cumprir os chamados "acordos de San Andrés". Sua decisão é respaldada e apoiada pelo Exército Zapatista de Libertação Nacional. Sublinhamos isso no devido momento e agora o ratificamos: se alguma de nossas comunidades é desalojada com violência, responderemos, todos, no mesmo tom.
Segundo. Com o avanço das chamadas "juntas de bom governo", grande parte das comunidades indígenas zapatistas se muniu de meios que melhoram substancialmente suas condições de vida.
Sobretudo no que diz respeito à saúde e educação, as comunidades rebeldes conseguiram avanços, sem nenhum apoio governamental federal, estadual ou dos municípios oficiais, que superam com folga os das comunidades vinculadas à oficialidade. Isso tem sido possível graças ao apoio de irmãos e irmãs de todo o México e do mundo.
Contudo, estes benefícios não conseguem cobrir todas as comunidades rebeldes. Particularmente, as populações refugiadas nos Montes Azuis não são beneficiadas por estes avanços.
Terceiro. Respeitando sua autonomia, o Comando Geral do EZLN dirigiu-se à Junta de Bom Governo da região selva fronteiriça, "Rumo à esperança", com sede em La Realidad, para pedir seu apoio no cuidado da saúde, educação e comércio com estas comunidades refugiadas. A Junta de Bom Governo respondeu que, na medida de suas possibilidades, fará o necessário para atender esses irmãos e irmãs zapatistas.
Contudo, a distância e a dispersão de vários destes povoados representam sérias dificuldades, razão pela qual o EZLN acordou, com o expresso consentimento de seus habitantes, concentrar alguns dos povoados zapatistas nesta região, para que, desta forma, sejam atendidos pela Junta de Bom Governo da região selva fronteiriça. Os povoados aos quais nos referimos são os seguintes: Primeiro de Janeiro, San Isidro, 12 de Dezembro, 8 de Outubro, Santa Cruz, Nuevo Limar, Água Dulce. Ao todo, são 50 famílias.
Esclarecemos que não são os únicos povoados zapatistas nos Montes Azuis. Nesta região há outros núcleos zapatistas de população que continuam vivendo sob ameaça de desalojamento.
Quarto. Durante vários meses, o Comando Geral do EZLN manteve conversas com os companheiros e companheiras destes povoados e analisou com eles os caminhos para melhorar um pouco sua difícil situação.
Juntos, chegamos à conclusão de que o melhor é que alguns povoados se concentrem num lugar, já que, desta forma, poderão resistir melhor às ameaças, poderão cuidar melhor da selva, partilharão dos avanços das Juntas de Bom Governo e poderão participar melhor da luta do EZLN pelo respeito e o reconhecimento dos direitos e da cultura indígenas.
Quinto. Com o aval destes povoados e da Junta de Bom Governo da região selva fronteiriça, o EZLN se dirige à sociedade civil nacional e internacional para que apóie moral e economicamente esta concentração, porque, cumprindo com a resistência zapatista, estes povoados declararam que não receberão nenhum ajuda dos governos estadual e federal.
Sexto. Com o mesmo respaldo, o Comando Geral do EZLN dirigiu-se à lutadora social Rosário Ibarra de Piedra para pedir-lhe respeitosamente que concorde em criar as condições necessárias para que a sociedade civil nacional e internacional possa apoiar, economicamente e com seu trabalho, esta tarefa, no entendimento de que se fará uma prestação de contas clara e de que o EZLN se compromete publicamente a zelar para que este dinheiro não seja usado para absolutamente nenhuma outra coisa que não seja a nova concentração, em condições dignas, dos companheiros e companheiras.
Quando contar com a aceitação de Dona Rosário e assim for decidido pelas comunidades envolvidas, o EZLN dará a conhecer os detalhes das etapas e trabalhos da reconstrução.
Sétimo. Esperamos sinceramente que a sociedade civil nacional e internacional responda ao nosso apelo para apoiar estas comunidades e melhorar assim suas condições de vida zapatista, ou seja, de luta e resistência.
Democracia! Liberdade! Justiça!
Das montanhas do Sudeste Mexicano
Pelo Comitê Clandestino Revolucionário Indígena – Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional.
Subcomandante Insurgente Marcos
México, outubro de 2004, 20 e 10.
_____________________________
Texto divulgado no La Jornada de 13/10/2004.
Ao povo do Chile:
À juventude chilena:
Irmãos e irmãs do Chile.
Falo-lhes em nome das mulheres, homens, crianças e anciãos do Exército Zapatista de Libertação Nacional, indígenas maias em sua imensa maioria, que, nas montanhas do sudeste mexicano, resistem contra o neoliberalismo e pela humanidade.
Recebam todos e todas vocês, jovens chilenos, nossa saudação zapatista.
Agradecemos os irmãos e irmãs que hoje nos deram a oportunidade de fazer com que a nossa palavra chegue ao Chile rebelde. Para essa nossa palavra, pedimos um lugar em sua raiva, em sua dor e, sobretudo, em sua esperança.
Não vou lhes falar dos zapatistas mexicanos, de nossa luta, de nossos anseios, de nossos sonhos, de nossos pesadelos, de nossa resistência. Afinal, comparados com os homens e as mulheres, e particularmente com os partidos que, por estas terras, iluminaram os céus da América Latina, nós zapatistas continuamos sendo uma pequena luz fraca e distante.
Não, nossa palavra agora é para unir nossa saudação e nossa homenagem a um latino-americano, a um chileno do Movimento da Esquerda Revolucionária, MIR, caído em combate contra a ditadura de Pinochet em 5 de outubro de 1974.
Hoje, nossa palavra é para saudar Miguel Enríquez Espinosa.
E o saudamos hoje, hoje que sob os céus da América Latina, a que sofre do [Rio] Bravo à Patagônia, os poderosos colocam em nossas mãos um punhado de pó e nos dizem: "Isso é o que sobra da sua pátria".
E hoje, estes mesmos, os de cima, nos mostram as imagens da geografia que impuseram em parte de nossos solos:
Onde havia uma bandeira, hoje há um centro comercial. Onde havia uma história, hoje há um restaurante de comida rápida. Onde floresciam as trepadeiras de flores vermelhas, hoje há um local inóspito. Onde havia memória, hoje há esquecimento.
No lugar da justiça, a esmola. No lugar de uma pátria, um montão de escombros. No lugar da memória, o imediatismo. No lugar da liberdade, um túmulo. No lugar da democracia, um anúncio publicitário. No lugar de realidades, números.
Eles, os de cima, nos dizem: "este é o futuro que te prometemos, desfrute-o".
É isso que nos dizem, e mentem.
Esse futuro se parece demais com o passado. E, se olhamos com atenção, talvez podemos ver que eles, os de cima, são os mesmos de ontem. Os que, como ontem, hoje nos pedem paciência, maturidade, sensatez, resignação, rendição. E nós já vimos e ouvimos isso antes.
Nós zapatistas recordamos. Tiramos a memória de nossas mochilas guerrilheiras, dos bolsos de nossos uniformes de campanha. Recordamos.
Porque houve um tempo em que toda a América Latina estava aqui e nada mais.
Bastava estender a mão e se tocavam os corações dos povos latino-americanos.
Bastava virar um pouco a olhar e aí estavam o relâmpago esparramado do Amazonas, a cicatriz indelével dos Andes, o soberbo erguer-se do Aconcagua, a interminável Terra do Fogo, o sempre inquieto Popocatépetl.
E com eles estavam os povos que lhes deram nome e vida.
Porque houve um tempo em que o Chile e todos os países da América Latina ficavam mais perto do México do que o império que, do norte geográfico e social, impõe distâncias a nós que partilhamos a proximidade da história.
Houve um tempo.
Talvez é ainda esse tempo.
Hoje, como ontem, o dinheiro faz com que as soberbas se tornem irmãs.
Hoje, como ontem, de mãos dadas com poderosas transnacionais, o poder militar estrangeiro pretende pisar nossos solos, às vezes disfarçado nos uniformes dos exércitos locais, ou através de assessores, embaixadas, consulados, agentes secretos.
Hoje, como ontem, estes dinheiros tentam comprar certidões legais de impunidade para os gorilas que os serviram e que, sempre o soubemos, quando diziam "pátria", não falavam do Chile, da Argentina, do Uruguai, da Bolívia, do Brasil. Não, a bandeira era a das barras e das turvas estrelas.
Hoje, como ontem, o norte revoltoso e brutal cerca e pretende asfixiar esta solitária estrela de dignidade que brilha no Caribe.
Hoje, como ontem, os governos de alguns de nossos países lhe servem de triste comparsa no ignóbil compromisso de dobrar o povo de Cuba.
Hoje, como ontem, o império que se arroga o papel de policial do mundo e atropela leis, razões, povos, é o mesmo.
Hoje, como ontem, quem pretende desestabilizar os governos legais e legítimos, mas que não estão subordinados a ele (ontem o Chile, hoje a Venezuela, e sempre Cuba), é o mesmo.
Hoje, como ontem, aquele sistema que se ergue sobre a mentira, o engano, a fraude, a ditadura do dinheiro, pretende nos dar lições de democracia, de liberdade, de justiça.
Hoje, como ontem, quem democratiza a dor, a miséria, a morte para os povos da nossa América, é o mesmo.
Hoje, como ontem, quem persegue, quem tortura, quem prende, quem mata, é o mesmo.
Hoje, como ontem, nos faz a guerra, às vezes com balas, às vezes com programas econômicos, sempre através de mentiras.
Hoje, como ontem, o terror real, o que vem de cima, apela a deus para se justificar.
Hoje, como ontem, se pretende ocultar de nós que é, sim, um deus que lhe dá alento, mas é o deus do dinheiro.
Hoje, como ontem, em alguns países, os covardes são governos.
Hoje, como ontem, as claudicações são disfarçadas com argumentos complexos, pesquisas, roupas de grifes exclusivas, espelhos virados ao contrário.
Talvez seja ainda esse o tempo.
Talvez não.
Porque hoje, a nova e complexa roupagem com a qual se veste a brutalidade do lucro para poucos, às custas da perda para os demais, leva adiante uma verdadeira guerra mundial contra a humanidade.
Nações inteiras são devastadas.
Conquistam-se territórios.
Reordena-se a geografia mundial.
Derrubam-se as fronteiras para os dinheiros e as mesmas são levantadas para os povos.
As culturas históricas de nossos povos tratam de ser suplantadas por frivolidades instantâneas.
Em alguns países, no lugar de governos nacionais há gerências regionais.
Desperdiçam-se recursos naturais, a terra, a história; e sobre as cordilheiras que costuram e unem a América do sul do [Rio] Bravo à Terra do Fogo, querem colocar um letreiro que anuncia, que avisa, que ameaça: "Vende-se".
Os pobres, os espoliados, ou seja, os que integram a imensa maioria da humanidade, são confiscados e classificados.
Confiscados de sua dignidade, classificados nas periferias das grandes cidades, nas margens dos programas governamentais, nos cantos do futuro que agora está sendo decidido, em alguns países, não nos parlamentos ou nas casas nacionais do governo, mas sim nos grupos de acionistas das multinacionais.
Hoje, a exploração é mais brutal do que nunca na história da humanidade, hoje o cinismo é crença filosófica dos que pretendem governar o planeta, ou seja, dos que têm tudo, menos vergonha na cara.
Hoje, a guerra contra a humanidade, ou seja, contra a razão, é mais mundial do que nunca.
Hoje, a guerra é em todas as frentes e em todos os países.
Se ontem era um dever opor-se, lutar, resistir diante da estúpida lógica do lucro, hoje é, pura e simplesmente, uma questão de sobrevivência individual, local, regional, nacional, continental, mundial.
Irmãos e irmãs do Chile:
Houve um tempo em que toda a América Latina estava aqui e nada mais.
Talvez é ainda esse tempo.
Talvez a memória coletiva que, como latino-americanos, nos dá identidade, assume nomes e datas no calendário para dizer, para nos dizer, que há uma pátria maior do que a que nos dá a bandeira.
Com quantos nomes se veste o calendário da dor de nossas terras.
Se na nossa América, Ernesto Che Guevara é um dos nomes com os quais outubro de levanta, o calendário de nós que somos os de baixo se ilumina quando se chama Turcios Lima e Yon Sosa na Guatemala, Roque Dalton em El Salvador, Carlos Fonseca na Nicarágua, Camilo Torres na Colômbia, Carlos Lamarca e Carlos Marighela no Brasil, Inti e Coco Peredo na Bolívia, Raúl Sendic no Uruguai, Roberto Santucho na Argentina, César Yáñez no México.
E nomeio só alguns que, em nossa América Latina, no seu tempo e a seu modo, decidiram colocar um gatilho à esperança e que, às doses de ternura que a América Latina exige de nós para amá-la, acrescentaram uma certa dose de chumbo... e de sangue... o próprio sangue.
O problema, com todos esses que doem no calendário, é que não vão embora sem mais nem menos. Não, ao contrário, vão nos deixando uma espécie de dívida, algo que devemos saldar para poder nomeá-los sem vergonha, sem pena.
Há quem sublinha que aqueles homens e mulheres que tomaram e tomam a rebeldia armada como caminho tiveram, ou têm, um fascínio pela morte, vocação para o martírio, ânsias messiânicas; que só desejam um lugar nas músicas de protesto, nas poesias, nas melodias populares, nas camisetas juvenis, nas lojas de souvenires do turismo revolucionário.
Há quem pensa e diz que as causas são derrotadas quando morrem aqueles que lutam por elas, ou seja, aqueles que as vivenciam.
Há quem diz que o doloroso outubro latino-americano despedaçou a esperança no Chile, no Uruguai, na Argentina, na Bolívia, no México, em toda a América Latina.
Pode ser que seja assim, mas pode ser que não.
Pode ser que aqueles que, como Miguel, se armaram para dizer "Não", na realidade estavam dizendo "Sim" a um amanhã então distante.
Pode ser que aqueles que, como Miguel, tiveram fogo em sua palavra, não fizeram isso para incendiar com a morte, mas sim para iluminar a vida.
Pode ser que aqueles que, como Miguel, pensaram e atiraram, não fizeram isso para ter um lugar no museu da saudade revolucionária, mas sim para que todos os povos, todos, tivessem um lugar no mundo.
Pode ser que o calendário no qual passa o amanhã não tenha nomes ou, melhor ainda, tenha todos os nomes.
Porque pode ser que foi pra isso que as ausências pelas quais sofremos em cada mês latino-americano colocaram uma pequena cruz no calendário, como a que dói neste 5 de outubro.
Pode ser, porque estas ausências, no lugar do vazio, deixam a vontade de fazer a esperança lutar, que é como nós zapatistas dizemos "mudar o mundo".
Pode ser.
Pode ser que a esperança se alimente, como nossa América, da memória.
E pode ser que a memória não seja outra coisa a não ser a cola que volta a juntar a esperança que quebrou no calendário que nos impõem.
Pode ser que esta memória, a que hoje nos convoca e volta a colocar aqui a América Latina, não seja uma herança que essas dores nos legaram, mas sim um dever que nos marcam.
Pode ser.
Talvez é para saber disso que estamos aqui, inclusive os que não estão.
Porque pode ser que hoje não seja igual ao ontem.
Um revolucionário chileno, desses que faziam tremer quando empunhavam um violão, Victor Jará, talvez pensando nos tempos que hoje carregamos, nos disse, e nos diz que: "É difícil encontrar claridade na sombra, quando o sol que nos ilumina desbota a verdade". E disse, nos disse, nos diz: "Oxalá encontre caminho para continuar caminhando".
E foi em terras chilenas, há muito tempo, que Manuel Rodriguez disse, nos disse, nos diz, como mostrando o caminho: "Ainda temos pátria, cidadãos".
E outro, também chileno, aqui perto e sob a metralha que procurava o coração, teve a integridade e a sabedoria para dizer, para nos dizer: "Mais cedo do que tarde, se abrirão de novo as grandes alamedas por onde vai passar o homem livre, para construir uma sociedade melhor".
Pode ser que hoje não seja igual a ontem.
Pode ser que tenham aprendido as lições e, logo, onde antes se borravam folhas na história latino-americana, se corrigirá a letra e se acabará de ler, com a clareza dos que olham de baixo, que "democracia", "liberdade" e "justiça" são palavras graves que se acentuam no coração, ou seja, do lado esquerdo do peito coletivo que somos.
Queria dizer que venceremos, que não nos moverão, que o futuro será nosso, que romperemos mil correntes, que a liberdade é um horizonte próximo; mas nós zapatistas acreditamos que não será assim porque é apresentado por um destino oculto ou manifesto, mas sim porque lutaremos e trabalharemos por isso.
Irmãos e irmãs:
Isso é o que a nossa palavra quer lhes dizer:
Que venha a veia aberta da América Latina que se chama Chile; no seu sangue não tem a ITT, nem a Anaconda Copper, nem a United Fruit, nem a Ford, nem o Banco Mundial, nem Pinochet, nem os nomes com os quais agora se vestem uns e outros, mas sim seus operários, seus camponeses, seus estudantes, seus [indígenas] mapuches, suas mulheres, seus jovens, seu Victor Jará, sua Violeta Parra, seu Salvador Allende, seu Pablo Neruda, seu Manuel Rodriguez, seu Miguel Enríquez, sua memória.
Irmãos e irmãs do Chile:
Recebam todos e todas a saudação de nós que os admiramos e queremos, nós,os zapatistas mexicanos.
Saúde Chile!
Das montanhas do Sudeste Mexicano
Subcomandante Insurgente Marcos
México, outubro de 2004.
P.S. Desculpem se minhas palavras não foram um grande discurso, como foi a vida e a morte de quem, 30 anos depois, hoje nos chama. Na realidade, nós só queríamos aproveitar desse ato para pedir a todos vocês, humildemente, respeitosamente, que, em nosso nome, coloquem uma trepadeira de flores vermelhas na terra que o guarda, e que digam a ele que aqui, nas montanhas do sudeste mexicano, outubro também se chama Miguel.
_________________________
Texto divulgado no La Jornada de 09/10/2004.
30.10.04
25 /10/04
SOCIEDAD DE SOLIDARIDAD SOCIAL YACHIL XOJOBAL CHULCHAN
COLONIA EMILIANO ZAPATA S/N, PANTELHÓ, CHIS., MÉXICO
COMPAÑEROS Y COMPAÑERAS DE LA SOCIEDAD CIVIL NACIONAL E INTERNACIONAL
La sociedad de productores de café Yachil Xojobal Chulchan les envía un cordial saludo y al mismo tiempo exponerles lo siguiente:
En virtud de las injusticias que ha venido practicando el gobierno en cuanto a la comercialización de nuestros productos, en especial el café; un grupo de cafeticultores comenzaron a organizarse para luchar por obtener un pago justo por sus productos, es así como la cooperativa mencionada con anterioridad, nace desde el año de 2001 con 383 socios.
En la actualidad esta cooperativa cuenta con 1522 asociados distribuidos en 7 municipios que son: Santa Catarina, San Juan Apóstol Cancuc, San Pedro Polhó, Chalchihuitán, Tenejapa, Chilón y Sitalá; cuya producción de café para este ciclo está calculada como sigue: 96,369 kilogramos de café orgánico (6 contenedores), 376,947 kilogramos de café en transición (22 contenedores aproximadamente). Como podrán darse cuenta tenemos suficiente café para vender, y debido a esto, pedimos que nos apoyen comprando nuestro producto o, en caso de no tener posibilidades, que nos apoyen contactándonos con personas que se interesen en comprar café, ya sea orgánico o en transición.
Cabe mencionar que del total de esos socios ya mencionados, 239 son de categoría orgánica; mientras que el resto es de 1283 socios, se clasifican en la categoría de transición 1 y 2 respectivamente.
No existiendo otro inconveniente y esperando contar con su valioso apoyo, les damos las gracias por su atención.
ATENTAMENTE
YACHIL XOJOBAL CHULCHAN S. DE S.S.
22.10.04
Terceira parte: pés descalços.
O clube das mutuas caricaturas.
Qual é a velocidade do sonho?
Não sei.
“Não sei”. Essas duas palavras deveriam estar mais presentes no repertório de todos, tão obrigados que às vezes nos sentimos a opinar a respeito de tudo, e a suplantar opiniões por dogmas e receitas (“verdades”, dizem).
No Clube das mutuas caricaturas, ou seja, entre a seleta intelectualidade que, nos e dos meios de comunicação de massa de direita (e alguns “de esquerda”), se mantém alheia (“objetiva”, dizem) à realidade, faz tempo que a crítica e o debate foram suplantados pelo escândalo na mídia, por “neutralidades” (que, no final da edição, são mais fundamentalistas do que Bush e Bin Laden), e por profecias que pouco importa se não são argumentadas ou não se cumprem (“afinal, quem se importa com a realidade?”).
Cortesãos versáteis da periferia do poder, estes intelectuais falam de tudo, são especialistas em tudo. Em sua filosofia instantânea e solúvel (“vamos ao ar – entrego a minha contribuição em poucos minutos, bom, não há tempo para pensar no que vou dizer/escrever”), seguindo as modas que se renovam de tempos em tempos, estes neo-filósofos da pós-modernidade imitam as poses e o método dos “grandes” pensadores, ou seja, abstraem e generalizam. Ou seja, supõem e criam um modelo, e logo o aplicam. As sobras? Pra lixeira (ou seja, fora da programação ou do índice da matéria).
E tem mais. O intelectual e o comunicador que atuam como analistas políticos de direita (e não poucos de esquerda), se erguem a juízes que ditam sentença e esperam, sentados na academia ou na sala de imprensa, que a realidade seja o verdugo que executa a sentença. Se o “sucesso” da filosofia política reacionária, ou seja, a do analista de direita, está em sua capacidade de “justificar” uma ação, o dos que pregam a partir do púlpito dos meios de comunicação está em banalizar a falta de razão. Propondo emoções refletidas e não razões, os comunicadores abordam a guerra, a pobreza, as catástrofes naturais, as arbitrariedades governamentais, os crimes e o cada vez mais freqüente aflorar do descontentamento popular.
Afinal, os sentimentos podem ser tão fugazes como os temas “mais importantes” dos noticiários. Assim, se desesperam pela falta de vídeos.
Mas acontece que muitos deles provocam reflexões, e digamos que a reflexão profunda não é a fonte da comunicação de massas.
A velocidade do pesadelo.
E é com a reflexão teórica (que não é sinônimo de masturbação mental), o debate (que não é pingue-pongue de adjetivos), a troca de experiências (que não é troca de receitas), que, se não se pode saber qual é a velocidade do sonho, se pode, por outro lado, calcular a velocidade do pesadelo. Da nossa própria experiência e do que vemos do globalizado andar de cima, aprendemos que é a mesma do baixar as mãos, do render-se, do resignar-se, do assumir a cômoda e estúpida posição de espectador, do abandonar ideais em nome de um pragmatismo que, no fim das contas, se revela estéril e deformador.
Se o poder mundial presta um culto doentio ao 11 de setembro e ao 11 de março, não é para trazê-los como argumento do pesadelo que globalizam, e querem nos “vender” o sonho de que seu poderio militar e policial evitará que se repitam outros “onzes” no calendário...semeando seu terror em outras datas e no mundo todo. Mas, diante dos “11” do terror de um e outro lado, há, por exemplo, um “15”, o de fevereiro de 2003. Nesta data, mais de 30 milhões de pessoas, de mais de 100 nações do mundo, se mobilizaram contra a guerra.
Muitos dirão que foi inútil, que, seja como for, a guerra se concretizou. Mas esquece-se que as colheitas das semeaduras de baixo nunca são imediatas.
E nem sempre as mobilizações terminam quando se encerram os noticiários. Na maioria das vezes resultam em aprendizagem e organização. O poder pode conviver bem com demonstrações de repúdio das massas, que acabam quando trocam de canal; mas não pode se sentir confortável com a organização deste repúdio, muito menos com seu crescimento.
Porque, em baixo, aprender é crescer.
As mentiras, por mais rating que ostentem, costumam provocar indigestão e vômito. As verdades, com certeza, provocam dor de estômago, mas este costuma ser aliviado ao fazer alguma coisa. Porque, se as mentiras são irremediáveis, as verdades sim têm remédio.
Diante do pesadelo, não basta despertar. A vigília pode florescer no sonho. O impreciso sonho zapatista.
Mas, qual é a velocidade do sonho?
Não sei.
Em nosso sonho, o mundo é diferente, mas não porque algum deux ex machina vai nos dar ele de presente, mas sim porque lutamos, na permanente vigília da nossa vigília, para que este mundo amanheça.
Nós zapatistas temos plena consciência de que, nem nós, nem ninguém, teremos a democracia, a liberdade e a justiça que precisamos e merecemos, até que, com todos, todos a conquistemos.
Com os operários, com os camponeses, com os empregados, com os jovens.
Com aqueles que fazem andar as máquinas, que fazem produzir o campo, que dão vida às ruas e aos caminhos. Com aqueles que, com seu trabalho, todo dia, precedem o sol.
Com aqueles que sempre produzem as riquezas e hoje só consomem as pobrezas.
Nossa luta, ou seja, nosso sonho, não termina.
Contudo, na vigília de todos os dias nos esforçamos para não deixar em herança, àqueles que virão, um espaço de rancor e afã de destruição.
Referendamos a cada momento nossa decisão de não impor a ninguém (nem a nós mesmos) – mesmo que na impunidade da ausência definitiva (tocados pela varinha mágica da morte, esta que transforma em perfeição o que não é outra coisa a não ser um montão de contradições) – uma série de cinismos disfarçados de “razões políticas” ou de fundamentalismo disfarçado de “neofilosofia” universal e eterna.
O zapatismo não é um guia para a ação.
A cada minuto de cada hora de cada dia estamos empenhados em não pregar o culto do “vale tudo”, que costuma ser só um limite para justificar que, no “tudo”, está incluído o trair os princípios. A razão que nos move é ética. Nela, o fim está nos meios.
Queremos, e por isso lutamos quotidianamente contra tudo (incluídos nós mesmos), colocar mais uma pedra em nossa casa, a que queremos toda portas e janelas, pela qual se possa entrar, se possa sair, olhar e ser olhado, sem outro limite a não ser a vontade de fazer ambas as coisas. Uma casa na qual não seja motivo de dor ser mulher, ou criança, ou ancião, ou indígena, ou jovem, ou gay, ou lésbica, ou transexual, ou trabalhador do campo e da cidade. Enfim, um lugar onde pertencer à humanidade não seja uma vergonha.
Queremos continuar lutando com o que somos, como zapatistas. Assim, o novo mundo não nascerá só do nosso passo, mas também dele.
Queremos, finalmente, desaparecer. Para isso, e não para outra coisa, foi que aparecemos. Por isso, nós não estamos em nosso sonho. Pés descalços.
Qual é a velocidade do sonho?
Não sei.
Mas agora, nesta madrugada de setembro, sem outra companhia a não ser a do vento gelado, com a chuva batucando impaciente no telhado da choça, e somando a nuvem que levo a que lá fora repousa, me ocorreu que, talvez, é a mesma velocidade com a qual, no meu sonho, a sombra que sou desvanece na outra e amável sombra entre as pernas dela, enquanto escrevo com meus lábios promessas impossíveis nas plantas de seus pés descalços...
Das montanhas do sudeste mexicano
Subcomandante Insurgente Marcos.
México, setembro de 2004, 20 e 10.
P.S. Termina aqui este programa “científico” do Sistema Zapatista de Televisão Intergaláctica. Depois de um intervalo anticomercial, continuaremos com nossa programação. Não mude de canal. (Na tela, ou seja, na cartolina, aparece: “Sandálias Yepa-Yepa, a única sandália g-l-o-b-a-l-i-z-a-d-a, lança no mercado seu novo modelo “Pozól azedo” edição limitada, a preço de sonho! Não se aceitam cartões de crédito e nem dinheiro. Permissão da Junta de Bom Governo número 69. Aplicam-se restrições”).
________________________
Texto divulgado no La Jornada de 03/10/2004.
Segunda parte: sapatos, tênis, chinelos, sandálias e sapatilhas.
Setembro é o nono mês do ano, e, lá em cima, a lua tem uma barriga de grávida. E até fica um pouco vermelha quando se deixa cair sobre o ocidente. A chuva e as nuvens quiseram se aproximar, mas, preguiçosas, ficaram atrás da montanha, esta que se ergue a oriente. Lá em baixo, no gravadorzinho, Tânia Libertad canta a música que diz “não vão impedir (...), apesar do outono crescemos”. Confundindo-se entre as sombras, a sombra escreve uma carta. Depois do “Exército Zapatista etcetera”, e da data, setembro de 2004, se lê...
Para: Pierluigi Sullo
Direção da revista semanal Carta.
Itália, continente europeu, planeta Terra.
Pedro Luis, irmão:
Receba um abraço das montanhas do sudeste mexicano. Suponho que vai estranhar o “Pedro Luis”, mas é que fiquei contagiado pela “forma” dos companheiros “zapatizar” os nomes, assim coloco Pedro Luis no lugar de “Pierluigi”.
Bom, recebi a carta que você escreveu e não mandou. Ou seja, recebi a carta na Carta. Explico-me: acontece que primeiro me mandaram uma fotocópia da carta que apareceu em Carta (26 de agosto – 1° de setembro de 2004, ano VI, número 31). Como o meu italiano não dá sequer para se parecer com o “italianhol” dos “turbineiros e turbineiras” (que dois anos atrás trabalharam, e duro, para dar luz a La Realidad), tive que pedir que alguém fizesse o favor de traduzi-la. E o fizeram, só que numa língua que aqui chamamos de “itazapanhol” que, se não me falha a memória, foi inaugurada por Vanessa quando, sempre desobediente, ficou anos vivendo na realidade zapatista. Sendo assim, tive que recorrer a alguns dicionários que nos haviam enviado faz tempo (não me lembro muito bem, acho que foi Mantovani ou Alfio). Para isso, tivemos antes que procurar e encontrar os dicionários, que, como era de se esperar, estavam nivelando o pé de uma das mesas de um dos comandos gerais do único ezetaelene.
Talvez esteja enganado, mas cheguei a entender que o objetivo da sua carta é saudar-nos... e colocar problemas.
Segundo minha humilde opinião, o gênero epistolar é um dos melhores meios para o debate (outro, melhor ainda, é a prática política).
Você não diz isso abertamente, mas qualquer um pode perceber que, no fundo, a sua carta coloca, agora da Itália rebelde, o mesmo problema da velocidade do sonho. E mesmo não declarando isso explicitamente, da Itália que luta, ou seja, que sonha, você também responde: “não sei”.
Bom, aos problemas que coloca eu poderia responder com o axioma do inefável do grande (no ego) Don Durito de la Lacandona: “Não há problema suficientemente grande que não possa ser contornado”.
Mesmo parecendo uma receita excelente (em mais de uma ocasião me proporcionou bons resultados), acho que o que você coloca não procura uma solução, mas sim uma discussão.
O “que fazer na Itália?” é, de fato, um problema. Na minha maneira de ver é parte do problema “o que fazer no mundo?”.
Bom, a nossa resposta como zapatistas è... “não sabemos”.
Eu sei que, conhecendo-nos como você nos conhece, você não esperava outra coisa de nós. Contudo, a partir da nossa terra e da nossa luta podemos dizer o seguinte:
Primeiro. No México de hoje, todos os políticos, mesmo aqueles que estão am alta nas pesquisas, nas manchetes dos noticiários ou no número de manifestantes, sem ligar para a cor da retórica que levantam ou para o símbolo de sua organização política, contarão com a áspera desconfiança de nós zapatistas, com nosso ceticismo e nossa incredulidade. Baseados unicamente em suas palavras, promessas, intenções, números, estatísticas, estudos de opinião, não obterão de nós absolutamente nada de bom. Nada, nem sequer o benefício da dúvida. Como o chefe do Exército Libertador do Sul, general Emiliano Zapata, diante de Francisco I. Madero, a nossa hostilidade em relação aos políticos de centro será invariavelmente a norma; e, como Emiliano Zapata diante da cadeira presidencial, continuaremos dando as costas ao Palácio Nacional e aos que aspiram a sentar-se nesta cadeira. E o mesmo vale para o autodenominado “Congresso da União” e o circense Poder Judiciário da Federação.
Segundo. No caso específico dos partidos políticos que se autoproclamam de esquerda e têm registro [legal] no México (e que, não se deve esquecer, não são as únicas organizações políticas de esquerda que existem em nosso país), não podemos deixar de sorrir com amargura quando seus funcionários de partido, governantes, deputados, senadores e periquitos contratados jogam na cara de Vicente Fox o descumprimento de sua promessa de campanha de resolver o “problema” de Chiapas em 15 minutos. Não esquecemos que os que fazem esta crítica são os mesmos que votaram a favor de uma lei que, além de não cumprir um ato de justiça elementar, contrapunha-se fundamentalmente ao clamor dos povos indígenas do México, e de milhões de pessoas em nosso país e em outros lugares do planeta.
São os mesmos que fortalecem grupos paramilitares para hostilizar e agredir as comunidades zapatistas. São os mesmos que se empenham em parecer agradáveis a uma direita (chame-se ela de alta hierarquia eclesial ou empresarial) que, é preciso dizê-lo, não sente nenhum atração por eles. São os mesmos que carregam, debaixo do braço, os planos econômicos e policiais esboçados no board directory da cobiça internacional.
Mesmo assim, não podemos respaldar com o nosso silêncio as sujeiras jurídicas com as quais se pretende impedir que quem encabeça o governo da Cidade do México se apresente em 2006 para disputar a Presidência do país. Parece-nos que se trata de uma ação ilegítima, mal abrigada em falácias legais, que atenta contra o direito dos mexicanos de dizer se um ou outro ou ninguém é governo. A concretização de tamanha traição significaria, nem mais, nem mais, a invalidação do artigo 39 da Constituição mexicana, que consagra o direito do povo de decidir a sua forma de governo. Seria, para falar isso em termos simples, um golpe de Estado “brando”.
Ao assinalar isso, não nos colocamos do lado de uma pessoa e nem de um projeto de governo. Muito menos se traduz no apoio a um partido que não só não é de esquerda e nem é progressista e que tampouco é republicano. Colocamo-nos, pura e simplesmente, do lado da história de luta do nosso povo.
Terceiro. As eleições passam, os governos passam. A resistência fica como é, mais uma alternativa para a humanidade e contra e neoliberalismo. Nada mais, mas nada menos.
Contudo, coerentes com a aversão que professamos para os dogmas, admitiremos sempre que podemos estar equivocados e que poderia acontecer, de fato, como pregam agora os caga-tintas da moda, ser necessário, urgente, imprescindível, entregar-se incondicionalmente nos braços de quem, lá de cima, promete mudanças que se podem conseguir somente a partir de baixo.
Podemos estar equivocados. Quando nos dermos conta porque a dura realidade atravessa o nosso caminho, seremos os primeiros a reconhecer este equívoco diante de todos, próximos e contrários. Será assim porque, entre outras coisas, nós acreditamos que a honestidade diante do espelho é necessária para todos aqueles que, com a palavra ou de fato, se comprometem com a construção de um mundo novo.
Todavia, nós colocamos a vida em nossos acertos e em nossos equívocos. Creio sinceramente que, desde a madrugada de primeiro de janeiro de 1994, ganhamos o direito a decidir nós mesmos o nosso passo, sua cadência, sua velocidade, sua companhia contínua ou esporádica, suas estações e, sobretudo, o seu destino. Não cederemos este direito. Estamos dispostos a morrer para defendê-lo.
Quarto. Continuaremos fazendo o que acreditamos que é o nosso dever. E isso sem ligar para o rating que venham a ter nossas ações, para o lugar que ocuparemos nos noticiários, ou para as ameaças e profecias que, de um e do outro lado do espectro político, se preocupam em receitar-nos toda vez que não fazemos o que querem que façamos ou que não dizemos o que querem que digamos (coisa que acontece o tempo todo).
Não nos uniremos à gritaria histérica da classe política, e de seus fans nas colunas de “análise política”. O que pretendem impor, sempre de cima, é uma agenda que não tem nada a ver com o que acontece aqui em baixo no nosso país, a saber, o desmantelamento implacável dos fundamentos da soberania nacional.
Tampouco estapearemos o calendário para que 2006 adiante sua incerteza, sua feira de vaidades, seu cínico esbanjamento de recursos e estupidez. Muito menos será nosso guia de ação o daqueles que exigem de nós que ponhamos os nomes de presos, desaparecidos e mortos, enquanto eles põem os nomes nas listas múltiplas [das eleições].
Quinto. Isso não quer dizer que não estejamos ouvindo. Fazemos isso e continuaremos a fazê-lo. Palavras de alento e de crítica chegam até nós de todos os lugares do mundo, junto a conselhos e admoestações, adesões e repúdios. Ouvimos tudo e o guardamos no coração coletivo que somos. Qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo pode ter certeza de que nós zapatistas a ouviremos.
Mas uma coisa é ouvir e outra é obedecer.
As “polêmicas” sobre se nós zapatistas somos revolucionários ou reformistas, lights ou heavys, ingênuos ou maliciosos, bons ou maus, nos deixam indiferentes e, como os mosquitos nas longas noites das montanhas do sudeste mexicano, não são o que nos tira o sono.
Nas terras zapatistas não mandam as transnacionais, nem o FMI, nem o Banco Mundial, nem o imperialismo, nem o império, nem os governos de um ou outro símbolo. Aqui são as comunidades a tomar as decisões fundamentais. Não sei como isso se chama. Nós o chamamos “zapatismo”.
Mas o nosso não é um território liberado, nem uma comuna utópica. Tampouco o laboratório experimental de um despropósito ou o paraíso da esquerda órfã.
Este é um território rebelde, em resistência, invadido por dezenas de milhares de soldados federais, policiais, serviços de inteligência, espiões de várias nações “desenvolvidas”, funcionários que trabalham na contra-insurreição e oportunistas de todo tipo. Um território composto por dezenas de milhares de indígenas mexicanos acossados, perseguidos, hostilizados, atacados por se negar a deixar de ser indígenas, mexicanos e seres humanos, ou seja, cidadãos do mundo.
Sexto. No resto do planeta, a nossa ignorância é enciclopédica (de fato, ocuparia mais volumes do que as obras completas da palavra externa e interna dos neozapatistas, a qual, diga-se de passagem, é abundante) e pouco ou nada podemos dizer sobre organizações políticas de esquerda que lutam ou dizem lutar sob outros céus.
Aí, como em toda parte, preferimos olhar pra baixo, para movimentos e tendências de resistência e de construção de alternativas. Só nos viramos para olhar pra cima quando uma mão de baixo aponta para lá.
Sétimo. Com nossas grosserias ou acertos, definições ou aspectos vagos, estamos tratando, só tratando, mas colocando a vida nisso, de construir uma alternativa. Cheia de imperfeições e sempre incompleta, mas uma alternativa nossa.
Se chegamos até onde chegamos não foi, contudo, por nossa única capacidade ou decisão, mas sim pelo apoio de homens e mulheres do mundo inteiro que compreenderam que nestas terras não há um montão de necessitados ávidos por esmolas ou lástima, mas sim seres humanos que, como eles e elas, anseiam e trabalham por um mundo melhor, um mundo onde caibam todos os mundos.
Acho que tamanho esforço merece a simpatia e o apoio de toda pessoa honesta e nobre no mundo.
E acredito que, na maioria das vezes, este apoio encontra sua versão mais afortunada na luta que empreendem ou mantêm em suas respectivas realidades, seja qual for sua cultura, língua, bandeira, tipo de calçado, sapato, tênis, chinelo, sandália ou sapatilha.
Neste sentido, na nossa geografia, estão mais perto das comunidades zapatistas realidades que os mapas apontam como distantes.
Assim, está mais perto de nós a Europa de baixo: a Itália desobediente e da autogestão; a Grécia que se comunica com sinais de fumaça; a França dos chinelos, dos sem documentos e sem teto, mas com dignidade; a Espanha insurreta e solidária; o Euzkal Herria que resiste e não se rende; a Alemanha rebelde; a Suíça comprometida; a Dinamarca companheira; a Suécia perseverante; a Noruega conseqüente; a Pátria negada aos kurdos; a Europa marginal na qual sofrem os imigrantes; toda a Europa dos jovens que se negam a comprar ações nas bolsas do cinismo...e as mulheres mexicanas indígenas mazahuas.
Rebeldias e resistências que sentimos mais próximas do que as intermináveis distâncias que nos separam da soberba cidade de San Cristóbal de las Casas e dos partidos políticos que falam com a esquerda e agem com a direita.
Bom, companheiro Pedro Luis, por enquanto é tudo. Acredite que não lamento se, com o que te escrevo corro o risco “de ser julgado com alguém que está delirando, que não vê a realidade”. Seja como for, continua pendente o problema fundamental, a saber, o de esclarecer qual é a velocidade do sonho.
Enquanto se resolve, recebe um abraço e da próxima vez que for escrever, mande, além da carta em Carta, uma tradução, mesmo que seja em “italianhol”.
Valeu. Saúde, e que a gritaria de cima não impeça de ouvir o murmúrio de baixo.
(a continuar...)
Das montanhas do sudeste mexicano
Subcomandante Insurgente Marcos.
México, setembro de 2004, 20 e 10.
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Texto divulgado no La Jornada de 02/10/2004.
Primeira parte: as botas.
Nas montanhas do sudeste mexicano, a madrugada não corre. Sem pressa, se deleita em todos os cantos, como amante paciente e delicada. Com seu longo vestido de nuvem, a neblina anda de mãos dadas com ela e consegue asfixiar a luz mais obstinada, a cerca, a rodeia com sua nívea parede, a encerra num aro difuso. Da metade do céu, a lua bate em retirada. Uma voluta de fumo se confunde com a neblina, vagarosamente, com a mesma lentidão com a qual a nuvem agasalha as choças dispersas sob o amplo vôo de sua anágua. Todos dormem. Todos, menos a sombra. Todos sonham. Sobretudo a sombra. Só estende a mão e apanha uma pergunta.
Qual é a velocidade do sonho?
Não sei. Talvez é... Mas não, não sei...
Na verdade, por aqui, o que se sabe, sabe-se coletivamente.
Sabemos, por exemplo, que estamos em guerra. E não me refiro só a guerra especificamente zapatista, que não satisfaz a ânsia de sangue dos meios de comunicação e de alguns intelectuais “de esquerda”, tão dedicados como são, uns às quantidades de mortos, feridos e desaparecidos, outros a traduzir mortes em erros “porque não fazem o que eu lhes dizia”.
Não só. Falo também desta que chamamos de “IV Guerra Mundial”, travada pelo neoliberalismo e contra a humanidade. A que se desenvolve em todas as frentes e por toda parte, incluindo as montanhas do sudeste mexicano. Tanto na Palestina como no Iraque, na Chechenia ou nos Bálcãs, no Sudão ou no Afeganistão, com exércitos mais ou menos regulares. A que, de mãos dadas com estas, é levada a todos os cantos do planeta pelo fundamentalismo de um e de outro bando. A que, assumindo formas não militares, faz vítimas na América Latina, na Europa social, na Ásia, na Oceania, no longínquo Oriente, com bombas financeiras que fazem voar em pedaços estados nacionais inteiros e organismos internacionais.
Esta guerra que, para nós (insisto: tendencialmente), pretende destruir/despovoar territórios, reconstruir/reordenar as geografias locais, regionais e nacionais, e criar, a sangue e fogo, uma nova cartografia mundial. Esta que vai deixando pelo caminho a assinatura de sua identidade: a morte.
Talvez, a pergunta “Qual é a velocidade do sonho?” deveria ser acompanhada da pergunta “qual é a velocidade do pesadelo?”.
Todavia, uma semana antes dos atentados terroristas de 11 de março de 2004, na Espanha, um jornalista-analista político mexicano (desses que depois de um doce se soltam e cantam elogios ridículos) louvava a visão “de Estado” de José Maria Aznar.
O analista dizia que, ao acompanhar os Estados Unidos e a Grão Bretanha na guerra contra o Iraque, Aznar havia conseguido um campo promissor para a expansão da economia espanhola, e que o único preço a pagar era o repúdio de uma “pequena” parte da população espanhola, “os radicais que nunca faltam, inclusive numa sociedade tão afortunada como a espanhola”, disse o “analista”. E mais, sublinhou então que os espanhóis deviam esperar sentados que o negócio da reconstrução do Iraque começasse a caminhar, e aí sim, receber carreadas de dinheiro. Em suma, um sonho.
A realidade não demorou a cobrar a verdadeira fatura da “visão de Estado” de Aznar. Naquela manhã de 11 de março se cumpria o fato de que o Iraque não está no Iraque, quero dizer não só no Iraque, como no mundo inteiro. Enfim, a estação de Atocha como sinônimo de pesadelo.
Mas antes do pesadelo havia o sonho, só que o sonho neoliberal. A guerra contra o Iraque havia se colocado em marcha com ampla antecedência em relação aos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 em território estadunidense.
Para ir a este começo, nada como uma foto...
Terreno plano, avermelhado. Adivinha-se duro. Talvez de argila ou de algo parecido. Uma bota. Sozinha, sem seu par. Abandonada. Sem um pé que a calce. Alguns escombros esparramados. De fato, a bota parece mais um escombro. É tudo o que há na imagem. Assim, são as linhas embaixo da foto que esclarecem se tratar do Iraque. Data? Setembro de 2004.
Impossível saber se a bota é de alguém que morreu, que a abandonou na fuga, ou se trata pura e simplesmente de uma bota. Tampouco se sabe se é a bota de um soldado estadunidense ou britânico, ou de um combatente da resistência, de um civil iraquiano ou de outro país.
Contudo, apesar da falta de maiores informações, a imagem dá uma idéia do que é o Iraque do “pós-guerra” de Bush: violência, morte, destruição, desolação, confusão, caos. Todo um programa neoliberal.
Ao vir abaixo o falaz argumento de que a guerra contra o Iraque era uma guerra “contra o terrorismo”, as verdadeiras razões emergem agora, mais de um ano depois que, ajudada pelos tanques de guerra estadunidenses, foi derrubada a estátua de Hussein e um Bush eufórico erguia outra a si mesmo declarando o fim da guerra. (Provavelmente a resistência iraquiana não ouviu a mensagem de Bush: o número de soldados estadunidenses e britânicos mortos e feridos não fez outra coisa a não ser aumentar desde que “acabou a guerra”, e agora se somam as baixas civis procedentes de várias nações).
Nos Estados Unidos, a ideologia conservadora tem um sonho: construir a “Disneylândia” neoliberal. No lugar de uma “aldeia modelo”, reflexo dos manuais de contra-insurreição dos anos 60, tratava-se de construir uma “nação modelo”. Escolheu-se então o território da antiga Babilônia.
O sonho da construção de um “exemplo” do que deve ser o mundo (sempre de acordo com os neoliberais) nutriu-se da “(...) mais apreciada crença dos arquitetos ideológicos da guerra (contra o Iraque): que a cobiça é boa. Boa não só pra eles e seus amigos, mas sim boa para a humanidade, e, com certeza, boa para os iraquianos. A cobiça gera lucros, os quais geram crescimento, que cria empregos, produtos e serviços, e qualquer outra coisa que, possivelmente, alguém possa precisar ou querer.
O papel de um bom governo, então, é criar as condições ideais para que as corporações levem adiante sua cobiça sem fim, de tal maneira que, por sua vez, se possam satisfazer as necessidades da sociedade.
O problema é que os governos, mesmo que neoconservadores, raramente têm a oportunidade de provar o quanto é correta a sua sagrada teoria: apesar de seus enormes esforços ideológicos, até os republicanos de George Bush são, em suas próprias cabeças, eternamente sabotados por democratas intrometidos, sindicatos teimosos e ambientalistas alarmados. O Iraque ia mudar tudo isso. No lugar da Terra, a teoria seria finalmente colocada em prática em sua forma mais perfeita e descomprometida.
Um país de 25 milhões de habitantes não seria reconstruído como era antes da guerra: seria apagado, feito desaparecer. No seu lugar, um deslumbrante salão de exposições para as políticas de lasseiz-faire, uma utopia como o mundo jamais havia visto” (“Bagdá ano zero. A pilhagem do Iraque depois de uma utopia neoconservadora”, Naomi Klein, em Harper’s Magazine, setembro de 2004. Tradução: Julio Fernández Baralbar).
Em vez disso, o Iraque é sim um exemplo, mas do que o mundo inteiro pode esperar se os neoliberais ganharem a guerra, a IV Guerra Mundial: desemprego de quase 70%, indústria e comércio paralisados, aumento exorbitante da dívida externa, muros a prova de explosões por todos os lados, crescimento geométrico do fundamentalismo, guerra civil... e exportação do terrorismo para todo o planeta.
Não vou saturá-los com algo que sai todos os dias nos noticiários: ofensivas militares da coalizão (atenção: numa guerra que “já acabou”), mobilização da resistência iraquiana, atentados, ataques contra alvos militares e civis, seqüestros, execuções, novas ofensivas da coalizão, nova mobilização da resistência iraquiana, etcetera. Tenho certeza de que encontrarão informação abundantes na imprensa do mundo todo. Em castelhano, sem dúvida a melhor fonte é o jornal mexicano La Jornada, que conta entre seus colaboradores com alguns dos jornalistas mais sérios e documentados sobre o tema do Iraque.
O certo é que já vimos este filme antes em outros lugares...e continuamos a vê-lo: Chechenia, os Bálcãs, Palestina, Sudão, são só exemplos desta guerra que destrói nações para tratar de “convertê-las” em “paraísos”...e acabam transformando-as em infernos.
Uma bota abandonada nas terras do Iraque “liberado” resume a nova ordem mundial: a destruição das nações, a desertificação de qualquer indício de humanidade, a reconstrução como reordenação caótica das ruínas de uma civilização.
Contudo, há outras botas, ainda que sejam...
Botas quebradas. Sim, as botas da insurgente Érika estão quebradas. Na ponta do pé direito, a sola se desprendeu e dá à bota um ar de boca insatisfeita. Os dedos ainda não estão visíveis, de tal forma que Érika não parece ter se dado conta de que suas botas, e sobretudo a direita, estão quebradas.
Desde os primeiros dias na montanha, ao olhar pra baixo acabei acostumando. O calçado costuma ser um dos sonhos/pesadelos do guerrilheiro (outros?: o açúcar, ter os pés enxutos, e outras obsessões mais úmidas), de tal forma que lhe dedica boa parte da sua atenção. Talvez é por isso que adquire essa mania de olhar sempre os pés do outro.
A insurgente Érika veio me avisar que acabaram de editar o conto A laranja mágica (última produção de Rádio Insurgente que trata de...bom, é melhor que se sintonizem e o escutem). Eu respondo que tem a bota quebrada. Ela baixa o olhar e me diz “você também”. Faz a saudação militar e vai embora.
Érika vai se trocar porque daqui a pouco jogam futebol duas equipes de mulheres insurgentes, uma se chama “8 de março”, e outra “As Princesas da Selva”. Não entendo muito de futebol, mas, a meu ver, as “princesas” jogam com um estilo que se distancia bastante dos bons costumes da corte real, e as da “8 de março” o fazem como se fosse o levante de primeiro de janeiro. Ou seja, boa parte delas acaba no posto de saúde insurgente. E tem mais, cada vez que vão jogar, as da saúde deixam a maca do lado da quadra. “Para não dar a volta”, dizem.
Empataram, ou seja, no futebol, as insurgentes empataram. Foram para os pênaltis e chegou a hora da formação sem que desempatassem. E é a insurgente Érika a me dizer isso. Érika é uma espécie de assessora sentimental das insurgentes, mas desta vez não vem me contar que uma companheira tem “o coração que dói” de mal de amores, mas sim que o jogo acabou e que ela vai falar nos povoados, mais concretamente, às mulheres dos povoados. Vá a paisana, ou seja, com roupa civil. Bom, isso é ela quem diz. Porque eu vejo que está com umas botas feitas nas oficinas zapatistas e tem gravado um “EZLN” num dos lados.
“Mmmh, se for usar estas botas é melhor ir com o uniforme completo”, digo tentando ser sarcástico. Érika vai embora. Daí a pouco, volta de uniforme. “Pra onde vai?”, pergunto. “Para o povoado”, responde. “Mas, o que te deu pra ir de uniforme?, pergunto em tom de reprovação. “Foi você que me disse!”, diz. Entendo que é inútil explicar as qualidades da ironia sutil, de tal forma que me limito a ordenar: “Não, vá a paisana e tire estas botas”. Ela vai embora. Daí a pouco volta, com roupa civil...e descalça. Eu suspirei, que mais podia fazer?
Não acreditem na Érika, a minha bota não está quebrada. Está descosturada, que não é a mesma coisa. Além disso, é só um ponto que soltou, e por isso o entrecruzar-se dos pontos da agulha parece um sistema político no neoliberalismo, ou seja, é uma confusão e não se sabe pra onde vai a direita e pra onde vai a esquerda. Estou explicando isso a Rolando quando chega... Toñita Primeira-Geração, ou seja, Toñita I (a do beijo negado porque “pinica muito”, a da xícara quebrada, a do sabugo de milho transformado em boneca) já tem 15 anos. “Ou seja, cumpriu 14, mas entrou nos 15, isto é, já vai para 16”, me diz o pai dela, um responsável zapatistas dos mais antigos a estar conosco.
Eu faço sinal que sim, sem confessar que nunca entendi as altas matemáticas que regem os calendários nas comunidades rebeldes zapatistas (depois de tratar, inutilmente, de explicar-me, Monarca se resigna e só acrescenta: “Acho que é porque esse é o nosso jeito, que é bem diferente”).
O pai de Toñita I (ou seja, Toñita Primeira-Geração) vem para que eu a veja, porque já faz mais de dez anos desde que a vi pela última vez. Dez anos não passam em vão, de tal forma que Toñita não só não me nega um beijo, como, sem que eu diga nada, me abraça e deixa cravado um beijo na fofa bochecha do passamontanhas e fica completamente corada (a Toñita I e não o passamontanhas). Não digo nada, mas penso “Mmmh, esse ano foi mau...e isso porque não tenho tirado o passamontanhas nem pra tomar banho”.
Então, Toñita I tira suas botas da mochila e as calça. Estou pra perguntar porque ela põe as botas depois de caminhar seis horas descalça desde o seu povoado no lugar de colocá-las para fazer o caminho e tirá-las ao chegar, mas Toñita I se adianta e me pergunta se pode ir pra “lá” – e aponta pra onde há um grupo de mulheres insurgentes. Toñita I sabe o que um beijo pode conseguir, mesmo que seja no passamontanhas, de tal forma que não espera a resposta e vai.
Enquanto Toñita I corre pra ver se a deixam jogar no jogo de futebol das insurgentes, o pai dela me conta do seu povoado (aquele que eu sempre chamei, cuidando para que ninguém soubesse, de “Cúpulas Tempestuosas”). Cheguei a ver a cicatriz de um corte no braço esquerdo de Toñita, e assim lhe pergunto sobre isso.
O pai de Toñita me conta que um jovem do povoado queria levá-la pra latrina. (Nota: esclareço o improvável leitor destas linhas que em alguns povoados a latrina não cumpre só suas cheirosas funções higiênicas, mas também costuma ser lugar de encontro de casais. Não são poucos os casamentos nas comunidades que têm como origem o nada romântico lugar da latrina. Fim da nota). O caso é que Toñita I não quis ir pra latrina. “Ou seja, não era do seu gosto”, me confirma o pai dela. Foi aí que o rapaz quis obrigá-la e, então, “como não era do seu gosto” – reitera o pai dela – lutaram. Toñita I conseguiu fugir, mas, como diz logo em seguida, o assunto se tornou público e chegou na assembléia do povoado. O pai de Toñita me conta que queriam prendê-la. Eu interrompo: “Mas por que, se é ela que foi atacada e até traz um corte no braço?”.
“Ah, Sup, é que você devia ver em que estado ficou o jovem... – me diz o pai -, ele ficou no chão inconsciente, é que, como se costuma dizer, Toñita é muito brava”.
Além de um rosto bonito, Toñita I tem um porte físico avantajado, ou seja... como é que vou dizer isso?, bom, para que vocês me entendam, só vou dizer que Rolando quer que ela jogue na zaga central da seleção zapatista de futebol.
“Mas o time das insurgentes já está completo”, digo a Rolando. Ele só acrescenta: “acaso é para o time das insurgentes, eu a quero no dos homens”. Nisso passam as da saúde com as insurgentes bastante machucadas. Toñita I está chorando porque, por culpa sua, marcaram dois pênaltis contra o seu time. Entendo Rolando e me viro em direção ao pai e lhe pergunto: “Toñita não tem dito que quer ser insurgente?”.
Toñita I tirou as botas e as colocou na mochila. Vai embora com o pai dela, caminhando descalça.
Não faz muito que ela foi quando aparece, acompanhada pela mãe...a Toñita Segunda-Geração, ou seja, a Toñita II.
A mãe da Toñita II, ou Segunda Geração, se chama Elena. É tenente insurgente de saúde e, entre seus méritos, está que em janeiro de 1994 ela salvou a vida de vários insurgentes e milicianos que saíram feridos dos combates de Ocosingo. Num mais que modesto hospital de campanha, Elena operou feridas de bala e extraiu estilhaços delas do corpo dos zapatistas. “Morreu-nos um companheiros” disse ao informar. Não mencionou os mais de 30 combatentes, que hoje vivem e lutam nestas terras, e que foram salvos por ela.
Toñita II tem três anos. “ou seja, completou dois e vai para quatro?”, adianto à explicação de Elena. Ela ri. Quero dizer, Elena ri. Porque Toñita está dando uns berros dignos da melhor causa. Acontece que, assumindo o meu olhar elegante (o de número 7 do meu exclusivo “catálogo de olhares sedutores”) lhe pedi um beijo. Toñita II nem sequer disse que “pinica muito” (ou seja, não é uma versão melhorada), simplesmente despencou a chorar com tal veemência que já tem ao seu lado um grupo de mulheres insurgentes que lhe oferecem balas, uma sacolinha com cara de coelho (ainda que me parece que tem cara de gambá – a bolsinha, se entende), e estão até cantando pra ela a do cordeirinho que rola e que tem um inusitado êxito entre as crianças zapatistas.
“Não te querem”, me diz a major Irma chovendo no molhado. Eu respondo: “Bah, está louca por mim”, e faço de conta que não tenho o coração despedaçado.
Saindo da bodega, Rolando me dá uma destas agulhas chamadas “capoteras” e um rolo de fio de náilon. Já na choça do comando do EZLN estou em dúvida...
Se não sei a velocidade do sonho, também não sei se devo costurar as botas ou o coração.
(a continuar...)
Das montanhas do sudeste mexicano
Subcomandante Insurgente Marcos.
México, setembro de 2004, 20 e 10.
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Texto divulgado no La Jornada de 01/10/2004.
2.10.04
Ler um vídeo.
Oitava parte: Enter Durito
Quando, depois das palavras finais, a tela fica azul (bom, já sei que é uma cartolina, mas se entende que continuo com o vídeo) há muito pouca gente permanecendo na expectativa (logo, vão ver que há vídeos que depois do final ainda reservam alguma coisa). Pois então, quando ninguém espera (inclusive, eu), aparece na tela (ou seja, na cartolina) um escaravelho com a seguinte falação:
Vamos! Vamos! Nada de aplausos. Que as fêmeas segurem seus suspiros, que os varões controlem suas invejas, que as crianças não joguem inseticida em seus pôsteres do homem aranha. Fiquem tranqüilos que eu, o grande Don Durito de la Lacandona, ficarei só por alguns instantes e com o único objetivo de aumentar o rating deste...vídeo?
Na realidade, colocamos esta parte só por maldade, para detonar as previsões daqueles que achavam que seriam só sete partes, já que os primeiros deuses blá, blá, blá. De tal forma que esta é a oitava, e pode ser muito bem que da próxima vez venha a sexta (?).
Em nome do Comitê de Direção (ou seja, de nós mesmos) do Sistema Zapatista de Televisão Intergaláctica não lhes pedimos desculpas por tê-los importunado. Vamos deixá-los novamente com esta programação tão “apaixonante” de desaforos, cortes de lista, medalhas de prata, o avanço avassalador do “partido do palanque do estádio CU” (dixit o das casquinhas) e, last but not least, o informe do governo (não entendo porque são atraídos por ele se já sabem o desfecho desta telenovela).
Na hipótese improvável de que alguém queira continuar em nosso canal, terá a oportunidade de presenciar...ao vivo e a cores!...As Olimpiaaaaaaaaaaaaaadas Zapatoooooooooooonas!. Sim, com o lema de “mais baixo, mais devagar, mais fraco”, os zapatistas demonstrarão porque têm treinado tanto para perder. Comuniquem-se só com suas consciência e terão o evento onde quer que se encontrem. Os primeiros a se inscreverem receberão, além de nossa seleta programação, um pôster autografado (de tamanho modesto, ou seja, de cinco por cinco metros) de mim mesmo, mas numa pose para a qual não há “X” que chegue (há restrições).
Não troque de canal, voltaremos...
(Não vai mais continuar...ou melhor, sim, mas daqui a um tempo)
Das montanhas do Sudeste Mexicano.
O Sup correndo ao banheiro por causa de umas empadas, tomando o cuidado de não ir muito rápido, para chegar em segundo lugar (vamos ver se, pelo menos, assim nos chamam primeiro)
México, agosto de 2004. 20 e 10.
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Comunicado divulgado através do La Jornada em 28/08/2004.
Ler um vídeo.
Sétima parte: sete dias em território zapatista.
Foi recebida a observadora F, e W que esteve aqui no caracol IV, informou que aprendeu muitas coisas durante os dias em que ficou por aqui e que vão lutar em seus países de origem, Itália e Espanha; levam a flor da palavra ao coletivo.
Aqui no caracol IV, se reuniram 13 professores de diferentes municípios, onde estiveram praticando o ensino das consoantes: L – CH – J – B – K – N – R – W – X – Y. Foram estas as letras estudadas com motivação e através da apresentação de objetos naturais e artificiais, palavras ou enunciados para identificar as sílabas de cada letra e programaram uma reunião; ficou para os dias 20 e 21 no município Miguel Hidalgo.
Três companheiros saíram em comissão rumo ao município Che Guevara para investigar os problemas que ocorreram no município mencionado em relação à semeadura de maconha, sim é possível que isso tenha acontecido no lugar dos fatos “X”, dois companheiros foram detidos por esta provocação no presídio do município Che Guevara para pagar por seus erros. Os companheiros do operador de vídeo filmaram o que aconteceu, o vídeo será entregue à Junta. As autoridades deste município se responsabilizam a levantar uma ata de acerto com o detido e entregam uma cópia na Junta de Bom Governo; os detidos reconhecem os gastos da comissão da Junta em seiscentos Pesos.
Recebemos o senhor I, da Argélia, que veio preparar a comida Cus-Cus, acompanhado por uma delegação do comitê de solidariedade da França.
Terça-feira: no caracol de Roberto Barrios.
Recebemos a irmã N, da Suíça, de uma organização Z, e entregou uma doação de 57 mil 790 Pesos para as comunidades necessitadas da Região Norte e a cada um dos 10 municípios coube a quantia de 6 mil 229. Se a conta não dá certo é porque somamos a isso o que foi dado por um irmão do DF e assim a conta dá certo.
Reunião da comissão para tratar do logotipo do carro que foi chamado Milho resistente, em chol P’atal ba ixim e em tzeltal Tulan ixim. Os auxiliares de Semente do Sol entregaram dois dicionários, dois globos terrestres e um mundo com pedestal.
Recebemos os irmãos do Japão da organização de solidariedade zapatista que quer trabalhar nos murais. Foi feita uma carta para a organização da Holanda sobre o projeto de nove farmácias, três casas de saúde, capacitação e uma ambulância.
Quarta-feira: no caracol de La Garrucha.
Apresentou-se o companheiro Benito do povoado “X” do município Francisco Gómez. Assunto: problema da lenha com a ARIC oficial. Por causa deste problema da lenha, as mulheres se enfrentaram na igreja, um homem da ARIC bateu numa mulher zapatista, também um companheiro de base se enfrentou com um tal de Artemio da ARIC oficial. Em meio a este pleito, uma mulher “prijista” tira a roupa diante de todos para ver se alguém a estupra. Isso não deu em maiores problemas e o companheiro Benito não esperou que seu dirigente se apresentasse à convocação do turno passado.
Apresentaram-se o senhor B e o senhor A, de Ocosingo. Assunto: informar em relação ao táxi detido. O coordenador do transporte da região de Ocosingo disse que o táxi já pode ser resgatado desde que se assine um papel onde se diz que o táxi não é para o trabalho. A JBG enviou outro ofício ao coordenador e ao delegado do governo do estado para que libere imediatamente o táxi porque se não respeitam o trabalho honrado então as pessoas se tornam delinqüentes ou políticos, ou o povo pobre se juntará e se levantará em armas como os zapatistas em primeiro de janeiro de 94 e que respeitem então seu trabalho de taxista.
Apresentaram-se na JBG pessoas da organização PRD de Ocosingo, para relatar o roubo de nove cavalos, quatro arreios e uma moto-serra. A JBG passou a investigação ao Município Autônomo Rebelde Zapatista Francisco Gómez, e quando encontraram os que haviam cometido o roubo, chamaram os donos para entregar a eles seus animais e suas coisas; não se aceitou o dinheiro que ofereciam por suas coisas, e aos que haviam roubado se disse que não voltassem a fazer isso porque podiam ir pra cadeia.
Apresentou-se na JBG a senhora Transita, assunto de um problema de terreno com os companheiros bases de apoio de um bairro de Ocosingo, cuja superfície é de 8 por 15 em terra recuperada; a JBG pediu seus papéis do terreno, e respondeu que não tem nenhuma documentação como dona, a JBG investigou e resultou que este terreno havia sido vendido por alguém que tampouco era o dono e por isso os companheiros e o resto do bairro destruíram a casa, e ela entrou com quatro processos no Ministério Público, três são contra bases de apoio e um contra o delegado que não é companheiro; depois de várias negociações a JBG propôs devolver o terreno e os materiais se ela retirar as quatro demandas; suas coisas já foram devolvidas e ela não retirou uma das demandas, que é a do delegado que não é companheiro, porque anda falando mal dela, a JBG exige que se cumpra o acordo feito sem que nada tenha a ver o que o delegado fala ou deixa de falar. Espera-se ainda o cumprimento.
Apresentaram-se as autoridades da organização “X” para resolver o problema de um estupro e de um enfrentamento que ocorreu por um problema de terra, e foram dadas três respostas com as quais eles, como autoridade, assinaram concordando: 1. As autoridades oficiais se ocuparão do problema do estupro; 2. Que os refugiados voltem a seus lugares de origem, e 3. Que haja um acerto pacífico para todos os problemas.
De 21 casos, 16 estão resolvidos, quatro estão pendentes e um não foi resolvido.
Quinta-feira: no caracol de Oventic.
Chegou Ofélia com um doutor para ver se damos a permissão de mostrar uns fogões para que não se gaste lenha e lhe demos a permissão.
Chegaram da revista Rebeldia e logo da FZLN para entregar o dinheiro da campanha que se chama “20 e 10, o fogo e a palavra” e que é para as Juntas de Bom Governo e foi enviado ao EZLN para que reparta o todo em cada Junta. Chegou também [alguém] dos Jovens da Resistência Alternativa do DF para a mesma razão.
Avaliou-se o projeto da bloqueria de Polhó com os de Enlace.
O município autônomo de San Andrés Sakamchén pede emprestados dez mil Pesos para consertar os carros da presidência.
Os que ajudaram para as necessidades dos refugiados de Zinacantán, do CIEPAC, da DESMI, da Alemanha, Granada, Médicos do Mundo, Associação Civil Comunitária, dos jogadores da Itália da equipe que se chama Internazionale de Milano, dos Estados Unidos e de pessoas individuais, deu um total de 616 mil 302 Pesos e 26 centavos.
Sexta-feira: no caracol de La Realidad.
Uma senhora de Cidade El Carmen, Campeche, veio até nós para colocar um problema que ela tem com um senhor da cidade de Comitán: prometeram-lhe que iriam negociar pra ela um crédito hipotecário e como garantia entrega a documentação da sua casa ao banco. Acontece que os recursos não lhe foram entregues, e, em seguida, ela exigiu a documentação antes entregada ao banco, mas esta não lhe foi devolvida porque os recursos haviam chegado sim nas mãos do administrador, mas não nas dela. A JBG a orientou que era melhor procurar uma organização de defensores de direitos humanos porque se trata de uma violação de seus direitos, foram-lhes recomendados os Frayba, e até o momento não se sabe se ela foi ou não.
Os solidários que construíram a turbina em La Realidad vieram ver como está funcionando e voltam com a fala da JBG.
Chegaram solidários da Austrália, pediram para saber sobre a autonomia e o que é o mandar obedecendo; explicamos a eles com detalhes, se mostraram muito maravilhados e disseram que levariam a mensagem para divulgar em seu país. Vieram também da Argentina, França, Canadá e Polônia para receber a fala sobre a autonomia.
Chegaram os do País Basco para ver os projetos que estão apoiando, voltam contentes porque vêem que o acordo está sendo cumprido.
Chegaram estudantes da UNAM, da UPN e do Poli para falar e para que se explique para eles o que é o mandar obedecendo e a autonomia.
Sábado: em algum povoado zapatista.
Cheguei com Rolando para cumprimentar Dona Julia. Ela me leva pra ver a casa-sala-refeitorio-cozinha-quarto. Dá-me café, guineo. Conta-me de seus filhos, de seus netos, de seus bisnetos, de quando ficou frente a frente com os soldados e “Eu olhava direto no seu olho, assim, (e arqueia as sobrancelhas grisalhas) e dizia-lhe: ‘vamos tire seu revólver e me dê um tiro, vamos’, mas ele não sacou o revólver, do contrário não estaria aqui contando”. Continua falando de quando seu filho se escondia para levar tostadas aos insurgentes na montanha, quando os povos se juntaram, quando se votou a guerra, quando foram todos para lutar na cidade, quando entrou na resistência, quando foram feitos os autônomos, quando os caracóis. Estava preste a tirar o cachimbo e o tabaco quando, de repente, ela pára e me pergunta: “Você vai falar isso ao Sup?”. Viro-me para Ronaldo que alisa o bigode para dissimular a risada. Deixo o cachimbo e o tabaco na bolsa. “Sim”, lhe digo. “Ah!, Pois, quando for vê-lo saúde-o para mim e lhe dê a minha benção, o condenado só deus sabe por onde anda porque já faz dias que não vem”, diz e me dá algumas empadas “para o Sup”. Despedimo-nos. Já no potreiro digo a Ronaldo: “Se continuar rindo desse jeito não vai voltar aqui de novo”. “Com certeza vamos morrer os dois”, diz ele rindo e indo à frente. Já a uma boa distância me grita: “Lembre-se de cumprimentar o Sup”. Chegando na choça do comando me olho no espelhinho e digo e repito: “Nós de então já não somos os mesmos”, e suspiro...que outra coisa poderia fazer?
Domingo: em algum lugar das montanhas do sudeste mexicano.
Madrugada. Topei com Moy que tampouco consegue dormir. Faz pouco tempo que a tropa foi descansar. Só se adivinha a sombra da sentinela. Falamos com Moy dos mortos, dos nossos mortos. Digo-lhe que qualquer um deles era melhor do que eu. Que agora o Eleazar se foi, que parecia que ia se safar e de repente morreu. Porque aqui a morte nunca chega devagarzinho, aparece sem mais nem menos, dando um pontapé, e simplesmente não se vê mais o seu passo e fica-se pensando que teria sido melhor se tivesse levado alguém e não ele, o morto. Eleazar era melhor do que eu, e Pedro, e Hugo, e Fredy, e Álvaro e todos os nomes que calo porque, por que herdar mortos? Eleazar, que está ainda na cama, queria ficar de pé e saudar militarmente, e pediu música pela manhã. Moy me diz que estou com o rosto molhado. Tiro as gotas com a mão e digo: “é a chuva”. Moy acende um cigarro, eu o cachimbo. Lá em cima um céu, dolorido de tantas estrelas, não chora, simplesmente se olha no espelho moreno da lua.
Certidão de autenticidade.
Dito, visto e ouvido o anterior, no pleno uso das minhas faculdades mentais e mais ou menos das físicas, certifico que o que foi exposto neste vídeo “tão diferente”, e o que tenho narrado a respeito dos povoados zapatistas é verdadeiro, possível de ser comprovado e, no caso, repreensível. O único aspecto que pode ser atribuído à fantasia ou à imaginação é o que se refere à existência daquele que escreve isso, pois é sabido que nós fantasmas não somos outra coisa que a mesma coisa até que, como disse não sei quem, morremos para viver. Dou fé.
Vídeo projetado para toda a galáxia a partir do estado de Chiapas, no sudeste mexicano, no ano quarto do século vigésimo primeiro, a 20 do nascimento e a 10 do início, quando agosto sofre de languidez e o país que nos abraça sofre de esperança (porque, em geral, é Bush que faz sofrer o mundo).
Nota: o presente vídeo não tem copyright e pode ser reproduzido total ou parcialmente onde lhe der vontade, quantas vezes e com quem quiser. Agora, se você lhe prestar atenção nele e trabalhar coerentemente, pois então pode ir parar na cadeia, mas isso não é por conta do distribuidor do vídeo que é, como já disse, o Sistema Zapatista de Televisão Intergaláctica.
Valeu. Saúde e falta o que falta...para quando faz falta.
(a continuar...)
Das montanhas do Sudeste Mexicano.
Subcomandante Insurgente Marcos.
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Comunicado divulgado através do La Jornada em 27/08/2004.
30.9.04
Ler um vídeo.
Desde a época da colônia, os povos indígenas têm sofrido condições de miséria extrema. Apesar de ter sido a classe social que mais contribuiu na luta pela independência, nas guerras de resistência contra as invasões norte-americana e francesa e na revolução mexicana (e, se me permitem, na atual democratização do país – ainda que sejam os políticos e os meios e comunicação a disputarem o protagonismo), as dívidas da Nação para com eles não têm feito outra coisa a não ser crescer. Se alguém tem colocado vida e morte para que este país que se chama México pudesse se levantar como nação soberana, livre e independente, têm sido os indígenas.
Nenhum movimento se virava para ver como ficavam depois dos triunfos ou das derrotas. Ganhasse quem ganhasse, os povos indígenas perdiam. Quem lhes oferecia melhoras acabava escravizando-os nas fazendas. Quem lhes oferecia uma pátria livre, acabava colocando-os de lado. Quem lhes oferecia democracia, acabava impondo-lhes leis e governos. Mas sempre que esteve em jogo o destino do México, os indígenas não duvidaram e colocaram a única coisa que tinham: o seu sangue.
Da independência do México até agora já são quase 200 anos e há indígenas que trabalham e morrem em condições semelhantes às da colônia. As terras que tinham lhes foram tiradas, às vezes com violência, às vezes com artifícios. A cor, a língua, a roupa, o “jeito”, têm sido motivo de vergonha, de gozação, de desprezo. O nome de “indígena” tem sido usado como insulto, como sinônimo de preguiçoso, de falta de inteligência, de incapacidade, de submissão, de servilismo.
Depois de tanto, teria sido estranho que não se levantassem em armas. Mas o fizeram. E apesar de ter sido objeto de escárnio e desprezo pelos de pele branca, não transformaram sua guerra numa guerra contra uma cor. E apesar de terem sido objeto de enganos e destino de mentiras por aqueles que falam “o espanhol”, não dirigiram sua guerra contra uma cultura. E apesar de terem sido sempre os que servem nas casas daqueles que tudo têm, não distribuíram destruição. Fizeram uma guerra, a sua guerra. Ainda a fazem. Uma guerra contra o esquecimento.
Este país tem sorte. Onde outros destroem, estes indígenas constroem. Onde outros separam, eles juntam. Onde outros excluem, eles incluem. Onde outros esquecem, eles lembram. Onde outros são um peso para todos, eles carregam, entre outras coisas, a nossa história. E tem sorte o EZLN de ter sido agasalhado por estes povos. Que se não...
Se alguém se voltasse para vê-los, veria seres humanos, cheios de erros, defeitos, debilidades, quedas, enfim, imperfeitos. E aí está o problema, porque se fossem super-homens e supermulheres, bom, então se entenderia o que fizeram. Mas como são como qualquer um, pois então...como vou dizer isso?...pois, como se diz: “eu também tenho que fazer alguma coisa...porque ninguém vai fazer isso por mim”.
É isso que fazem os povos zapatistas. Não esperam que o governo distribua esmolas e discursos. Trabalham para melhorar suas condições de vida e conseguem. Paradoxalmente, suas condições ainda estão bem longe de ser as ideais, são melhores do que as comunidades que recebem “apoio” federal. E isso pode ser constatado ao vivo e a cores (os vídeos, mesmo que sejam lidos, são limitados), e se pode investigar.
É destas melhoras, que têm sido possíveis pelo “terceiro ombro”, que vou lhes falar agora. Tratarei de não me estender muito (me proponho sempre a mesma coisa e as páginas vêm como a chuva), mas convido vocês a conhecer os detalhes nos informes de cada Junta e, obviamente, visitando os Caracóis, as comunidades e falando com os companheiros.
Saúde e educação.
Dois dos avanços têm sido nos campos da saúde e da educação. Os “esquecimentos” dos vários governos federais em relação a estes aspectos têm feito com que “indígena” seja sinônimo de saúde ruim e de ignorância.
Graças ao apoio das pessoas das “sociedades civis”, a saúde das comunidades começou a dar uma guinada. Onde havia morte, começa a ter vida. Onde havia ignorância começa a ter conhecimento. Enfim, onde não havia nada, começa a ter algo bom.
Em Los Altos de Chiapas, por exemplo, o sistema de saúde proporciona atendimento médico gratuito e, até onde chegam seus recursos, também o remédio é de graça. Isso é possível por dois elementos: um é pelo apoio econômico da sociedade civil que permite conseguir equipes médicas e remédios. O outro é porque no lugar de concentrar-se só em atender doenças, o sistema de saúde visa, sobretudo, a medicina preventiva. O objetivo é reduzir as doenças e, de conseqüência, o consumo de remédios. Ainda que com dificuldades, o serviço médico gratuito foi mantido ao longo de todo o ano de funcionamento da Junta de Bom Governo em Los Altos.
Nas cinco regiões onde atuam as Juntas de Bom Governo se realizam campanhas de higiene, se promove o uso de latrinas e da limpeza da casa. Também se fazem campanhas, ainda que isso esteja só se generalizando, para combater doenças crônicas (como a leshmaníase e a úlcera de quem trabalha com o chicle), epidemias e para detectar câncer na mulher. Para conseguir isso, além do apoio econômico para projetos de saúde, há a ajuda solidária (e, em não poucos casos, heróica) de médicos e médicas especialistas e enfermeiras que, roubando o tempo ao seu descanso, vêm para estas terras e distribuem conhecimentos (a parteiras, “osseiras”, promotores de saúde e laboratoristas) e saúde a todas as comunidades.
O terceiro ombro para levantar a vida.
Constroem-se clínicas regionais e municipais, se equipam e se capacitam companheiros e companheiras para que possam usá-los. Na região tojolabal, no dia primeiro de agosto, foi realizada a primeira cirurgia e está sendo equipado um laboratório para o processamento de plantas medicinais. Em todas as regiões há farmácias que são abastecidas com o dinheiro dos projetos e das doações.
Em geral, pouco a pouco, as Juntas de Bom Governo vão conseguindo que cada município autônomo tenha uma estrutura básica de saúde comunitária: promotores de saúde, campanhas de higiene, medicina preventiva, ambulatórios, farmácias, clínicas regionais, médicos e especialistas.
No que diz respeito à educação se procede como se deveria proceder na política, ou seja, de baixo para cima. Constroem-se escolas em todas as comunidades (este ano foram mais de 50 em toda a região e ainda faltam) e se equipam as que já existem (este ano foram umas 300), se capacitam promotores de educação (que participam de cursos de atualização), se levantam centros de educação secundária (onde se ensinarão as raízes históricas do México) e técnica.
Professores de escola e mestres de alvenaria, especialistas em pedagogia, homens e mulheres com nomes e rostos comuns, indígenas com e sem passamontanhas, levantam escolas e conhecimentos onde antes só havia ignorância.
Venham. Assim vocês poderão ver em várias comunidades das várias regiões que tem aparecido uma clínica, uma farmácia, uma escola, que há muita confusão porque uma médica vai reexaminar as mulheres em função de suas doenças, que “Mariya” já sabe escrever seu nome e pode contar que os antigos mexicanos tinham uma cultura muito avançada e agora quer ir à escola secundária autônoma, resta saber se a mandam, que há um dentista na clínica e vai arrancar e arrumar dentes, que lá há uma festa porque chegaram quadros-negros, cadernos, lápis e livros, que Lecho ia morrer, mas não morreu e-que-isso-vai-demorar-o-tanto-que-seja-considerado-normal, que a escola agora está bem alegre, que o médico dos olhos já chegou, que Andulio está chiando porque não encontra o seu lápis, que há um médico pediatra que está explicando a um companheiro que o seu trabalho não é curar os pés, que Uber diz “eu não fui” e ninguém lhe perguntou se foi ele a pegar o lápis de Andulio, que há um neurologista que ajuda um que está mau da cabeça e desmaia, que vão vacinar as crianças, que estes caminhões são para levar os promotores que vão a um curso no Caracol e saber se o curso é de saúde ou de educação porque “você vai ver que por aqui passam uns e outros, que antes não era assim, não, que antes se encontravam vacas e bois pelo caminho, não, não se ofenda...ouça, e você não é daqui, não é mesmo?, se vê logo, mas não se aflija que agora mesmo vou lhe explicar, veja, lá em 1994 toda a indiada se levantou, ou seja a plebe, como dizemos por aqui, e é que os zapatistas e em seguida as sociedades civis e...ouça, não quer um pozól?, porque a explicação vai demorar...”
Alimentação, terra, moradia.
Do urgente ao importante. O problema dos refugiados (sobretudo, os de Polhó) é o que mais absorve a atenção do bom governo em Los Altos de Chiapas. Dos quase 3 milhões e meio de Pesos que Oventik gastou, cerca de dois milhões e meio foram destinados a Polhó. Mas não só à alimentação. Foi construída e colocada pra funcionar um pequeno mercadinho e uma cooperativa de mulheres refugiadas.
O bom governo enxerga longe e avança no projeto de uma bloqueria (“ou seja, é para fazer blocos de construção”, me explicam quando pergunto se é para fazer cérebros de membros do gabinete de Fox – já havia dito que para o do gabinete há “head hunters”).
A fábrica de blocos pode realizar uma produção em cadeia. Além de proporcionar uma renda para os companheiros (que não podem se dirigir a seus trabalhos pela ameaça dos paramilitares), reduzirá notavelmente o preço do material de construção e se poderia ir melhorando as casas. Bom, para isso ainda falta, mas a “bloqueria” do Polhó já começa.
Para melhorar a alimentação de todos, nas cinco regiões foram colocadas pra funcionar cooperativas de produção de porcos (“não, não se produzem políticos”, me esclarecem antes que faça a pergunta de praxe), galinhas, ovelhas (não, não são deputados do PAN votando o desaforo de López Obrador” me dizem, e me vem que agora sim não ia perguntar nada), frangos e gado (ou seja vacas, mulas e um ou outro boi – sem ofender ninguém), de hortaliças e de árvores frutíferas.
De La Garrucha informam que “em nossos municípios autônomos têm sido capacitados os promotores de agro-ecologia para que tenham experiência tanto em cuidar do meio-ambiente, como em cuidar de animais, como vaciná-los e fazer produzir melhor as terras recuperadas e nisso temos avanços em cada município”.
Realizam-se projetos de oficinas de sapataria, máquinas descaroçadoras de arroz, de mecânica (“já consertamos o trator, agora só falta a gasolina”), na região de La Realidad um que é chamado “de tecnologia apropriada, saúde da família, poupança energética e capacitação” que, além de distribuir caixas d’água constrói fogões que poupam lenha; em várias regiões, há oficinas de serralharia, projetos de água potável, oficinas têxteis, produção de colméias.
Assim, de vários flancos e com o apoio das “sociedades civis” se melhoram a terra, a moradia e a alimentação.
Com palavras da selva: “até hoje temos melhorado um pouco a alimentação graças às terras que foram recuperadas das grandes fazendas, porque assim colhemos mais milho e feijão, e os projetos de agro-ecologia. Graças à nossa organização se conseguiu diminuir grandemente o alcoolismo o que nos permitiu usar na alimentação o pouco recurso que temos. Também pudemos melhorar nossas casas ainda que pobremente, mas hoje temos telhados melhores, a casa mais limpa, com sítios mais amplos para poder plantar árvores frutíferas, hortaliças, flores e ter os animais fora de casa”.
Vinculada a essas três coisas está a comercialização.
Expulsam-se os “coiotes” com as bodegas regionais (na região de La Realidad uma se chama “Tudo para todos” – o que, na minha maneira de ver, é um convite ao saque -, outra “O Caracolzinho”, outra “Don Durito”; na região de Morelia a chamam “central de abastecimento” e aí se consegue café, panelas, artesanatos, bordados, panelas de barro, velas, cestos, móveis – tudo produzido pelas comunidades e a baixo preço -, em Roberto Barrios, as bodegas regionais são três), que incluem no projeto a compra de transportes para movimentar a mercadoria. Assim, aumenta o número de cooperativas e de refeitórios populares.
Os principais avanços da autonomia zapatista, na época das Juntas de Bom Governo, têm a ver com a melhora das condições de vida, sim, mas não só...
Governar e governar-se.
Talvez o avanço mais importante que vemos é que estamos aprendendo a construir, não sem falhas e tropeços, um bom governo:
“Aprendemos como resolver nossos problemas, como fazer acordos com outras organizações e autoridades, e também com nossas comunidades. Durante esse tempo aprendemos muito como governar em cada município e vimos que assim não é fácil que os maus governantes nos corrompam porque aprendemos nossa forma de governo em esquema de rodízio, com a experiência de todos e a vigilância como guia. Ao longo do ano tem sido esta a grande aprendizagem e não é fácil que nos comprem com um refresco. Outra coisa que temos aprendido é a tratar com gente de outras culturas e outros países...”.
“Temos aprendido através do trabalho, resolvendo problemas, de início estávamos nervosos, antes em cada município se organizavam como eles queriam, agora, todos os municípios juntos aprendemos a trabalhar eqüitativamente, e aprendemos também a falar com outras pessoas que não são da nossa organização. Sabemos que não são nossos inimigos, o que acontece é que estão enganados, mas vemos que pouco a pouco vão entendendo e vão se aproximando de nós...”.
“Cada autoridade municipal leva ao seu município o que aprendeu na Junta, alguns de nós aprenderam a levantar atas de acordos, elaborar projetos, manusear aparelhos como computador, internet, copiadora, telefone e outros aparelhos que estamos aprendendo a manusear...”.
“Avaliamos que politicamente temos vantagens, aprendemos a fazer o trabalho através do sacrifício. Há mudança em relação à antes, cometemos erros, mas assim vamos aprendendo pouco a pouco. As vantagens que vemos: todos fomos governos, não tivemos nenhum líder, foi um governo coletivo, assim nos ensinamos entre todos o que cada um sabe, há uma distribuição eqüitativa dos projetos, chegaram organizações sociais que procuram nosso atendimento quando seus problemas não são resolvidos...”.
“Na Junta de Bom Governo não precisamos de tradutor porque há gente de línguas diferentes, assim pode chegar qualquer pessoa, seja ela tzeltal, tzotzil, tojolabal ou que fale espanhol, podemos nos entender com nossa própria língua...”.
Foram estes os avanços que vimos e sentimos em um ano das Juntas de Bom Governo. Mas que tal que eu esteja soltando a minha mentira, que tal achar que só falo disso para que pensem que melhoramos. Por isso digo a vocês que venham, que andem pelos povoados e agora sim coloquem som e imagem a esse vídeo...
(a continuar...)
Das montanhas do Sudeste Mexicano.
Subcomandante Insurgente Marcos.
México, agosto de 2004. 20 e 10.
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Comunicado divulgado através do La Jornada em 25/08/2004.
24.9.04
CARACOL II, OVENTIK SAN ANDRES SAKAMCH’ EN DE LOS POBRES,CHIAPAS, MEXICO,
A 23 DE SEPTIEMBRE DEL AÑO 2004.
La Coordinación General del Sistema Educativo Rebelde Autónoma Zapatista de Liberación Nacional-Zona Altos de Chiapas.(S.E.R.A.Z.L.N.-Z.A.CH.).
La Coordinación General del Sistema Educativo Zapatista, hacemos del conocimiento, públicamente a la sociedad civil estatal ,nacional e internacional, que nosotros los pueblos indígenas y no indígenas zapatistas , damos a conocer que somos quienes estamos construyendo y trabajando en la esquematización de los planes y programas de estudio que está llevando a cabo en todos nuestros pueblos en resistencia , es iniciativa de hombres , mujeres, niños , niñas , ancianos y ancianas quienes estamos construyendo y dirigiendo la forma de educación que reclaman nuestros pueblos.
Por lo tanto desmentimos públicamente lo que en fechas pasadas han estado publicando medios de comunicación como radio, periódicos e Internet en el cual el hermano Peter Brown (Pedro Café), aparece como dirigente en la construcción de nuestros planes y programas y como el principal impulsor de la Educación Autónoma Zapatista, nosotros aclaramos que no está dirigida nuestra educación por alguien que no conozca nuestros saberes , nuestra lengua, nuestros sufrimientos, nuestra cosmovisión indígenas por eso nosotros los pueblos indígenas y no indígenas , somos quienes estamos trabajando en la construcción de nuestra propia educación , por eso no aceptamos que personas malinterpreten los trabajos que los pueblos construyen para mejorar nuestras condiciones y conocimientos en el aspecto educativo.
La educación que reclamamos como pueblos indígenas y no indígenas zapatistas es rescatar los conocimientos que tenían nuestros antepasados como son los Mayas , los Aztecas, los Mexicas, etc en la conservación de la Madre Tierra , ya que nuestra Madre Tierra, es la única que nos mantiene nuestra existencia en este mundo injusto, y por lo tanto estamos programando este tipo de educación para fortalecer la vida de los seres vivos que habitamos en nuestras tierras y territorios, este es el tipo de aprendizaje que nos debemos impartirnos para no ser injustos con el mundo.
Debemos saber que la Madre Tierra es el Mundo, la Tierra es la Humanidad, la Humanidad es la Tierra, la Patria nuestra es la Tierra, sin la Madre tierra no hay existencia humana, sin la Madre Tierra no hay lugar donde barbechar para sembrar la milpa, las verduras, las flores ; para sembrar la existencia de la vida humana y de todo lo que existe en el Mundo, sin la Madre Tierra , no existiría el agua, ni el aire, éste es lo que nosotros, los pueblos zapatistas queremos estudiar con nuestros hijos en las Escuelas Primarias y Secundarias Autónomas y en los demás niveles que vayamos construyendo, este es nuestra realidad que reclamamos en la Educación.
En nuestra educación fomentamos el cuidado del Medio Ambiente, porque el Medio Ambiente es la fuente de la vida de todos los seres vivos; como los seres humanos, las plantas , los animales; es necesario educar en la conservación de los bosques, de las selvas, de las minas, del agua, del aire, del suelo y de los animales; de esta manera, nuestro Medio Ambiente siga en la conservación de su biodiversidad biológica.
Nuestra educación estudia el Medio Ambiente, como un compendio de valores naturales, sociales y culturales existentes en lugar que influye en la vida material y psicológica de la Humanidad.
De igual forma, para nosotros los pueblos indígenas y no indígenas zapatistas,es muy importante tener conocimiento sobre la salud, porque la salud es vida, la salud es la capacidad de analizar nuestra situación como pueblos, en lo social, económico, político y cultural, que forma parte de la educación integral del ser humano, ya que sin la educación de calidad, apegada a nuestra realidad, no existe salud mental, corporal y por lo tanto la salud y la educación están íntimamente ligados, no están separados, ya que la Humanidad saludable construye su educación para todos y todas.
Una educación con buena salud, es una salud constructiva de mentes sanas de la Humanidad, porque una educación con mala salud, el mundo humano destruye la Humanidad, por eso con la educación queremos ser constructores de una buena salud solidaria y fraterna.
La educación que estamos llevando a cabo en nuestros pueblos en resistencia y rebeldía, es para educarnos en el rescate, en la conservación, en el fortalecimiento y mejoramiento de todos nuestros saberes en el aspecto económico, social, cultural, religioso, territoriales, etc; el rescate y fortalecimiento de nuestras lenguas indígenas, el de conservar nuestros patrimonios históricos, el de aprovechamiento y la conservación de nuestros recursos naturales renovables y no renovables. Nuestra Educación Autónoma rescata los saberes de nuestros antepasados, tal es el movimiento de los astros, la época de lluvia para la siembra de nuestra alimentación, que es un saber desde hace muchos miles de años por nuestros antepasados.
El estudio de la Historia en nuestra Educación Autónoma Zapatista, lo consideramos como la base fundamental para el desarrollo cultural, político, social, económico de cualquier pueblo, la Historia es la raíz de nuestra existencia, es la raíz de nuestra identidad como pueblos originarios antes de la conquista, si un pueblo que no tiene historia propia, es un pueblo que no conoce su realidad, si a un pueblo no le dicen su Historia , es un pueblo sin vida , si un pueblo carece de lo más elemental que es nuestra Historia es un pueblo que tiende a desaparecer(morir).
Por eso una educación sin Historia, no es una buena educación , una educación sin Historia es no saber nuestras costumbres, nuestra cultura y nuestra existencia, sin la Historia es no saber la historia verdadera sobre las grandes luchas que han suscitado en nuestra Madre Patria, sin historia, la educación es no saber de la defensa de la gran Tenochtitlán que encabezó Cuauhtémok, la educación sin Historia es no saber de los hombres y mujeres ilustres que independizaron a nuestro país y por lo tanto la educación es el Alimento Sagrado, es la Vida y es la existencia del pueblo mexicano, una educación impartida sin Historia es negar la existencia de los indígenas y no indígenas zapatistas mejicanos, la Humanidad sin Historia no existe, una educación sin Historia es una educación asesina, es lo que nosotros, los pueblos en resistencia del Sureste mexicano no aceptamos porque sin esa educación con Historia verdadera es nuestra muerte segura .Esto es lo que no quiere nuestro Sistema Educativo Rebelde Autónomo Zapatista de Liberación Nacional de la zona Altos de Chiapas.
Para ir terminando con esta carta abierta desmentimos públicamente las declaraciones hechas por AFP con fechas 7 de Septiembre del presente año. En donde nos acusa a nosotros los pueblos de estar echando (expulsando) a los hermanos y hermanas maestros oficiales, según porque no aceptaron ser militantes de nuestra organización, es totalmente falso quien haya hecho esas declaraciones a AFP. Ya que nosotros los pueblos zapatistas no sometemos a nadie y respetamos la forma de pensar de cada trabajador, pero sí queremos convencer a los hermanos maestros a que se den cuenta que la educación escolar no es ajena a las luchas del pueblo, por lo tanto ni hemos expulsado, ni expulsaremos a ningún maestro oficial, siempre de vez en cuando que ellos respeten la dirección de trabajos que los pueblos así lo exigen.
DEMOCRACIA, LIBERTAD Y JUSTICIA
COORDINACION GENERAL DEL SISTEMA EDUCATIVO REBELDE AUTONOMO ZAPATISTA DE LIBERACION NACIONAL-ZONA ALTOS DE CHIAPAS
(S.E.R.A.Z.L.N.-Z.A.CH.)
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Durante o primeiro ano das Juntas de Bom Governo se formalizaram alguns acordos internos, tomados já faz tempo, e se concretizaram novas decisões. São as que se referem à conservação dos bosques, ao narcotráfico, ao tráfico de migrantes clandestinos, ao trânsito de veículos nas regiões e às eleições estaduais para as prefeituras e a Assembléia Legislativa local.
1. Sobre a conservação dos bosques.Transcrevo textualmente uma das leis vigentes nas Juntas de Bom Governo. A redação varia de uma região pra outra, mas a essência é a mesma:
Lei de cuidado das árvores, ou seja, cuidado com a natureza.
Por acordo da Junta de Bom Governo Coração do Arco-íris esta lei é válida nos territórios dos municípios autônomos rebeldes sem distinção; esta lei é para proteger os bosques porque os bosques chamam a água, o oxigênio, porque são nossa vida e também proteção dos animais silvestres; por isso, todos devemos entender que é importante cuidar do nosso bosque em todos os territórios dos municípios autônomos.
Como Junta de Bom Governo propomos que cada município faça o seu viveiro para ajudar a cumprir esta lei:
1. As árvores só deverão ser cortadas para as necessidades domésticas, não para vender.
2. Temos a obrigação de cuidar e preservar os bosques e temos também o direito de usar árvores de uso doméstico com a autorização das autoridades autônomas.
3. Por cada árvore cortada, a obrigação de quem a cortou é plantar duas mudas e cuidar delas.
4. Cada território autônomo sancionará em cada município de acordo com o seu regulamento.
5. Sem a autorização de derrubar uma árvore se punirá com plantar 20 mudas.
6. Todas as permissões se farão com a comissão de terra e território.
Há um acordo de que onde há um espaço a ser reflorestado, cada município o faça. Árvores com as quais se pode reflorestar são as que se fazem necessárias no interior da comunidade. Os espaços a serem pensados para plantar são lugares que são bons para realizar uma excursão familiar, como as margens do rio.
Por exemplo, no Município Autônomo 17 de Novembro temos 4 centros reflorestados por um total de 2 mil pés de cedro. Também os priistas continuam tirando licenças de até 10 anos de contrato, ainda que tenhamos tentado suspendê-las e vemos que para eles são motivos de provocação.
2. Sobre a semeadura, o tráfico, a comercialização e o consumo de drogas.
Ainda que a lei seja de antes do início da guerra, as Juntas de Bom Governo têm formalizado a proibição contra o narcotráfico. Aqui está um exemplo:
“A Junta de Bom Governo [decreta que] em território zapatista é totalmente proibido cultivar, traficar e consumir drogas; os que fizerem isso serão expulsos pelas leis zapatistas. As bases de apoio zapatistas que semearem este enervante serão rechaçadas na organização e na comunidade onde esta pessoa se encontra. O mesmo com os que consomem.
Caso se localize um terreno semeado com drogas será destruído e todas as plantas queimadas. Quem tiver feito a semeadura terá que arcar com os gastos da destruição, como os gastos da gasolina para queimá-la, e será expulso da organização. Quem consome é castigado com dez dias de trabalho e seis meses fora da organização. Por acordo da Junta de Bom Governo, cada município em seu território faz uma vistoria por ano para ter certeza de que não existem pessoas que fazem este trabalho ilícito”.
3. Sobre o trânsito de veículos nas regiões das Juntas de Bom Governo.
Nas Juntas de Bom Governo se registram os veículos que transitam pela região. A medida é para evitar o tráfico de pessoas, narcóticos, armas e madeira. Com este controle, a Junta de Bom Governo pode detectar um veículo que seja usado para atividades criminosas, investigá-lo e se tiver algum delito e for zapatista, castigá-lo de acordo com as nossas leis; e se não for zapatista levá-lo às autoridades oficiais.
O registro veicular zapatista permitiu ordenar também as rotas de transporte para que os povoados tenham transporte o dia inteiro, e para que não haja conflitos entre as várias organizações de condutores.
Para evitar que as regiões zapatistas se tornem santuários de carros roubados e chocolates os registros que a JBG outorga só são entregues àqueles que têm seus papéis oficiais em dia. Ou seja, para ter o registro veicular das JBG é necessário ter placas e documento de circulação. E o condutor deve ser habilitado.
4. Sobre o tráfico de migrantes clandestinos.
Alguns meses atrás, nas Juntas de Bom Governo, nos Conselhos Autônomos e em todas as comunidades zapatistas começou a circular quanto segue:
Recentemente, tem aumentado o número de migrantes clandestinos que são levados pelos chamados polleros em sua jornada rumos aos Estados Unidos. Os polleros são pessoas que se dedicam ao tráfico de pessoas, cobram delas muito dinheiro em troca da promessa de levá-las a trabalhar nos Estados Unidos.
Na grande maioria das vezes, os polleros enganam homens e mulheres do México e de outros lugares da América abandonando-os no lugar em que se escondem no interior dos veículos ou nos desertos, e estes homens e mulheres (às vezes, crianças) morrem de forma espantosa.
Sabe-se também que os polleros estão de acordo com as autoridades federais do governo mexicano, que participam do negócio. Os homens e mulheres que vêm de outros países rumo aos Estados Unidos para lá trabalharem são, em sua imensa maioria, pessoas pobres e humildes, e seus direitos e dignidade são violados pelos polleros e pelas autoridades do México e dos Estados Unidos.
Por isso, decidiu-se declarar delito grave o tráfico de pessoas, nacionais ou estrangeiras, pelo território zapatista. Comunica-se isso a todas as autoridades para que vigiem para que isso se cumpra e que os membros do EZLN que participarem, apoiarem ou protegerem aqueles que se dedicam ao tráfico de pessoas sejam castigados e, em caso grave, expulsos de nossa organização.
As comissões de vigilância do CCRI e as Juntas de Bom Governo irão vigiar para que nenhum zapatista, base de apoio, responsável, comitê ou autoridade autônoma cometa, apóie ou proteja este delito de tráfico de pessoas, porque é um crime contra a humanidade.
Todos os traficantes de pessoas (ou polleros) descobertos e detidos em território zapatista serão obrigados a devolver o dinheiro às pessoas atingidas e se, depois de advertidos, voltarem a cometer seu delito, se verá a forma de entregá-los às autoridades competentes para serem castigados de acordo com as leis do México.
Todas as pessoas, nacionais ou estrangeiras, que são transportadas clandestinamente serão libertadas, apoiadas no que for possível (cuidados médicos, hospedagem e alimentação temporária) e aconselhadas a não se deixar enganar.
Todos os seres humanos, independentemente de sua nacionalidade, têm passagem livre pelo território zapatista, mas deverão sujeitar-se às leis das Juntas de Bom Governo, dos Municípios Autônomos e das comunidades indígenas.
As Juntas de Bom Governo e os Municípios Autônomos Rebeldes Zapatistas informarão os companheiros e companheiras bases de apoio zapatista e os membros de outras organizações que vivem em território zapatista sobre estas recomendações, no entendimento que todo zapatista que cometer este delito será desconhecido como companheiro.
Os resultados? Vejam alguns exemplos:
Da Junta de Bom Governo de Morelia informam o seguinte:
Na questão dos migrantes clandestinos, por exemplo: no município Ernesto Che prenderam um pollero em seu território, ficou detido por dois dias e o avisaram de que da próxima vez o castigo ia ser maior e aos migrantes clandestinos se deu pousada, comida, foram avisados dos riscos do caminho e deixados irem embora. Aconteceu um caso de um companheiro que vendeu pozól a um preço elevado, e os companheiros que cometeram este erro foram castigados”.
De La Garrucha:
“Os polleros que forem surpreendidos enganando os migrantes clandestinos serão detidos para que devolvam a eles o dinheiro. Em território zapatista é terminantemente proibida a venda de comida, água e hospedagem aos migrantes clandestinos; eles são pobres como nós e temos a obrigação de dar-lhes água, comida e hospedagem e não de vender-lhes estas coisas. No caso de um pollero ser detido pela segunda vez, será entregue às autoridades do mau governo”.
De La Realidad:
“Com os migrantes clandestinos centro e latino-americanos, a JBG fala diretamente apresentando seus membros. Explicam que a JBG é fruto da luta do EZLN. Como autoridades civis e como bases de apoio do EZLN, explicam os sete princípios do mandar obedecendo e a autonomia. Explicam que são autoridades autônomas e que lutam contra o neoliberalismo, contra o Plano Puebla-Panamá, etcétera. Aconselham-nos a não abandonarem suas terras, que é mais seguro trabalhar o seu pedaço de terra, que é melhor lutar por democracia, liberdade e justiça em seus países, que o seu sonho americano não é seguro porque muitos morreram na passagem, que para nós não há nenhum problema e podem transitar livremente porque somos iguais a eles, que não se permitirá que lhes roubem muito dinheiro por sua viagem porque é assim que têm se enriquecido os empresários que lidam com migrantes clandestinos. Damos a eles comida, refrescos, galletas. [1] È aí que os migrantes clandestinos começam a confiar, começam a contar suas vidas, contam que alguns têm ouvido Rádio Insurgente em seus países. Ficam agradecidos. Aos polleros que se consegue identificar, todo o dinheiro que levam é repartido em partes iguais entre todos os migrantes clandestinos centro-americanos, adverte-se o pollero que da próxima vez que for surpreendido fazendo a mesma atividade será castigado.
Em outra ocasião, quando de um grupo de centro-americanos que transitavam a pé, falou-se com eles e se detectou o pollero, que disse ser de nacionalidade guatemalteca e que trazia hondurenhos, guatemaltecos, salvadorenhos e que havia cobrado mil e 5oo Pesos de cada um dos centro-americanos; foi revistado e se encontrou a quantia de 31 mil 905 Pesos, 700 Quetzales e 31 dólares, a mesma que lhe foi tirada e distribuída em partes iguais aos migrantes clandestinos. Atualmente, encontra-se detido um traficante de migrantes nacionais cumprindo um castigo de 6 meses depois da advertência que lhe havia sido feita”
5. Sobre as eleições locais chiapanecas de 3 de outubro de 2004.
Em julho deste ano, delegados do Instituto Estadual Eleitoral de Chiapas se apresentaram nas diferentes Juntas de Bom Governo para fazer um acordo que permitisse o trabalho do IEE. Esta foi a resposta dada:
Ao Instituto Estadual Eleitoral de Chiapas, México.
Secretaria Executiva.
Tuxtla Gutiérrez, Chiapas, México.
Presente.
Senhoras e senhores:
Escrevemos para informar quanto segue:
1. Recebemos sua atenciosa carta com a data de 14 de julho de 2004 que nos fala com respeito para solicitar o apoio desta Junta de Bom Governo para facilitar o trabalho do seu Instituto Estadual Eleitoral em terras zapatistas.
2. Como vocês sabem, nós não acreditamos que as eleições sejam um verdadeiro caminho para os interesses do povo, mas estamos conscientes de que haverá gente que ainda acredita nisso como um caminho para resolver os problemas do povo mexicano. O descrédito dos partidos políticos é muito grande porque só enxergam seus interesses e não os das maiorias, mas pode ser que haja pessoas que ainda pensem que nos de cima há um pouco de honestidade.
3. Como Junta de Bom Governo, o nosso trabalho é ver que se respeitem todos os pensamentos e maneiras de cada um nos territórios zapatistas, sem que para isso importe se as pessoas são zapatistas ou não, e também se são antizapatistas. Porque nós não queremos que todos se tornem zapatistas à força, mas sim que cada um seja como quer ser, mas respeitando e sendo respeitado nos diferentes modos e pensamentos.
4. Por isso, dizemos claramente que não terão nenhum problema em realizar o seu trabalho nas comunidades que integram os Municípios Autônomos reunidos nesta Junta de Bom Governo e que são: (lista dos Municípios Autônomos). Pedimos somente que, assim como nós respeitamos aqueles que querem votar, vocês respeitem aqueles que não querem fazê-lo e não obriguem ninguém a fazer o que não quer fazer.
5. Portanto, já têm a garantia para fazer o seu trabalho no território que pertence a nossa Junta de Bom Governo e veremos que não tenham problemas, claro que respeitando sempre a vontade das comunidades.
Nos dias que antecedem a jornada eleitoral do 3 de outubro de 2004 e neste dia, o Instituto Estadual Eleitoral de Chiapas poderá realizar seu trabalho sem obstáculo algum por parte das comunidades zapatistas que se agrupam em nossa Junta de Bom Governo.
6. Dizemos também que na lista das comunidades que nos passaram em sua atenciosa carta há algumas que não pertencem à nossa Junta de Bom Governo, mas sim à de (nome da outra JBG), razão pela qual recomendamos que se dirijam também aos irmãos e irmãs desta Junta de Bom Governo para obter sua permissão. Temos certeza de que responderão na mesma forma atenciosa e respeitosa por nós usada.
7. Como se vê, quando há respeito mútuo de ambas as partes, então há bom entendimento. Nós zapatistas não queremos impor nada, só queremos que nos respeitem e haja um bom acordo entre os diferentes.
Agradecemos o tom de sua carta e os saudamos da mesma forma.
Atenciosamente.
(Assinam os membros da Junta de Bom Governo em questão).
(a continuar...)
Das montanhas do Sudeste Mexicano.
Subcomandante Insurgente Marcos.
___________________________
Comunicado divulgado através do La Jornada em 24/08/2004.
17.9.04
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Quarta parte: quatro falácias.
(Falácia: engano, fraude ou mentira com a qual se tenta prejudicar alguém).
Houve e há mais, mas foram quatro as principais falácias que foram levantadas por intelectuais de direita, juízes, legisladores e governantes para opor-se aos Acordos de San Andrés, ao projeto de lei da COCOPA e à realização prática destes acordos pelas comunidades indígenas zapatistas com a criação dos caracóis e das Juntas de Bom Governo, em agosto de 2003.
Como modernas profetizas, previram então a desintegração do Estado mexicano, a criação de um Estado dentro de outro Estado “para” Marcos (foi esta a manchete de uma edição de agosto de 2003 do jornal de propriedade de Ahumada, paradoxalmente chamado El Independiente), o aumento dos conflitos intercomunitários e a violação dos direitos humanos individuais pelo exercício dos direitos coletivos.
De acordo com isso, o que o EZLN preparava era uma ofensiva político-militar, que incluía um ataque ao quartel do Exército federal localizado na cabeceira de San Andrés, e outras bobagens desse tipo. Alarmaram-se, alertou-se o Exército, a Força Aérea, a Marinha, a PFP, se apresentaram armas, ordens de apreensão, operações policiais, dinheiro para comprar silêncios e palavras. Deram declarações que contradiziam minutos depois, e em seguida se contradiziam de novo (dando o devido peso a cada um, o campeão foi e é Santiago Creel). Histéricos, trocaram rumores disfarçados de informes de inteligência e informes de inteligência disfarçados de rumores. Nesses dias, o Sudeste Mexicano esteve a poucas palavras de transformar-se novamente (como em 1994, em 1995, em 1998) em cenário de combates.
Mas houve quem, de cima, mas de fora, disse que não, que se tratava de uma iniciativa política, não militar, e que não era outra coisa a não ser praticar o que o governo federal e o EZLN haviam acordado em fevereiro de 1996, só que 7 anos depois.
Alguém mais recomendou deixar que se fizesse, esperar o fracasso, e preparar o “eu disse” junto à avançada militar do Exército federal sobre as posições zapatistas.
O que conto ocorreu realmente nas reuniões do gabinete de Vicente Fox nos meses de julho e agosto do ano passado.
Como é evidente, o que decidiram foi esperar que fracassássemos. E, como sempre ocorre quando fazem um cálculo político ou militar em relação a nós, falharam.
Não só não fracassamos: além de melhorar significativamente as condições de vida das comunidades indígenas, agora temos argumentos práticos e comprovados para afundar as falácias sobre as quais se sustentou o rechaço à chamada lei COCOPA.
DESINTEGRAÇÃO DO ESTADO?
Alguns anos atrás, um dos membros da Suprema Corte de Justiça da Nação, esta instância que distribui impunidades aos poderosos (só que redigidas em termos jurídicos), argumentou sua posição contra o reconhecimento constitucional dos direitos indígenas assim: “Dividir-se-ia o estado mexicano, haveria muitos países num único território e leis particulares em cada lado. Em suma, o país balcanizar-se-ia”.
Alguém poderia pensar que estava se referindo ao narcotráfico e seu vínculo com governantes e juízes, mas não, falava da conveniência de reconhecer a existência dos povos indígenas mexicanos, ou seja, de reconhecer seus direitos coletivos.
Com a criação dos caracóis e das Juntas de Bom Governo, nós zapatistas decidimos praticar os Acordos de San Andrés e demonstrar, através dos fatos, que queríamos ser parte do México (do qual não éramos parte a não ser deixando de ser o que somos).
Passado um ano do nascimento dos caracóis e das Juntas o país está, de fato, desintegrado, mas não pela autonomia indígena, mas sim por uma autêntica guerra interna, pela impiedosa destruição de seus fundamentos: a soberania sobre os recursos naturais, a política social e a economia nacional. Estas três bases, que são as que, entre outras coisas, são destruídas nas guerras de secessão e imperiais, são agora dinamitadas pelos três poderes federais.
A soberania sobre o petróleo e a geração de energia, para dar um exemplo, é um dos objetivos das reformas constitucionais que estão pendentes no Congresso. A política social (ou o Estado do Bem-estar Social) transformou-se em algo ridículo: as dependências que cuidam deste aspecto não passam de instituições de caridade e esmolas, e as conquistas dos trabalhadores são desprezadas através de pactos secretos acompanhados de campanhas de mídia estridentes (o caso do IMSS, para citar um recente). Já faz um bocado que a economia nacional deixou de sê-lo e se transformou na “camelodromização” da sobrevivência. A planta produtiva nacional é um montão de sucatas industriais e saudades, o comércio está monopolizado por grandes empresas transnacionais, o sistema bancário é permeado pelo capital estrangeiro e o vaivém da especulação financeira manuseia variáveis globais, não nacionais.
Traduzindo: menos emprego, e mais precário, mais desemprego e subemprego, preços altos, salários baixos, importa-se o que podemos produzir, produz-se para um mercado global, do qual somos apenas uma variável macroeconômica, e não para o consumo interno. A pobreza já atinge não só os trabalhadores, mas também os pequenos e médios empresários, e os mexicanos ricos são cada vez menos e mais ricos.
Em suma, o governo federal renunciou às suas funções e o estado nacional cambaleia golpeado pelos de cima, não pelos de baixo.
Há uma forma de chamar as mudanças tão profundas como as que sofre o nosso país, quando se fazem de cima e prescindindo de qualquer consenso ou consulta aos de baixo: chama-se contra-revolução.
A única coisa que restaria seria refundar a nação. Com um novo pacto social, uma nova Constituição, nova classe política e nova forma de fazer política. Em suma, faltaria um programa de luta, construído a partir de baixo, com base na real agenda nacional, não na que promovem os políticos e os meios de informação.
De nossa parte, nada do que foi feito, como se verá nesta e em outra parte posterior, pelas Juntas de Bom Governo e pelos Municípios Autônomos Rebeldes Zapatistas, contribuiu para a desintegração do Estado nacional.
UM ESTADO NO INTERIOR DE OUTRO ESTADO?
Quem governa bem deve governar para todos, não só para aqueles que simpatizam com ele ou militam em sua organização, nem só para aqueles de sua mesma raça, cultura, cor ou língua.
Na concepção zapatista, a luta pela inclusão de um não é a luta pela exclusão de outro. Se a existência do mestiço não deve implicar no desaparecimento do indígena, o nosso reconhecimento do que somos não implica na negação dos que não são como nós. E isso vale para o indígena e para o zapatista.
As Juntas de Bom Governo são a prova de que o zapatismo não pretende hegemonizar nem homogeneizar, sob sua idéia e com o seu jeito, o mundo em que vivemos.
As JBG nasceram para atender todos, zapatistas, não-zapatistas, e inclusive antizapatistas. Nasceram para mediar entre as autoridades e os cidadãos, e entre diferentes âmbitos e hierarquias. Têm feito isso e continuarão a fazê-lo. Um ano atrás, quando do nascimento dos caracóis e das Juntas, o Comandante David ofereceu respeito a quem nos respeitasse. Estamos cumprindo isso.
Assim, as Juntas de Bom Governo mantêm uma comunicação respeitosa com diferentes organizações sociais, com muitos dos governos municipais oficiais com os quais os autônomos partilham o território, e, em algum caso, com o governo do Estado. Trocam-se recomendações e se procuram resolver os problemas através do diálogo.
À diferença do governo federal cujo “enviado” dedica-se a ser ridículo, com custos para o erário, e a panfletar isso na imprensa, o governo estadual preferiu não fazer uma campanha de mídia (no que se refere ao zapatismo) e optou por dar sinais e esperar pacientemente. Sabendo que os olhares do zapatismo não são locais, mas sim federais, o governo de Chiapas escolheu não ser parte do problema e tratar de ser parte da solução.
Enquanto alguns espertinhos enrolam don Luis H. Alvarez fazendo-lhe crer que têm contato com o EZLN, lhe tiram dinheiro e o levam de um lado pra outro com a promessa de que vai ver “aquele” (Marcos), e trata, sem resultados, de construir a “força camponesa” do PAN distribuindo telhas de zinco e painéis solares, o governo estadual tem uma linha de comunicação verdadeira com as comunidades zapatistas.
No caso específico, não nos opomos a que o governo Fox pague o salário ao autodenominado “enviado de paz”, mas achamos que deveria redefinir o seu trabalho: no lugar de pagá-lo para procurar o diálogo com os zapatistas (coisa que não faz), deveria pagá-lo para quitar os gastos dos antizapatistas.
Com o governo do estado de Chiapas, as Juntas de Bom Governo têm mediado os casos dos seqüestrados pela CIOAC em Las Margaritas, em parte da indenização aos agredidos em Zinacantán, na indenização de camponeses atingidos pelo trajeto da rodovia na região da selva tzeltal, no problema das “bicitaxis” da costa de Chiapas, e talvez em algum outro que agora me foge da memória. Verão tudo isso quando consultarem os informes específicos de cada Junta, porque não se esconde nada. Em geral, em qualquer momento, tem se procurado evitar enfrentamentos entre indígenas.
Atualmente se mantém contato para os casos do recente assassinato de um companheiro base de apoio em Polhó e do estupro de uma menina de 11 anos em Chilón.
Respeitar é reconhecer, e as Juntas de Bom Governo reconhecem a existência e a jurisdição do governo do Estado e dos municípios oficiais e, na maioria dos casos, as autoridades oficiais municipais e o governo do Estado reconhecem a existência e a jurisdição da JBG. Da mesma forma, as Juntas de Bom Governo reconhecem a existência e a legitimidade de outras organizações, respeitam e pedem respeito.
Só assim, respeitando, é possível fazer acordos e cumpri-los.
Demorou um tempo, mas agora as pessoas e organizações não-zapatistas e antizapatistas sabem que podem procurar as JBG para tratar de qualquer problema, que não serão detidos (as JBG são instâncias de diálogo, não de punição), que o seu caso será avaliado e se fará justiça. Se alguém quer um castigo por alguma coisa, procure um município oficial ou um autônomo, mas se alguém quer solução através do diálogo e do acordo, procure a Junta de Bom Governo.
MAIS CONFLITOS?
Este proceder das Juntas de Bom Governo começa a produzir efeitos nos municípios autônomos e nos oficiais. Para problemas sociais entre grupos, comunidades e organizações se recorre cada vez menos ao uso da força ou à troca de seqüestrados, e se procura cada vez mais o diálogo. Assim, foi possível ver que muitos casos não são de enfrentamentos entre organizações, mas sim problemas individuais que se apresentam como organizativos.
A nossa palavra é o que temos de mais importante. Sobre ela tem sido construída a autoridade moral de um movimento que procura, não sem tropeços, uma nova forma de fazer política. Antes se dava por batido que qualquer agressão que se apresentava tinha origem política, se fazia a denúncia e se realizavam mobilizações. Agora, antes se investiga se teve causas políticas ou se são crimes de foro comum.
Para isso, as JBG mantêm um canal de comunicação, através da Secretaria de Povos Indígenas, com o governo do Estado de Chiapas. Quando se apresenta uma agressão a zapatistas e não há comunicação com os agressores para determinar qual foi o problema e tratar de chegar a um acordo pelo diálogo, as Juntas de Bom Governo indicam à autoridade autônoma que inicie uma investigação e, ao mesmo tempo, repassam os dados do caso as autoridades estaduais. Enquanto a questão não for devidamente esclarecida não se recorre às denúncias, à mobilização ou às represálias.
Se a questão não é política e sim penal, então se espera um tempo razoável para que a justiça estadual exerça sua ação. Caso isso não ocorra, pois então, entra em ação a justiça zapatista.
Nos casos que têm se apresentado até agora, a justiça do governo de Chiapas tem brilhado por sua lentidão e ineficiência. Parece que a máquina judiciária chiapaneca só é rápida quando se trata de castigar os inimigos políticos do governo estadual. No caso das autoridades de Zinacantán, cujo delito foi flagrante e documentado, o governo do Estado se limitou a apoiar na indenização dos agredidos, mas quanto a determinar os responsáveis pela agressão e proceder juridicamente, não há prazo. E no caso de Chilón, onde, no marco de um enfrentamento entre zapatistas e não-zapatistas, foi violentada uma menina de 11 anos, já se acertou a diferença que deu origem ao choque, já foram passados todos os dados dos estupradores (incluindo as análises médicas que confirmam o estupro da menina) às autoridades competentes...e... nada (pelo menos até o dia em que escrevo). Os estupradores continuam em liberdade, apesar de não contarem com o respaldo da organização a que pertencem (que se deslindou do fato).
Contudo, temos que dizer que as agressões mais importantes que nós zapatistas temos sofrido ao longo deste ano não vieram do Exército federal, nem da polícia da Segurança Pública estadual (dos paramilitares se investigam atualmente as possíveis causas políticas no caso de um companheiro assassinado em Polhó).
Paradoxalmente, os problemas mais graves e as agressões sofridas neste ano foram com organizações e governos de filiação perredista: a CIOAC oficial da região de Las Margaritas e a presidência municipal oficial de Zinacantán (do PRD). Em ambos os casos, os zapatistas sofreram agressões. Em Las Margaritas seqüestraram companheiros e em Zinacantán atacaram com armas de fogo uma manifestação pacífica.
A CIOAC oficial da região de Las Margaritas (especifico isso porque com a CIOAC de outros municípios houve entendimentos e respeitos mútuos) só queria garantir seu grau de corrupção no interior do município e que seus dirigentes continuassem a se manter às custas das autoridades oficiais.
Em Zinacantán, o governo perredista planejou e executou uma emboscada que deixou vários zapatistas feridos à bala. Mergulhado na “crise dos vídeos”, o PRD nacional guardou um silêncio cúmplice e só abriu um processo para expulsar do PRD o prefeito. Nos seletos círculos do PRD foi dito que este era o pagamento aos zapatistas por eles não apoiarem o seu partido nas eleições. Esta é uma plataforma que irão promover a nível nacional em 2006? Para quem não for incondicionalmente do PRD, golpes e tiros? É uma pergunta.
Com outras organizações com as quais houve e há atritos, e com as quais as coisas antes se resolviam com a lógica do “se há um problema, agarro um dos teus, você agarra um dos meus, trocamos um pelo outro, e o problema continua o mesmo” (ou “você junta um bocado de gente, eu junto outro tanto, nos golpeamos e o problema continua o mesmo”), agora se procura falar, conhecer as versões das duas partes, fazer um acerto. Assim, sem enfrentamentos nem seqüestros mútuos. Desta forma, foram resolvidos problemas com organizações como a ORCAO, a ARIC-Independente, a ARIC-PRI, a CNC e muitas outras que estão presentes nos territórios onde atuam as JBG e até onde sua influência alcança.
À diferença dos anos anteriores, os conflitos entre comunidades e entre organizações nos territórios das Juntas de Bom Governo têm diminuído, e tem sido reduzido o índice de criminalidade e de impunidade. Os delitos se resolvem, não só se castigam. Se não acredita em mim, faça uma consulta nas hemerotecas, nos juizados, nos ministérios públicos, nos presídios, nos hospitais, nos cemitérios. Compare o antes e o depois e tire suas conclusões.
UMA JUSTIÇA A SEU MODO?
O bom governo não procura outorgar impunidade aos que simpatizam com ele nem é feito para penalizar aqueles que se opõem em idéias e colocações. Ou seja, não deve fazer como faz o governo federal que deixa impunes os criminosos porque são do PAN (Estrada Cajical, por exemplo) ou porque fez um trato com o PRI (Luis Echeverría, por exemplo), e pretende penalizar um de seus contrários (López Obrador) e deixá-lo de fora da eleição de 2006.
As leis que vigoram nos Municípios Autônomos Rebeldes Zapatistas não só não contradizem os princípios de justiça em vigor no sistema jurídico estadual e federal, mas em muitos casos os completam.
Disse que o bom governo não está aí para dar impunidade aos próprios e castigar os demais.
Como exemplo, e para ilustrar, tenho uma cópia do ofício expedido pelo Juizado Municipal Autônomo de San Juan de La Libertad, Chiapas, com a data de 19 de agosto de 2004, dirigido ao governo constitucional do Estado de Chiapas e com cópia para o prefeito de Chalchihuitán e para o juizado municipal de Chalchihuitán. O texto vale como argumento (respeito a redação original):
“Diante destas dependências autônomas e diante das autoridades do juizado municipal foi apresentado o Fulano, base de apoio do EZLN, de 17 anos de idade, originário de Jolik’alum, município de Chalchihuitán, Chiapas, no dia 14 de agosto deste ano, pelas autoridades locais desta comunidade que tendo praticado um delito de ordem comum no dia 13 de agosto do ano em curso quando Beltrano do Partido da Ação Nacional (PAN) havia saída de sua casa para fazer umas compras no mercado de Jolitontic e, na volta, quando vinha caminhando pela vereda encontrou este jovem Fulano escondido na montanha com uma arma longa de calibre 22 de um tiro, a mesma que tratou de disparar a uma distância de 5 metros de Beltrano pela arma que já não serve.
Encontrando-se já à disposição dos juízes municipais autônomos, o jovem Fulano esclarece que o próprio queixoso Beltrano foi o primeiro a dar início à provocação quando derrubou 300 pés de café de boa qualidade de propriedade do jovem Fulano e é por isso que este jovem já faz um ano que tem a coragem, nós, juízes autônomos, qualificamos isso que foi cometido por Fulano como um grave delito dentro da ordem e da disciplina revolucionária zapatista, a este respeito nós ratificamos sua detenção imediata na medida em que existem elementos para esse tipo de pena, mas no momento da detenção do que é apontado como culpado, o queixoso Beltrano saiu correndo dos juízes municipais negando-se a declarar as origens da questão, como se fosse ele o culpado deste fato. Nós, autoridades autônomas, podemos resolver qualquer tipo de assuntos ou de delitos de ordem e de foro comum. O Fulano, no momento, é punido com uma pena que o priva da liberdade(...) A arma do Fulano está nas mãos das autoridades autônomas de San Juan de La Libertad, a arma está em más condições porque já não funciona e será destruída”.
DIREITOS COLETIVOS VERSUS DIREITOS INDIVIDUAIS?
Imagino que vai ou irá ter estudos jurídicos que demonstrem não haver contradição no reconhecimento de uns e de outros. Falamos agora do que vemos através dos fatos e do que praticamos, e estamos abertos para qualquer um que venha e corrobore se o exercício dos nossos direitos como povos indígenas viola algum direito individual.
Os direitos coletivos (como a decisão sobre o uso e o aproveitamento dos recursos naturais) não só não contradizem os direitos individuais, como permitem que estes últimos estejam ao alcance de todos, não só de alguns. Como se verá na parte dos avanços, em território zapatista não aumentaram as violações dos direitos humanos individuais. Cresceram, sim, condições de vida melhores. Respeitam-se o direito à vida, à religião, à filiação partidária, à liberdade, à suposição de inocência, a se manifestar, a discordar, a ser diferente, à livre escolha da maternidade.
Neste ano, no lugar de metermo-nos numa discussão de termos jurídicos, nós zapatistas optamos por demonstrar nos fatos que a bandeira do reconhecimento dos direitos dos povos indígenas, levantados pelos indígenas mexicanos e por muitos mais com eles, não implica em nenhum dos perigos que foram argüidos contra eles.
Em terras zapatistas não está se gestando a pulverização da nação mexicana. Ao contrário, o que nasce aqui é uma possibilidade de sua reconstrução.
(a continuar...)
Das montanhas do Sudeste Mexicano.
Subcomandante Insurgente Marcos.
México, agosto de 2004, 20 e 10.
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Comunicado divulgado através do La Jornada em 23/08/2004.
4.9.04
Ler um vídeo.
Terceira parte: três ombros.
A lua apareceu no ombro da noite, mas foi só por um momento. As nuvens se afastaram, como abrindo uma cortina, e então o corpo noturno fez brilhar sua pegada de luz. Sim, como a marca deixada por um dente no ombro quando, no vôo do desejo, não se sabe se cai ou se levanta.
Há 20 anos, depois de subir trabalhosamente a primeira encosta para entrar nas montanhas do sudeste mexicano, sentei num canto do caminho. A hora? Não lembro exatamente, mas era essa na qual a noite diz que já-foi-bom-de-grilos-melhor-ir-dormir, e nada do sol se levantar. Ou seja, era de madrugada.
Enquanto tratava de acalmar a respiração e as batidas do coração, pensava na conveniência de optar por uma profissão mais sossegada. Afinal, estas montanhas haviam passado muito bem sem a minha chegada, e não sentiriam a minha falta.
Devo dizer que não acendi o cachimbo. E tem mais, nem sequer me mexi. E não por disciplina militar, mas sim porque o meu formoso corpo estava todo dolorido. Iniciando um costume que mantenho até agora (com uma férrea autodisciplina) comecei a amaldiçoar a minha habilidade para me meter em encrencas.
Estava nisso, ou seja, no esporte da queixa-queixa-queixa, quando vi passar, morro acima, um senhor com um fardo de milho nas costas. Vulto visivelmente cansado, o homem caminhava curvado. Haviam me tirado a carga no meio da encosta para não atrasar a marca, mas o que me pesava era a vida, não a mochila. Enfim, não sei quanto fiquei aí sentado, mas, de repente, o senhor passou de novo, agora morro abaixo e já sem a carga. Mas o homem continuava caminhando curvado. “Xiii!”, pensei (e esta era a única coisa que podia fazer sem que me doesse tudo), “é assim que vou ficar com o tempo, minha postura varonil vai se arruinar e o meu futuro como símbolo sexual será como as eleições, uma fraude”.
De fato, há alguns meses caminhava como um ponto de interrogação. Mas não pelo peso da mochila, mas tão somente para não enroscar o nariz nos galhos e nos cipós.
Um ano depois encontrei o Velho Antonio. Numa madrugada fui até à sua choça pegar tostadas e pinole. (1) Naquela época não nos mostrávamos ao povo e só alguns indígenas sabiam de nós. O Velho Antonio se ofereceu para acompanhar-me até o acampamento, de tal forma que dividiu a carga em dois fardos e, no dele, colocou o mecapal. (2) Eu coloquei o fardo na mochila porque não me dava com o mecapal. Fizemos a caminhada com uma lanterna até chegar na beirada do potreiro, onde começavam as árvores. Paramos diante de um riacho, esperando amanhecer.
Não lembro bem de onde veio a conversa, mas o Velho Antonio me explicou que os indígenas caminham sempre curvados, mesmo que não carreguem nada, porque levam sobre os ombros o bem do outro.
Perguntei como é que era isso, e o Velho Antonio me contou que os primeiros deuses, os que deram origem ao mundo, fizeram os homens e as mulheres de milho de maneira tal que eles caminhassem sempre coletivamente. E me contou que caminhar coletivamente quer dizer pensar também no outro, no companheiro. “Por isso, os indígenas caminham curvados”, disse o Velho Antonio, “porque carregam sobre os ombros o seu coração e o coração de todos”.
Então eu pensei que para esse peso não bastavam dois ombros.
O tempo passou e, com ele, aconteceu o que aconteceu. Preparamo-nos para combater e nossa primeira derrota foi diante destes indígenas. Eles e nós caminhávamos curvados, mas nós pelo peso da soberba, e eles porque carregavam também a nós (mesmo que não nos déssemos conta). Então, nós nos fizemos eles, e eles se fizeram nós. Juntos, começamos a caminhar, curvados, mas sabendo que não bastavam dois ombros para este peso. Assim, nos levantamos em armas no dia primeiro de janeiro de 1994... para procurar outro ombro que nos ajudasse a caminhar, ou seja, a ser.
O terceiro ombro.
Como na origem da Nação Mexicana, a história contemporânea das comunidades indígenas zapatistas terá também sua lenda da fundação: aqueles que moram nestas terras têm agora três ombros.
Aos dois ombros que os seres humanos comuns costumam ter, os zapatistas acrescentaram um terceiro: o das “sociedades civis” nacionais e internacionais.
Nas próximas duas partes deste vídeo “raro” falarei dos avanços conseguidos nas comunidades zapatistas. Então, se verá que são grandes, de um tamanho que sequer havíamos imaginado.
Mas agora quero dizer-lhes que isso tem sido possível porque alguém nos deu o ombro.
Achamos que tivemos sorte. Desde o início, o nosso movimento contou com o apoio e a simpatia de centenas de milhares de pessoas nos cinco continentes. Esta simpatia e este apoio não se resignaram diante das limitações pessoais, das distâncias, das diferenças culturais e de idioma, das fronteiras e dos passaportes, das diferenças na concepção política, dos obstáculos colocados pelos governos federal e estaduais, dos postos de controles, das hostilidades e dos ataques militares, das ameaças e agressões de grupos paramilitares, da nossa desconfiança, da nossa falta de cortesia, da nossa incompreensão para com o outro, da nossa grosseria.
Não, acima disso tudo (e de muitas outras coisas que cada um conhece), as “sociedades civis” do México e do mundo têm trabalhado por, para e conosco.
E têm feito isso não por caridade, não por pena, não por uma moda política, não por afã publicitário, mas sim porque, de uma forma ou de outra, têm feito sua uma causa que continua ficando grande só para nós: a construção de um mundo onde caibam muitos mundos, ou seja, de um mundo que carregue o coração de todos.
Dos lugares mais insuspeitos do México e do mundo, das ilhotas que agüentam apesar do furacão neoliberal, para visitar os caracóis e falar com as Juntas de Bom Governo (para projetos, doações, esclarecimentos ou simplesmente para conhecer o processo de construção da autonomia), em um ano chegaram pessoas de, pelo menos, 43 países, incluindo o nosso, que é o México.
Homens e mulheres, como indivíduos e como organizações, da Espanha, Alemanha, País Basco, Eslovênia, Itália, Suíça, Escócia, Estados Unidos, Dinamarca, Bélgica, Finlândia, Austrália, Argentina, França, Canadá, Polônia, Suécia, Holanda, Noruega, Brasil, Guatemala, Turquia, Chile, Colômbia, El Salvador, Peru, Grécia, Portugal, Japão, Norte da África (está assim no informe, não sei qual é o país), Nicarágua, Inglaterra, Uruguai, Bolívia, Áustria, Nova Zelândia, Israel, Irã, República Tcheca e de todos os Estados da República Mexicana, colocaram seu ombro junto aos dois das comunidades para começar a alterar radicalmente as condições de vida dos indígenas zapatistas.
Assim, em um ano, os caracóis e as Juntas de Bom Governo (JBG) têm chegado (às vezes com projetos produtivos, às vezes com donativos, às vezes com o ouvido atento e respeitoso, às vezes com a palavra irmã, às vezes com a curiosidade, às vezes com o afã científico e às vezes com o desejo de resolver problemas através do diálogo respeitoso e do acordo entre iguais), milhares de pessoas, como indivíduos, como organizações sociais, como organizações não-governamentais, como organizações de ajuda humanitária, como organizações defensoras dos direitos humanos, como cooperativas, como autoridades de municípios de outros Estados do México e de outras partes do mundo, como corpo diplomático de outras nações, como pesquisadores, como artistas, como músicos, como intelectuais, como religiosos, como pequenos proprietários, como empregados, como operários, como donas ou “donos” de casa, como trabalhadores e trabalhadoras do sexo, como locatários de mercado, como vendedores ambulantes, como jogadores de futebol, como estudantes, como professores, como médicos, como enfermeiras, como empresários, como empreiteiros, como autoridades estaduais e como muitas coisas mais.
Só em Oventic, o caracol relata ter atendido, em um ano, 2 mil 921 pessoas de outros países e mil 537 do México, sem contar os companheiros e companheiras bases de apoio zapatistas que procuram a Junta para tratar de vários problemas.
O terceiro ombro da luta zapatista tem muitas cores, fala muitas línguas, vê com muitos olhares e caminha com muitos. Falamos e queremos bem a eles e elas, além de agradecer, vamos entregar-lhes...
A prestação de contas.
Bom, é a hora da prestação de contas. Peço-lhes paciência, porque me coube rever as contas de todas as Juntas para elaborar esta espécie de informe, e cada uma tem seu “jeito” de decidir o que coloca nas somas e o que põe nas subtrações. Enfim, não tem sido fácil, mas, seja como for, os detalhes disso tudo poderão ser consultados em cada caracol a partir do dia 16 de setembro deste ano.
<> Em conjunto, as cinco Juntas de Bom Governo que funcionam em território zapatista registraram entradas de quase 12 milhões e meio de Pesos [aproximadamente, R$ 3.300.000,00], saídas de cerca de 10 milhões [aproximadamente, R$ 2.530.000,00] e um saldo que anda por volta dos 2 milhões e meio de Pesos [R$ 770.000,00]. (3)Há diferenças significativas nas contas administradas pelas JBG em cada caso. É assim porque algumas das Juntas registram todo o dinheiro de que tiveram conhecimento, ou seja, incluem na conta o que receberam diretamente e o que foi recebido pelos Municípios Autônomos Rebeldes Zapatistas (Marez) com a aprovação da Junta de Bom Governo. Outras Juntas só relatam o que foi administrado diretamente, sem incluir o que foi recebido pelos Marez.>
Há também diferenças significativas no que entrou nas JBG; em alguns casos, se deve ao fato de que há Juntas (como a de Los Altos e a da Selva região de Fronteira) que cobrem um território muito grande; em outros, porque suas sedes são mais conhecidas pelas “sociedades civis” (Oventic e La Realidad), e, em alguns outros, porque a diferença de desenvolvimento organizativo entre as regiões é ainda muito grande.
Mesmo que aproximadamente (e arredondando, porque os companheiros registram cada centavo), são estes os dados relatados por cada junta no exercício de um ano:
| JBG | Entradas anuais | Saídas anuais |
| R. Barrios | Um milhão e 600 mil Pesos [R$ 416.000,00] | Um milhão de Pesos [R$ 260.000,00] |
| Morelia | Um milhão e 50 mil Pesos [R$ 273.000,00] | 900 mil Pesos [R$ 234.000,00] |
| La Garrucha | 600 mil Pesos [R$ 156.000,00] | 300 mil Pesos [R$ 78.000,00] |
| Oventic | 4 milhões e meio de Pesos [R$ 1.170.000,00] | 3 milhões e meio de Pesos [R$ 910.000,00] |
| La Realidad | 5 milhões de Pesos [R$ 1.300.000,00] | 4 milhões de Pesos [R$ 1.040.000,00] |
O que foi feito com esse dinheiro? Bom, já vai chegar sua vez de prestar conta. Por enquanto só adianto que não foi nada em proveito individual de ninguém.
As autoridades autônomas que se revezaram na direção das Juntas de Bom Governo garantem suas necessidades pessoais, nos dias em que despacham nos caracóis, através de ajudas dos povoados ou com o apoio do EZLN. Por dia, o gasto médio (sem contar o da passagem de sua comunidade ao caracol e o retorno) de um membro da Junta de La Garrucha, por exemplo, é de menos de oito Pesos [R$ 2,08] (em outros lugares sobe um pouco mais). No caso de Oventic é de zero Pesos, porque as autoridades levam suas tostadas seu feijão e seu café, quando o tem (senão vão de chá de capim).
Compare isso com, por exemplo, o que ganha no México um diretor do IMSS (que cobra para desmantelar as conquistas dos trabalhadores deste instituto), ou, por exemplo, com o que custam as toalhas na residência presidencial do nosso país, ou, por exemplo, com o que se paga por alguns colchões na casa de um funcionário do governo Fox no exterior, ou com o que ganha um deputado ou um senador. (4)
É claro que nossas autoridades não usam guarda-costas, não pagam assessores, nem compram carros do ano para si, nem comem em restaurantes de luxo, nem nomeiam seus familiares.
Ou seja, governar não tem porque ser oneroso.
O ombro da aniversariante.
A menção do “terceiro ombro” não seria completa se não mencionasse aqueles que, mesmo com o silêncio sugerindo perda de rumo, desordem, disputas internas, desaparecimento ou o barulho que agora está na moda, têm continuado atentos e dispostos a tratar de entender as razões pelas quais aqui se luta (e os métodos e os tempos com os quais se luta).
Ouvir o que o outro fala e, sobretudo, o que cala, só é possível entre aqueles que partilham o caminho e, às vezes, a carga.
E me refiro àqueles que, tendo com certeza coisas mais importantes a fazer, reservam o tempo e a atenção necessários para ouvir e ver aqueles que não se costuma ouvir e nem ver (ou só quando há eventos “importantes”).
Como eu, aqueles dos quais estou falando, completarão 20 anos neste mês de setembro. Mencionei-os só de passagem na primeira parte porque, para nós, não são só um meio de comunicação. Já sabem então que falo e penso naqueles que dirigem e trabalham no jornal mexicano La Jornada.
Como muitos homens e mulheres que apóiam a luta dos povos indígenas (e por isso a dos zapatistas), os “jornadeiros” não olham ou escutam os povos zapatistas por moda ou por cálculo da mídia. Seu passo vai além da ação jornalística, tem a ver com o que alguns chamam de “ética do compromisso” e se inscreve no afã de uma mudança real e justa, e não no afã dos ganhos econômicos e/ou políticos. Não quero ser injusto dizendo só que os “jornadeiros” têm sido generosos, no lugar disso direi que têm sido coerentes e são poucas, muito poucas, as pessoas que podem dizer e manter isso por 20 anos.
Sei que estou me adiantando, mas é quase certo de que nesse dia, no dia da aniversariante, La Jornada apareça cheia de mensagens felicitando-a por seu vigésimo aniversário e dificilmente haverá lugar para a felicitação que nós, os menores de seus irmãos, lhe enviamos.
Por isso, nos adiantamos, e neste seu “não aniversário” enviamos um abraço a todos e a todas, só um, mas um desses que só se dão entre irmãos e que dizem coisas que não se podem dizer. Vai também o meu abraço pessoal, na espera de podê-lo dar pessoalmente (tomara que não seja post mortem), a tod@s e cada um@ d@s jornadei@s.
E como “pra quem madruga mais vale um pássaro na mão” (não é assim?, perdão, é que a incoerência do gabinete contagia), pedimos o mesmo na hora de repartir o bolo que, como sabemos, por maior que seja, nunca será do tamanho do coração que carregam.
Resumindo, sejam muito felizes pelo aniversário (não levantem muito o cotovelo, porque logo vão acontecer coisas que precisarão de ouvidos e olhares honestos).
E a todos e a todas, “sociedades civis”, parabéns pelos aniversários dos caracóis e das Juntas de Bom Governo. E obrigado pelo terceiro ombro.
Valeu. Saúde e se o pote dos doces a ser estourado tiver a cara do Bush, peço a minha vez.
(a continuar...)
Das montanhas do Sudeste Mexicano.
Subcomandante Insurgente Marcos.
México, agosto de 2004, 20 e 10.
P. S. A minha festa de aniversário será de leve a moderada, terá pozól azedo e não porque eu goste, mas sim porque os companheiros gostam de dar uma de engraçadinhos. (5)
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Comunicado divulgado através do La Jornada em 22/08/2004.
29.8.04
Segunda Parte: duas falhas.
Bom, é verdade, estou sendo generoso demais com o espelho. Mas não me refiro só ao fato de que só tenhamos tido duas falhas, erros ou faltas ("falhos" dizem por estas bandas) no primeiro ano de atividade dos caracóis e das Juntas de Bom Governo, mas sim que se trata de duas faltas que já parecem ser crônicas na nossa ação política (e que contradizem flagrantemente nossos princípios): a posição das mulheres, de um lado, e, do outro, a relação da estrutura político-militar com os governos autônomos.
Quem esteve em contato com os caracóis ou com as Juntas de Bom Governo deve ter muitas mais, mas uma parte delas se deve à dinâmica da resistência, outra é de erros que, pelo menos como tendência, já estão em processo de solução, e outra parte ainda é de erros que não o são (ou seja, são ações propositais).
Há outros erros que não tenho certeza se devam a algo que tenha a ver com a guerra, a resistência, a clandestinidade. Entre eles, há, por exemplo, nossa tradicional falta de cortesia. É comum que quem chegue aos caracóis e tente falar com a Junta de Bom Governo, passe um bom tempo esperando para ver se será recebido ou não. Também é freqüente que se mandem perguntas e as respostas não cheguem ("deveriam ao menos se dar ao trabalho de responder que não vão responder", suplicava-resmungava uma sociedade civil).
Pode parecer engraçado, mas para alguém que às vezes cruzou um oceano (e não metaforicamente) para chegar em nossos solos, não tem graça nenhuma não ser recebido. Eu acredito que é o "jeito" daqui, mas já está sendo resolvido; agora há uma comissão que, enquanto a Junta de Bom Governo se prepara, atende quem chegar (sempre e quando não se trate do governo federal). Contudo, o funcionamento da chamada "comissão de recepção" (formada quase sempre por membros do CCRI) não tem sido igual em todos os caracóis e mais de um ou uma "sociedade civil" tem ficado esperando. Mas, acreditem, estamos atentos a que isso não volte a acontecer... pelo menos não com tanta freqüência.
Por outro lado, se deve entender que estamos num movimento, em rebeldia e resistência. Se a isso acrescentamos várias gerações vítimas de enganos e traições, é possível compreender a desconfiança natural diante dos novos visitantes e que se peçam dados e referências que ajudem a esclarecer se o recém-chegado está com boas ou más intenções. O que alguns vêem como tendências à burocratização nas JBG e nos conselhos autônomos são, na realidade, produtos da dinâmica do acossado e perseguido.
Outro erro detectado pelas "sociedades civis" e, sobretudo, pelas organizações não-governamentais que trabalham nas comunidades, não o é.
Refiro-me ao fato de que os membros das Juntas de Bom Governo mudam continuamente. Depois de "plantões" que vão de 8 a 15 dias (a depender da região) a Junta é relevada; os que estavam voltam a seus trabalhos de conselho autônomo e outras autoridades entram para dirigir a JBG.
"Quando já estamos nos entendendo com uma equipe", dizem as "sociedades civis", "a trocam por outra e devemos começar de novo; não há continuidade porque se fazem acordos com uma Junta numa semana e na seguinte já tem outra Junta diferente". Há quem não entra em detalhes e receita: "as Juntas de Bom Governo são um sem mãe".
Uma "comissão de vigilância" (equipe do CCRI encarregada de apoiar a JBG em cada região) me falava: "Estamos trabalhando muito, porque quando uma equipe começa a pegar o jeito dos trabalhos da Junta, troca-se por outra equipe e temos que começar novamente a explicar as coisas aos novos. Não só, quando já passaram todas as autoridades autônomas, zas!, troca-se o conselho e dá-lhe outra vez".
Vocês vão dizer que sou malandro, mas a verdade é que é planejado para ser assim.
Claro que o plano não é para que as Juntas sejam, para usar o termo das "sociedades civis", um sem mãe. O plano é que o trabalho da JBG aconteça em rodízio com os membros de todos os conselhos autônomos de cada região. Trata-se de fazer com que a tarefa de governar não seja exclusiva de um grupo, que não haja governantes "profissionais", que a aprendizagem seja para o maior número possível, e que se rejeite a idéia de que o governo só pode ser desempenhado por "pessoas especiais".
Assim, quase sempre acontece que quando todos os membros de um conselho autônomo já aprenderam qual é o sentido do bom governo, há novas eleições nas comunidades e mudam todas as autoridades. Aqueles que haviam aprendido voltam ao milharal e entram os novos... e se recomeça.
Analisando detidamente, se verá que se trata de todo um processo no qual povos inteiros estão aprendendo a governar.
Vantagens? Bom, uma delas é que é mais difícil que alguma autoridade use de malandragem e, argumentando o quanto é "complicada" a tarefa de governar, não informe as comunidades sobre o uso de recursos ou a tomada de decisões. Quanto mais conhecem o todo, mais difíceis serão o engano e a mentira. E maior será a vigilância que os governados exercem sobre o governante.
Também se dificulta a corrupção. Se você consegue corromper um membro da JBG, terá que corromper todas as autoridades autônomas, ou seja, todos os turnos, porque fazer um "trato" só com uma não garante nada (a corrupção também precisa de "continuidade"). Quando você acaba de corromper todos os conselhos, terá que começar de novo, porque até lá já terá ocorrido outra troca de autoridades e o que "acertou" com um não funciona mais. Assim que, praticamente, terá que corromper todos os moradores adultos das comunidades zapatistas. Ainda que, claro, é provável que quando conseguir, as crianças já terão crescido e então de novo...
Sabemos que este método dificulta a realização de alguns projetos, mas, em troca, temos uma escola de governo que, em longo prazo, dará frutos numa nova forma de fazer política. Além disso, este "erro" tem nos permitido combater a corrupção que poderia aparecer entre as autoridades.
Sei que levará tempo. Mas para aqueles que, como nós zapatistas, fazem planos para décadas, alguns anos não é muito tempo.
Outro "erro", que não o é, diz respeito ao fato de que, às vezes, procura-se a Junta de Bom Governo para pedir uma declaração de apoio a um movimento ou a uma organização e o pedido não é atendido. Ou se convida uma JBG a atos políticos e o convite é recusado. Isso não porque à Junta não interesse apoiar ou participar. Deve-se, pura e simplesmente, ao fato de que estas ações não competem à Junta de Bom Governo porque envolvem todos os povos zapatistas, não só os que estão na jurisdição de uma Junta, e as JBG não se podem arrogar representações que não lhes competem. Além disso, na maior parte das vezes, a olicitação e o convite é feito ao EZLN, mas o EZLN é uma coisa e as Juntas são outra coisa. De tal forma que não se aflijam, estamos todos aprendendo.
Contrariando o que se poderia pensar, os erros que são de nossa exclusiva responsabilidade são os mais difíceis de resolver.
No início da segunda parte do vídeo, dizia que um erro que arrastamos há muito tempo diz respeito ao lugar das mulheres. A participação das mulheres nos trabalhos de direção organizativa continua sendo pequena, e nos conselhos autônomos e nas JBG é praticamente inexistente. Mesmo não sendo uma contribuição do EZLN às comunidades, é também nossa responsabilidade.
Se nos Comitês Clandestinos Revolucionários Indígenas de região a porcentagem da participação feminina está entre 33 e 40%, nos conselhos autônomos e nas Juntas de Bom Governo anda, em média, em menos de 1%. As mulheres continuam não sendo levadas em consideração na hora de nomear comissários ejidais e agentes municipais. O trabalho de governo é ainda prerrogativa dos homens. E não é que estejamos a favor do "apoderar-se" das mulheres, tão na moda lá em cima, mas sim que na base social zapatista ainda não há espaços para que a participação feminina se veja refletida nos cargos de governo.
E não só. Apesar das mulheres zapatistas terem tido e ter um papel fundamental na resistência, em alguns casos, o respeito dos seus direitos continua sendo uma mera declaração que não sai do papel. É verdade que a violência no interior da família tem diminuído, mas é mais pelas limitações ao consumo de álcool do que por uma nova cultura familiar e de gênero.
Também se continua limitando a participação das mulheres nas atividades que implicam sair do povoado.
Não se trata de algo escrito ou explícito, mas a mulher que sai sem o seu marido ou sem seus filhos é mal vista e se pensa mal dela. E não me refiro a atividades "extrazapatistas", de cuja participação há restrições severas que incluem também os homens. Falo de cursos e encontros organizados pelo EZLN, pelas JBG, pelos municípios autônomos, pelas cooperativas de mulheres e pelos próprios povos.
É uma vergonha, mas devemos ser sinceros: ainda não podemos apresentar bons resultados a respeito da questão da mulher, da criação de condições para seu desenvolvimento de gênero, de uma nova cultura que reconheça a elas capacidades e aptidões supostamente exclusivas dos homens.
Mesmo que dê pra ver que isso vai longe, esperamos algum dia poder dizer, com satisfação, que conseguimos resolver pelo menos este aspecto do mundo.
Só por isso já valeria a pena.
O que é sim uma "contribuição" (má, com certeza) do EZLN às comunidades e ao seu processo de autonomia, é a relação da estrutura político-militar com os governos civis autônomos.
De início, a idéia que tínhamos era que o EZLN devia acompanhar e apoiar os povos na construção de sua autonomia. Contudo, o acompanhamento se transforma, às vezes, em direção, o conselho em ordem...e o apoio em estorvo.
Já havia dito antes que a estrutura hierárquica piramidal não é própria das comunidades indígenas. O fato do EZLN ser uma organização político-militar e clandestina ainda contamina processos que devem e têm que ser democráticos.
Em algumas Juntas e caracóis apareceu o fenômeno de que comandantes do CCRI tomam decisões que não competem a eles e colocam a Junta em maus lençóis. O "mandar obedecendo" é uma tendência que continua topando com as paredes que nós mesmos levantamos.
Estas duas falhas requerem nossa atenção especial e, obviamente, medidas que as bloqueiem. Não podem ser atribuídas ao cerco militar, à resistência, ao inimigo, ao neoliberalismo, aos partidos políticos, aos meios de comunicação ou ao mau humor de quando levantamos com o pé esquerdo...
É tudo. Fui o mais breve possível porque, na aceitação dos próprios erros, temos que ser tão parcos como extensos nas soluções.
Valeu. Saúde e entendo que ainda não entendam. Por isso havia iniciado com "paciência, virtude guerreira".
Das montanhas do Sudeste Mexicano.
Subcomandante Insurgente Marcos.
México, agosto de 2004, 20 e 10.
P.S. Quer dizer que era melhor quando estávamos caladinhos? Seja como for, dizemos o que pensamos e sentimos. De quantas pessoas e organizações podem dizer o mesmo?
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Comunicado divulgado através do La Jornada em 21/08/2004.
27.8.04
Primeira parte: uma ilhota.
Com a proteção da chuva, o Sombraluz caminha em espiral, esboçando um caracol com seus passos. Entra? Sai? Vai saber. Parece que fala ou escreve a quem não está. Vejamos...
A festa acabou. Os músicos foram embora, mesmo que ainda haja um pouco de confusão. Amanhã o dia será como costuma ser neste mês: sol de vez em quando, como se, de tempos em tempos, se aproximasse só para ver o que fazemos, com as nuvens e a chuva nos escondendo de repente, como que fazendo “bolinha” sobre o mundo. Mas ainda falta para que o sol suba com seu pijama de nuvens e também falta para que estas expressem suas saudades e suspiros sobre as sombras e luzes de baixo. A festa se apaga aos pouquinhos, como quem se desculpa, como se o ruído (o blá, blá da música na lama) desse o “quem está aí” e o silêncio, calando, dissesse, “sou eu”. Aos pouquinhos também se acendem os grilos. Assim como quem ainda espera, deixa sua cintura no meu braço mais um momento. Olha para a desordem de estrelas dispersas, o céu lavando-se o rosto moreno de sombra e a lua piscando sua luz entre as nuvens. Você escuta? Já há só a serragem da noite, alguma gota de chuva chegando com evidente atraso aos telhados de zinco, um cachorro imitando a eco do seu latido com a cumplicidade de outros. Vem, caminhemos de novo, façamos do olhar um testemunho. Acende a mente, vê o que se vê e o que não se vê. Atenção! Já aparecem as primeiras letras.
Supõe-se que deveria ser uma tela, com imagem, som e um controle remoto. Supõe-se, mas não...No lugar da tela e do controle remoto aparece uma cartolina onde se lê:
O SISTEMA ZAPATISTA DE TELEVISÃO INTERGALÁTICA APRESENTA... UM VÍDEO MUUUUIIITO ESPECIAAAAAL!
O Sombraluz troca a cartolina por outra na qual se lê, agora em letras escritas a mão:
A AUSÊNCIA DE SOM E IMAGEM NESTE VÍDEO NÃO É POR FALTA DE TECNOLOGIA, MAS SIM PELA QUE SE CHAMA DE “TECNOLOGIA DA RESISTÊNCIA”.
Mmmh, quer dizer que é um vídeo sem imagens e som... A partir deste momento, o “vídeo alternativo” será apresentado em sucessivas cartolinas, com letras de diferentes tipos, tamanhos e cores. Acomode-se onde e como puder, e leia...
Naquele tempo, havia... um país chamado México
Provavelmente, as futuras gerações de mexicanos não saberão disso (graças a uma criminosa reforma do sistema educativo do segundo grau), mas a lenda cultural da fundação que dá origem à Nação Mexicana não tem nada a ver com a mestiçagem. Tampouco se relaciona com a brutal conquista espanhola, nem com as guerras invasoras, abertas ou disfarçadas, dos vários nomes da estupidez imperial ao longo da história: Estados Unidos da América do Norte, França, Inglaterra, Alemanha.
Muito menos está associada ao estúpido decreto (cada mudança de governo) do fim da história num nome: Agustín de Iturbide, Antonio López de Santa Anna, Maximiliano de Habsburgo, Carlos Salinas de Gortari (ou o nome que venha a receber o “tenho nome, mas me conhecem como a plenitude dos tempos”).
Não, o referencial histórico, cultural e simbólico desta nação tem a ver com o indígena: sobre uma ilhota, uma águia devora uma serpente e um cacto lhe serve de pedestal. Esta imagem será escudo, bandeira, sinônimo, espelho coletivo e âncora cultural dos mexicanos desde o século XIX até este amanhecer do século XXI.
Segundo a lenda, os mexicas fundam Tenochtitlán no lugar onde encontram este sinal. O deus Huitzilpochtli (chamado também de “céu azul” e representado por um sol) teria derrotado Copil. O coração do vencido é enterrado e se transforma em cacto. Os mexicas, procedentes de Aztlán (“O Lugar das Garças), serão conhecidos então como “astecas” e, com o passar do tempo, este nome será sinônimo de “mexicanos”.
Assim que hoje, quando o vigésimo primeiro século ensaia os primeiros passos, em meio ao caos, os símbolos nos lembram que o México é fundado sobre uma ilhota. E, sobre uma ilhota, como foi ao longo de toda a sua história como nação, a mexicana enfrenta uma nova tentativa de destruição, agora com a desculpa da “modernidade”. E, como em toda a guerra, o poderoso ataca primeiro os dois objetivos principais: a verdade... e o calendário.
Uma retomada rápida das principais imagens da “vida nacional” apresentadas pelos meios de comunicação (particularmente pela televisão) provoca uma sensação de caos, anacronismo e injustiça. O calendário em vigor marca a metade do ano de 2004, mas a programação às vezes parece estar na metade do século XIX, e, às vezes, na metade do ano de 2006.
A diferença entre esquerda e direita está no fato de que uns saem em vídeo e outros não.
Alguns saldos da questão Ahumada: não só se fortalecem as qualidades histriônicas de dirigentes do Partido da Revolução Democrática (PRD), seu provincianismo fazendo fila para subir no avião privado do corruptor de maiores, sua decadência artesanal (priistas e panistas se burlavam das ligas, das bolsas – as de plástico e as do paletó – e as carteiras, como se não existissem, dizem, as finanças cibernéticas e as contas bancárias nas Ilhas Caimãs) e o método infalível de ocultar um escândalo com outro maior (o complô – à luz do sol, claro – como lavatórios da mídia).
Também devemos a Ahumada o fato de exibir um governo, o federal, preferindo o escândalo na mídia no lugar da via jurídica; estabelecer a verdadeira estatura política (de anãos) da “dupla dinâmica” (Creel e Derbez), e mostrar a fragilidade do Estado mexicano ao levar o seu governo a uma crise internacional com o governo de Cuba.
E o mais importante: o caso Ahumada foi só um tira-gosto da longa amostra com a qual a classe política destrói o calendário: 2006 será o ano mais longo da história, pois começou em janeiro de 2004. Não foi o afã de justiça ou a busca da verdade a motivar a saída à luz pública das tramóias de Carlos Ahumada, “produtor de vídeos de vocação” (disse Monsiváis). A razão foi a de atingir a imagem pública de López Obrador.
No que diz respeito à corrupção, as cenas exibidas e ocultadas pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI) não ficariam atrás no rating. No chamado Pemexgate abundam as provas jurídicas, mas falta o vídeo. Na guerra suja de Díaz Ordaz-Echeverría-López Portillo-De la Madrid-Salinas de Gortari-Zedillo há evidências incriminatórias, mas a justiça determinou que passasse antes do horário nobre. Nas fraudes eleitorais há certezas, mas não há réu no banco dos acusados. Na corrupção transformada em governo há seguranças legais, mas não podem ser usadas como slogan eleitoral.
E o Partido da Ação Nacional (PAN) disputa o seu lugar na programação. O de Vamos México, a Loteria Nacional e o desvio de fundos públicos para a Provida, foram, nos esclarecem apressados, um problema de relações públicas e de “imprensa má”.
Muito a contragosto, os três principais partidos políticos do México disputam entre si o papel de protagonista no escândalo com a mesma força com a qual antes disputavam os votos. Parece que ninguém faz o favor de informá-los, mas a crise do estado mexicano é também, e, sobretudo, a crise da classe política. Se a disputa eleitoral de 2006 foi adiantada para 2004 não é pelas urgências nacionais, é porque o verbo “madrugar” não se conjuga só nas intermináveis coletivas de imprensa.
A diferença entre o passado e o futuro está no fato de que o primeiro já foi ao confessionário.
Se, às vezes, a luta pelo poder nos coloca anos adiante, a direita realmente existente cumpre sua tarefa e nos situa décadas e séculos atrás.
Campeã da dupla moral, a direita pretende impor à sociedade mexicana um sistema de valores baseado no sectarismo no lugar da inclusão, na filosofia das telenovelas no lugar do conhecimento científico, na intolerância no lugar do respeito ao diferente, no racismo no lugar dos valores humanos, na esmola no lugar da justiça, no closet no lugar da liberdade manifesta, na hipocrisia no lugar da honestidade. Em suma: na Idade Média, mas com Internet e televisão de alta definição.
Se alguém acha que a direita só tem o âmbito cultural como espaço de ação política, e que aí ela não fez outra coisa a não ser colher derrotas (qualquer evento ou ato que seja vetado pela direita confessional tem sucesso garantido), ou que só se encontram no PAN e nas hierarquias retrógradas da Igreja católica, não deixa de ser ingênuo... e irresponsável.
Dos Legionários de Cristo ao Yunque, passando por Opus Dei e Provida, a direita não se contenta em conquistar “corações e mentes”. Conquista espaços de poder, recruta e treina grupos paramilitares, e dirige (às vezes com cinismo e às vezes às escondidas) setores políticos, empresariais, de mídia e sociais.
Em suma, a direita cresce, se reproduz e não morre.
E isso não é tudo. A direita faz reviver, com a cumplicidade desse ilustre oportunista que é o reitor da Universidade Nacional Autônoma do México, UNAM, (e pré-candidato à presidência da República), Juan Ramón de la Fuente, os grupos de bate-paus da universidade.
No recente assassinato do jovem estudante da UNAM, Noel Pavel González, a mão ensangüentada do grupo direitista Yunque só consegue se esconder pela cumplicidade da Procuradoria Geral de Justiça do Distrito Federal (de filiação perredista e supostamente de esquerda) que, além de sair diariamente no rádio, na televisão e nos jornais, distribui “suicídios” como se fossem boletins de imprensa.
Junto a Pavel e sua família, esperam também Digna Ochoa e seus próximos. Enfrentam amargamente o que muitos calam: a alquimia que apresenta mentiras como verdades jurídicas.
Vendo as ações dos governantes, pode-se ver que se antes a luta entre os partidos era pelo “centro”, agora disputam a direita sem reserva nenhuma.
Claro que, além da tendência à corrupção e ao autoritarismo, os políticos partilham outra coisa: o culto à mídia.
A diferença entre a democracia e o rating está na...na...na... há diferença?
As mudanças políticas no México do final do século XX e início do século XXI podem ser apreciadas na relação entre o governo e os meios de comunicação. Na época “dourada” do priismo (a “pré-modernidade”, dizem alguns) o então partido único, além do mais, governava. A “modernidade” trouxe algumas mudanças à mídia, e foi preciso governar COM os meios de comunicação. Em pouco tempo, a importância da comunicação cresceu e o poder político passou a ser governado PELA mídia. E agora, com a “pós-modernidade”, SÃO os meios de comunicação que governam e os políticos são só o elenco que não só se sujeita às regras do espetáculo, mas também aos temas que são definidos pela televisão, pelo rádio e pela imprensa escrita (nesta ordem e neste horário).
Uma obviedade: a agenda nacional (que é o que importa e urge na Nação, como se deve expor, como se deve resolver, com que método, com que hierarquia e em que tempo, enfim, a agenda dos principais problemas nacionais) já não é decidida nos círculos exclusivos da classe política (que é aonde se fazia), nem muito menos lá em baixo, na população (que é aonde não tem sido feito e se deveria fazer), mas sim nas direções das grandes empresas de comunicação.
Se antes a imprensa televisiva, radiofônica e escrita estava majoritariamente sujeita aos grilhões de um sistema político autoritário, agora, pelas lutas sociais e pelo próprio mérito do grêmio jornalístico, existe uma relativa liberdade (atacada de tal forma que a do jornalista deveria ser qualificada como uma profissão “de alto risco”) para abordar temas que antes nem dava pra pensar, e para fazer isso com criatividade, engenhosidade, espírito crítico e profundidade (mesmo que não freqüente). Porque temos que saudar o jornalismo comprometido (que existe) que não titubeia em enfrentar o poder ao dar uma notícia, fazer uma reportagem ou elaborar uma crônica.
Contudo, este jornalismo comprometido, ao elevar sua importância e sua autoridade moral, atrai o olhar do poder. Os políticos procuraram cativá-lo com galanteios mais ou menos sofisticados. Mas, à diferença dos políticos, os jornalistas não são bobos e perceberam logo que os políticos não faziam nem idéia do que estava acontecendo na realidade. Houve assim aqueles que se mantiveram e se mantêm diante do poder, e outros que se puseram e se põe no poder. São estes últimos que se autodefinem “porta-vozes da sociedade”.
A “opinião pública” é o disfarce com o qual os meios de comunicação apresentam seus critérios particulares e de grupo como se fossem de toda a população. Paulatinamente, os noticiários e as “mesas dos comentaristas” foram substituindo a democracia (governo do povo, para o povo e pelo povo), incluindo a eleitoral. Em breve, os cargos que dependem de eleição popular serão decididos por chamadas de auditório e não pelos votos (no lugar do bolo, do refrigerante e do gorro ou da camiseta da carreata pré-moderna, se imprimirá 40 vezes a sua ficha para participar de uma visita guiada ao circo de San Lázaro).
Não se trata de um ato perverso, um bom número de jornalistas, colunistas políticos e comentaristas são de gente honesta, com visão crítica e realmente preocupada com os problemas sociais. Por alguma coisa ganham o respeito dos expectadores, ouvintes e leitores. Ma há aqueles que nem são jornalistas, e sua visão é a de um grupo pequeno, em situação privilegiada e que vê o problema de fora... e de cima.
Numa situação na qual o governo não governa, a crescente importância do jornalista o põe a caminhar na estreita linha que separa a ética do cinismo. Diante do espelho, cada um sabe quem é.
O papel transcendente do jornalismo tem sido “seqüestrado” pelos monopólios da mídia. O rating dos meios de comunicação, conseguido por seus jornalistas e não pelos anunciantes, é colocado a serviço do marketing político, sobretudo nos períodos eleitorais (e agora todo o calendário é eleitoral, até mesmo quando não há eleições). Desta forma, a imagem publicitária substitui os princípios e os programas políticos, se transforma no aspecto mais relevante e, não poucas vezes, “puxa” todo o partido político, que se “veste” com a roupa do “mais popular” (o PAN fez isso com Fox, o PRD faz o mesmo com López Obrador, e o PRI...o PRI...bom, vai logo encontrar alguém).
Resumindo: a diferença entre a “pré-modernidade” e a “pós-modernidade” está no fato de que na primeira os políticos tinham quem lhes escrevesse os discursos, e na segunda têm quem lhes faz as inserções publicitárias.
Contudo, o abraço da mídia e da classe política pode ser mortal... para os meios de comunicação. Embriagados pela interlocução privilegiada que têm com o poder político, os jornalistas o tomam como único destinatário e esquecem sua ação social. Não vai demorar o tempo em que os noticiários serão só vistos, ouvidos ou lidos por outros jornalistas (lamento informar-lhes que os políticos não vêem, não lêem e nem escutam as notícias, eles têm um encarregado ou encarregada de lhes fazer um resumo). Como os políticos prescindem dos governados, os meios de comunicação prescindirão do auditório. Tanto uns quanto outros se felicitarão e, vendo-se no espelho do outro, se dirão “Como somos importantes!”.
A diferença entre um meio de comunicação progressista e um fascista está em como falam de eu, mim, me, comigo...
A Marcha contra a Delinqüência, chamada por muitos de “histórica” (mesmo mantendo esta honra só por alguns dias, porque a renúncia de Durazo a mandou, como dizemos nós jornalistas, “para as páginas internas”), provocou uma espécie de debate (na realidade, foi uma intensa troca de adjetivos) sobre o papel dos meios de comunicação.
Depois de ameaçar com a insurreição popular o que considera abertamente injusto, arbitrário e ilegal processo de afastamento contra López Obrador, o PRD e os setores afins se sentiram indignados pela convocação da chamada “Marcha do Silêncio”. E mais ainda, quando a mobilização foi um sucesso no que se refere à participação... da classe acomodada. Tanto tempo cortejando este setor (Giuliani, os “segundos andares”, o Centro Histórico da Cidade do México, o auge urbanístico em Santa Fé, a “Houston” do ocidente do DF) e acontece que o ingrato se mobiliza para protestar pela insegurança.
A marcha acontece e a direita, sempre pronta a capitalizar o que a esquerda abandona, monta nela (sem frutos, como se viu depois). Os meios de comunicação se unem. De fato, a imensa maioria dos participantes se faz presente convocada pela televisão, pelo rádio, pela imprensa escrita. Há meios de comunicação que fazem isso porque entendem que é um tour de force contra López Obrador e querem “domá-lo”, e há outros que fazem isso simplesmente por coerência, e tomam como destinatários os governos federal, estaduais e municipais.
Boa parte dos participantes pertencia aos setores privilegiados da sociedade mexicana (as ruas próximas à Reforma e no Centro Histórico cheias de carros com motoristas e guarda-costas aborrecendo-se na espera, dezenas de ônibus de escolas particulares estacionados, restaurantes de luxo repletos antes, durante e depois da marcha; como alguém me disse: “era um centro comercial, mas tamanho gigante”). Claro que também ouve esta tradição muito mexicana que se chama carreata e “passar a lista” (as grandes lojas de departamentos dos centros comerciais “exortaram” seus empregados a participarem). Mas, quanto às reivindicações, ficou muito longe de ser uma marcha de direita. Não se mobilizaram contra as expropriações de empresas privadas, ou contra os impostos sobre os artigos de luxo, ou contra leis que obriguem as empresas a pagarem salários justos, ou contra o fato de apoiar com o petróleo o governo de Cuba, ou para derrubar um governo “vermelhinho”. Manifestaram-se porque sofrem pela criminalidade. Não era exatamente o populacho, mas, então?, que os assaltem, seqüestrem e que os matem por serem bonitos(as)?
Durante anos o PRD temeu as ruas. Toda manifestação que não fosse de apoio ao seu partido ou a seus dirigentes era vista com receio. A satanização do movimento estudantil da UNAM em 1999 (porque não o dirigia), e anos e anos desmantelando organizações sociais, e acontece que a rua é tomada por esses que se tratou de adular: os que têm e podem.
Por sua vez, os meios de comunicação foram os primeiros a se surpreender pelo sucesso da marcha. Televisa só se atinou a fazer uma mesa redonda com o tema “E o que vem depois da marcha?”, e a pedir aos três porquinhos (Fernández de Cevallos, Jackson e Ortega) que se comprometessem a fazer acordos para resolver o problema da falta de segurança. A estas alturas do partido esperar algo dessa gente! É como acreditar nos óvnis...
Não são poucas as vezes em que a mídia tem entrado em confrontação com o governo da Cidade do México. A divulgação dos vídeos do caso Ahumada e as reportagens sobre o tema da insegurança são alguns exemplos. A “Marcha do Silêncio” serviu para exacerbar os ânimos. Daí a chamar alguns meios de comunicação, sobretudo a Televisa, como “a negra mão do fascismo”, era só um passo...e este foi dado de imediato.
Contudo, uma leitura atenta de alguns meios de comunicação serve para traçar as dimensões: Crônica, o jornal “preferido” de López Obrador, vem insistindo há pelo menos dois mandatos no que agora é o PRI a reivindicar: que não se brigue nos meios de comunicação, mas sim nos tribunais. Reforma, outro jornal muito “apreciado” pela AMLO, tem documentado a corrupção de todo o espectro político, não só do PRD. El Universal mantém um quadro digno de repórteres e comentaristas. La Jornada não abandona seu compromisso popular (que já completa quase 20 anos) e é o meio de comunicação mais consultado pela audiência cibernética. Nos dias após a marcha, Televisa, em seus noticiários, seguiu e abundou nas denúncias de López Obrador contra as vendas do Banamex e do Bancomer. Semanas depois, repórteres da Televisa investigaram o desvio de recursos, originalmente destinados ao combate da AIDS, para a organização direitista Provida, e documentaram a prática de abortos clandestinos em clínicas desta organização que, supostamente, é contra o aborto. E há mais casos do que espaço.
No outro extremo, Televisa fez uma reportagem grosseira e ridícula do casamento da jornalista Letizia com um membro da realeza espanhola (perdão, não lembro do nome, talvez na latrina...), usando meios que não dedicou aos atentados do 11 de março. Ou se fez eco ao conto para boi dormir dos óvnis supostamente avistados pela Força Aérea Mexicana. Além disso, num de seus especiais dedicados aos flanelinhas, encabeçou a moda perigosa de incriminar a pobreza. Aí os flanelinhas, limpadores de pára-brisas e vendedores dos cruzamentos foram apresentados como se a maioria ou todos fossem seqüestradores e assaltantes. Claro que, acusando ter recebido o recado, o senhor Ebrard (que, se não me engano, é chefe de polícia da “Cidade da Esperança”) dedica agora seus esforços a perseguir e penalizar a pobreza. Passa-se então do combate à delinqüência a combater os pobres...e mais uma vez a adular um setor.
Assim não parece nem uma coisa nem outra. Nem a Televisa e os demais meios eletrônicos e impressos representam o avanço do fascismo no México, como denuncia o PRD. Nem tampouco a Televisa e os demais meios eletrônicos e impressos são a “vanguarda da democratização” social e da mídia, como se autodenominam locutores, comentaristas e editores. Da mesma forma, o governo de López Obrador se debate entre o apoio aos que menos têm, com programas sociais e iniciativas culturais elogiáveis, por um lado, e, por outro, o autoritarismo e a perseguição à pobreza com operações policiais cujas imagens remetem às do Iraque ocupado pelas tropas inglesas e norte-americanas.
Não, uns e outros estão se acomodando, se definindo.
Não só em bater insistentemente no fato de que pobreza é sinônimo de delinqüência, é aonde os meios de comunicação e os políticos se encontram. Dia após dia, se sucedem escândalos políticos e financeiros que não têm nenhuma sanção penal, e tudo se reduz a uma condenação moral. Já não se discute se algo foi moralmente mal feito, mas sim se é legal ou não. O sistema jurídico mexicano, junto com todo o Estado, encontra-se mergulhado na lagoa da podridão na qual se avalizam, com leis e juízes, crimes de lesa humanidade. Desaparecimentos forçados e repressão (como as que foram protagonizadas, entre outros, por Echeverría), fraudes (como as da Loteria Nacional), desvios de recursos (como os do PAN para Provida), roubos disfarçados de acordos legislativos (como o perpetrado contra os trabalhadores do Seguro Social) e o que vier a se juntar na programação de hoje, é tudo permitido pelo “império da lei”, mas se cultiva, com irresponsabilidade, o rancor social.
Enquanto ocorre tudo isso, por trás da agenda da mídia avança outra agenda, a da destruição do Estado mexicano...
Uma programação diferente?
Fora desta programação há indivíduos, coletivos, grupos, povoados que entendem que por trás destas suposta “agenda nacional” há outra, a real, a verdadeira, que consiste, grosso modo, na destruição do México enquanto Nação. Eles e elas sabem que o desmantelamento frenético e implacável do Estado nacional, levado adiante por uma classe política sem utilidade e sem vergonha (e acompanhada em não poucos casos por alguns meios de comunicação e por todo o sistema jurídico), levará a um caos e a um pesadelo que nem a programação estelar de terror e suspense poderia igualar.
Como se naufragasse no mar neoliberal, a Nação Mexicana afunda cada vez mais e a cada dia se parece menos com si mesmo e mais com nada. O país cuja história das origens remete a uma ilhota em meio a uma lagoa, se afoga em águas que não são suas.
Mas há mexicanos e mexicanas que resistem. Não sem dificuldades, com os tropeços e aflições do dever, vão construindo pequenos espaços, ilhotas em cima das quais se sonha, se luta, se trabalha. Ilhotas nas quais, amanhã, o México será o México, talvez um pouco melhor, talvez um pouco mais bom, mas o México.
Falaremos de uma dessas ilhotas de resistência, não a melhor nem a única, e de autonomia nas comunidades indígenas zapatistas. Falaremos dos caracóis e das Juntas de Bom Governo, de nossas falhas, erros e do que foi conseguido, sem outra imagem a não ser o olhar capaz de acolher nossa palavra, e sem outro áudio a não ser o que nos for outorgado pelo ouvido e o coração daqueles que, sem estar aqui, estão conosco.
(a continuar...)
Das montanhas do Sudeste Mexicano.
Subcomandante Insurgente Marcos.
México, agosto de 2004, 20 e 10.
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Comunicado divulgado através do La Jornada em 20/08/2004.