<$BlogRSDUrl$>

Textos do Exército Zapatista de Libertação Nacional, do seu Sub[p]Comandante Insurgente Marcos e demais membros do Comité Clandestino Revolucionário Indígena - Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional

28.8.03

Exército Zapatista de Libertação Nacional

México, 04 de agosto de 2003.

Às “sociedades civis”:

À imprensa nacional e internacional:


Comunico a vocês vários assuntos para o que for preciso:

1. A entrada na festa do agonizante Aguascalientes e nascente Caracol de Oventik, nos dias 8, 9 e 10 de agosto é livre. Ou seja, não só não se cobrará nada, mas, alem disso, não é necessária nenhuma credencial especial. Só os jornalistas precisam de uma credencial do meio de comunicação onde trabalham e as “sociedades civis” só uma identificação com fotografia. Aos policiais, olheiros e agentes da “inteligência” (ah!ah!) será permitida a entrada, mas devem se identificar plenamente para que recebam o repúdio do respeitável público.

2. De acordo com a informação da imprensa, a COCOPA supõe que terá uma reunião com o EZLN nestas datas. É falso. Não pensamos em nos reunir com nenhum membro da classe política (nem, obviamente, convidamos ninguém deles).

3. No dia 3 de agosto, ao meio-dia, policiais da Segurança Pública do Estado de Chiapas (30 elementos) hostilizaram os zapatistas que trabalham na reconstrução do Caracol de Morelia, Chiapas.

4. Rádio Insurgente, Voz do EZLN, transmitirá no dia 9 de agosto de 2003, a partir das 15.00 horas (horário da frente de combate do sudeste). Ou seja, a partir das 14.00 horas (de Fox) e a partir das 22.00 UTC (que, para falar a verdade, não sei o que quer dizer, mas assim os ouvintes de outros países se orientam). As transmissões de teste já contaram com a interferência do supremo governo (que, além do mais, põe o grupo Limite para “tampar” o nosso sinal; acredita?). Não seja por isso, transmitiremos do jeito que for e, além do mais, gravaremos o programa em CDs e vamos distribuí-los como se fossem panfletos oferecendo emprego.

5. Os devaneios de Maná nos mantêm distraídos e, inútil dizê-lo, nos deixam i-n-a-m-o-v-í-v-e-i-s.

Valeu. Saúde e pilhas (para o rádio, claro).

Dos estúdios (Ah!) da escorregadia do quadrante (ou seja, Rádio Insurgente),

Subcomandante Insurgente Marcos.

O Sub se enrolando com os cabos (xii! Quer dizer que não gravou nada? Paciência, vai de novo: um – dois – três... já?... o impermeável... pronto? “Ouça Rádio Insurgente, Voz do Exército Zapatista de Libertação Nacional, transmitindo das montanhas do Sudeste Mexicano”... xii!... Outra vez? Mmh... É melhor que suba numa árvore e grite bem forte? – suspiro).
Chiapas: a décima terceira estela.

Sétima e última parte: um pós-escrito.


Está aqui! Voltou! Depois de um tempo infausto em que não nos deleitou com o seu estilo sem igual! Com vocês! O único! O inimitável! O incomensurável! O saudoso! Oooooo..... Póósss-eeessscriiito Recoooorreeente! Sim! Viva! Urra! Bravo! Palmas! (Supõe-se que, nesta altura, o respeitável público explode em aplausos cheios de júbilo).

P. S. QUE TENDE A MÃO E A PALAVRA. É oficial: você está formalmente convidada (o) à celebração da morte dos Aguascalientes, e à festa para inaugurar os caracóis e o início das Juntas de Bom Governo. Será em Oventik, Município Autônomo de San Andrés Sakamchén de los Pobres, Chiapas Zapatista e Rebelde, nos dias 8, 9 e 10 de agosto de 2003. ou seja, como dizemos por aqui, a chegada é no dia 8, a festa o 9 e a volta o 10. Na entrada do Caracol de Oventik há um letreiro que diz “Você está em Território Rebelde Zapatista: aqui o povo manda e o governo obedece” (eu quero colocar um parecido em nossos acampamentos, mas que diga: “aqui o Sup manda e cada um faz o que lhe dá vontade”. Suspiro).

P. S. QUE REVELA UMA INFORMAÇÃO QUALIFICADA. Na festa, segundo revelam nossos serviços de inteligência (que, no fundo, não são tão inteligente porque ainda não consegui encontrar uma meia que perdi outro dia), estarão presentes os Conselhos Autônomos de TODOS os municípios rebeldes zapatistas, o Comitê Clandestino Revolucionário Indígena – Comando Geral do EZLN e alguns milhares das bases de apoio. Haverá poucos discursos e muitas canções (há boatos insistentes de que chegarão grupos musicais zapatistas das diferentes áreas e farão um hiper-mega-magno-super-duper concerto sem outra razão que a alegria de continuarmos vivos e rebeldes. Comparado com este, qualquer concerto tecno será como uma festinha com vasos de doces pra estourar, chapeuzinhos e sacolinhas). Na hipótese improvável de que você decida participar e partilhar esta alegria com os transgressores da lei, faria muito bem a ouvir as recomendações que seguem.

P. S. QUE COLOCA MUITO CREME DE LEITE NOS SEUS PEDAÇOS DE CARNE PARA SERVIR DE IMPERMEÁVEL (pela chuva, claro). Nas terras zapatistas, o solo, além de digno e rebelde, é frio, úmido e cheio de lama. As festas costumam ser tão animadas que a chuva não consegue se conter e quer participar, de forma abundante demais, justo no meio dos bailes e das palavras profundas. Por isso, não seria nada mal se você trouxesse, além de pés ligeiros para a dança, algum guarda-chuva, nylon, plástico, impermeável (ou, no limite, um jornal) para se cobrir por cima e por baixo. Um desses horríveis “sacos de dormir” (ou “sleeping bags”) lhe seria de grande utilidade se tiver a sorte de colocar algo entre você a chuva, e entre você e o chão.

P. S. QUE SE BENZE. Em solos zapatistas, o único telhado garantido é o que o sustentador do céu mantém estendido (O Velho Antonio dixit), e, conforme explicado no pós-escrito anterior, nestes dias e noites chove como se, por aqui abundasse a sede e não a dignidade. Por isso, você deve estar disposto a dormir (Santa Virgem Maria!) com muitas e muitos mais, sob o mesmo teto e numa tal promiscuidade que deixa as orgias romanas na categoria de “festas infantis”. Ou deverá levar uma dessas barracas de acampar (que são muito práticas porque são as primeiras a naufragar na chuva e na lama) para passar os contadíssimos momentos de silêncio e de tranqüilidade.

P. S. Que prepara um bolo “MARCO’S SPECIAL”. Sob os céus zapatudos, o único alimento que abunda e sobra é a esperança. Como, segundo estudos científicos, é necessária uma dieta balanceada para completar a esperança com calorias, carboidratos, vitaminas, hidrocarbonatos e outras coisas parecidas, você faria bem a carregar uma razão adequada de comida enlatada, comida enferrujada, rocamboles, bolachas (se forem “pancrema” serão requisitadas) ou algo desse tipo, porque pode ser que o que você vai encontrar por aqui sejam tortilhas (e talvez nem isso).

P. S. QUE SINTONIZA. Se você tiver, traga seu rádio de ondas curtas (ou “empreste” um, mas não o compre, a menos que seja no camelô ou no pequeno comércio – funcionam melhor do que os dos grandes centros comerciais), porque no dia 9 de agosto, a uma hora que ainda não decidimos, se ouvirá a primeira transmissão intergaláctica da “Rádio Insurgente”. Mesmo que você decida castigar-nos com o açoite do seu desprezo, onde quer que você esteja poderá sintonizar-nos. A banda e a freqüência exata são: banda de 49 metros, nos 5,8 megahertz, em onda curta. Como é de esperar que o supremo [governo] interfira na transmissão, mova o sintonizador pra lá e pra cá e procure até encontrar-nos.

P. S. QUE ANIMA A TORCIDA. No grande evento, haverá também um disputado torneio de basquete. Nele, a vitória premiará a melhor equipe (nota: qualquer time de fora que ouse derrotar o da casa – ou seja, os zapatistas – será feito prisioneiro, obrigado a ouvir todo o programa “Fox Contigo”, e declarado “ilegal” razão pela qual a vitória será anulada). Participe! Apóie sua equipe predileta! (Nota: qualquer demonstração de apoio o simpatia do respeitável público por um time que não seja o da casa – ou seja, os zapatistas – será unanimemente repudiada e a pessoa responsável será detida e enviada à assembléia mais próxima para ser criticada e “olhada”). Haverá equipes de todo o planeta (Estados Unidos, Euzkal Herria, Estado Espanhol, França, Itália, UNAM, UAM, POLI, ENAH, “Sociedades Civis”, “Sem Mãe”, S. A. de (i) R (i) L, de C. V., e outras), incluindo o “dream team” da “Escola Secundária Rebelde Autônoma Zapatista Primeiro de Janeiro de Mil Novecentos e Noventa e Quatro” (quando terminarem de falar o seu nome, o adversário já terá adormecido)! É quase certo que a final será EZLN contra EZLN (para garantir isso, serão distribuídas generosas rações de pozól azedo às outras equipes). Há rumores de que há uma grande disputa entre os grandes consórcios multinacionais de notícias esportivas para conseguir os direitos de transmissão, mas parece que a exclusividade vai ser do Sistema Zapatista de Televisão Intergaláctica. Dizem também que as apostas em Las Vegas estão em 7 vezes 7 contra 0,00001 (a favor dos zapatudos, of course).

Valeu. Saúde e, se não puder vir, não se preocupe, estará igualmente conosco.

(Já não irá continuar).

Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Subcomandante Insurgente Marcos.

México, julho de 2003.
Chiapas: a décima terceira estela

Sexta parte: um bom governo.


Em cada um dos cinco Caracóis, que estão pra nascer em território rebelde, se trabalha em ritmo acelerado para que tudo fique pronto (bom, como me disse um companheiro do Comitê: “vai ficar um pouco pronto, mas não completamente pronto, e sim um pouco bastante”). Com mais entusiasmo do que saber, se constrói, se pintam (ou repintam) as construções, se limpa, se ajeita, se reordena. Um constante martelar-serrar-cavar-espalhar ressoa entre as montanhas do sudeste mexicano, com música de fundo que varia de um lado pra outro. Lá, por exemplo, são “Los Bukis” e “Los Temerários”; em outro canto, “Los Tigres Del Norte” e “El Dueto Castillo”; mais pra lá, “Filiberto Remigio”, “Los Nakos”, “Gabino Palomares”, “Oscar Chávez”; mais pra cá, “Madeiras Rebeldes” (que é um grupo musical zapatista que, supostamente, escala a passos de gigante a “hit parade” local – não averigüei se escala para cima ou para baixo).

E em cada Caracol se distingue perfeitamente uma nova construção, a chamada “Casa da Junta de Bom Governo”. Como dá pra ver, haverá uma Junta de Bom Governo em cada área e esta representa um esforço de organização das comunidades, não só para enfrentar os problemas da autonomia, mas também para construir uma ponte mais direta entre elas e o mundo. De tal forma que:

Para tratar de frear o desequilíbrio no desenvolvimento dos municípios autônomos e das comunidades.

Para mediar os conflitos que podem ocorrer entre municípios autônomos, e entre municípios autônomos e municípios governamentais.

Para atender as denúncias contra os Conselhos Autônomos por violações aos direitos humanos, protestos e inconformidades, investigar sua veracidade, ordenar aos Conselhos Autônomos Rebeldes Zapatistas a correção destes erros e para vigiar seu cumprimento.

Para vigiar a realização de projetos e tarefas comunitárias nos Municípios Autônomos Rebeldes Zapatistas, cuidando para que se cumpram os tempos e as formas acordados pelas comunidades; e para promover o apoio a projetos comunitários nos Municípios Autônomos Rebeldes Zapatistas.

Para vigiar o cumprimento das leis que, de comum acordo com as comunidades, funcionam nos Municípios Rebeldes Zapatistas.

Para atender e guiar a sociedade civil nacional e internacional para visitar comunidades, levar adiante projetos produtivos, instalar acampamentos de paz, realizar pesquisas (atenção: que tragam benefícios às comunidades), e qualquer atividade permitida nas comunidades rebeldes.

Para, de comum acordo com o CCRI-CG do EZLN, promover e aprovar a participação de companheiros e companheiras dos Municípios Autônomos Rebeldes Zapatistas em atividades ou eventos fora das comunidades rebeldes; e para escolher e preparar estes companheiros e companheiras.

Em suma, para cuidar que em território rebelde zapatista quem manda, mande obedecendo, se constituirão, em 9 de agosto de 2003, as chamadas “Juntas de Bom Governo “.

Suas sedes estarão nos Caracóis, haverá uma junta para cada área rebelde e será integrada por 1 ou 2 delegados de cada um dos Conselhos Autônomos desta área.

Continuam sendo funções exclusivas de governo dos Municípios Autônomos Rebeldes Zapatistas: o fazer justiça, a saúde comunitária, a educação, a moradia, a terra, o trabalho, a alimentação, o comércio, a informação e a cultura, o trânsito local.

Em cada área, o Comitê Clandestino Revolucionário Indígena irá vigiar o funcionamento das Juntas de Bom Governo para evitar atos de corrupção, intolerância, arbitrariedades, injustiça e desvio do princípio zapatista de “Mandar Obedecendo”.

Cada Junta de Bom Governo tem um nome escolhido pelos respectivos Conselhos Autônomos:

A Junta de Bom Governo Selva Região de Fronteira (que abrange de Marquês de Comillas à região dos Montes Azuis e todos os municípios da fronteira com a Guatemala até Tapachula), se chama “RUMO À ESPERANÇA”, e incorpora os municípios autônomos de “General Emiliano Zapata”, San Pedro de Michoacán”, Libertad de los Pueblos Mayas”, “Tierra y Libertad”.

A Junta de Bom Governo Tzots Choj (que atinge parte dos territórios onde se encontram os municípios governamentais de Ocosingo, Altamirano, Chanal, Oxchuc, Huixtán, Chilón, Teopisca, Amantenango Del Valle), se chama “CORAÇÃO DO ARCO-IRIS DA ESPERANÇA” (em língua local: “YOT’NA TE XOJOBIL YU’UM TE SMALIYEL”), e agrupa os municípios autônomos de “17 de Novembro”, “Primeiro de Janeiro”, “Ernesto Che Guevara”, “Olga Isabel”, “Lucio Cabañas”, “Miguel Hidalgo”, “Vicente Guerrero”.

A Junta de Bom Governo Selva Tzeltal (que atinge parte dos territórios onde se encontra o município governamental de Ocosingo) se chama “O CAMINHO DO FUTURO” (em língua local: “TE S’BELAL LIXAMBAEL”) e agrupa os municípios autônomos de “Francisco Gómez”, “San Manuel”, “Francisco Villa”, “Ricardo Flores Magón”.

A Junta de Bom Governo Zona Norte de Chiapas (que atinge parte dos territórios onde se encontram os municípios governamentais do norte de Chiapas, de Palenque a Anatán) se chama “NOVA SEMENTE QUE VAI PRODUZIR” (em tzeltal: “TS’UNIBIL TE YAX BAT P’OLUC”; e em chol: “TSI JIBA PAKABAL MICAJEL POLEL”), e agrupa os municípios autônomos de “Vicente Guerrero”, “Do Trabalho”, “A Montanha”, “San José em Rebeldia”, “A Paz”, “Benito Juarez”, “Francisco Villa”.

A Junta de Bom Governo Altos de Chiapas (que abrange parte dos territórios onde se encontram os municípios governamentais de Los Altos de Chiapas e se estende até Chiapa de Corzo, Tuxtla Gutiérrez, Berriozábal Ocozocuautla e Cintalapa) se chama “CORAÇÃO CONCÊNTRICO DOS ZAPATISTAS DIANTE DO MUNDO” (em língua local: “TA OLOL YOON ZAPATISTA TAS TUK’IL SAT YELOB SJUNUL BALUMIL”) e agrupa os municípios autônomos de “San Andrés Sakamchén de los Pobres”, “San Juan de la Libertad”, “San Pedro Polhó”, “Santa Catarina”, Magdalena da Paz”, “16 de Fevereiro” e “San Juan Apóstol Cancuc”.

Entre as primeiras deliberações da Juntas de Bom Governo estão as que seguem:

Um. Não se permitirá que doações e ajudas da sociedade civil nacional e internacional sejam destinadas a alguém em particular ou a uma comunidade ou a um determinado município autônomo. A Junta de Bom Governo, depois de avaliar a situação das comunidades, decidirá onde é mais necessário que se dirija este apoio. A Junta de Bom Governo impõe a todos os projetos o chamado “imposto irmão” que é de 10% do montante total do projeto. Ou seja, se uma comunidade, município ou coletivo recebe uma ajuda econômica para um projeto, deverá entregar 10% à Junta de Bom Governo para que esta o destine a outra comunidade que não recebe ajuda. O objetivo é equilibrar um pouco o desenvolvimento econômico das comunidades em resistência. Com certeza, não se aceitarão sobras, esmolas e nem a imposição de projetos.

Dois. Só se reconhecerão como zapatistas as pessoas, comunidades, cooperativas e sociedades de produção e comercialização que estejam registradas numa Junta de Bom Governo. Assim, se evitará que se façam passar por zapatistas pessoas que não só não o são, mas que, inclusive, são antizapatistas (como é o caso de algumas cooperativas de produção e comercialização de café orgânico). Os excedentes ou as bonificações pela comercialização de produtos de cooperativas e sociedades zapatistas serão entregues às Juntas de Bom Governo para que se apóiem os companheiros e companheiras que não podem comercializar seus produtos ou não recebem nenhum tipo de ajuda.

Três. É comum que pessoas desonestas enganem a sociedade civil nacional e internacional apresentando-se nas cidades como “zapatistas” supostamente enviados em “missão secreta ou especial” para pedir dinheiro para doentes, projetos, viagens ou coisas desse tipo. Às vezes, inclusive, chega-se a oferecer treinamento em supostas, e falsas, “casas de segurança” do EZLN na Cidade do México. No primeiro caso, são enganados intelectuais, artistas, profissionais e não poucos funcionários dos governos locais. No segundo, as vítimas da mentira são jovens estudantes. O EZLN esclarece que não tem nenhuma “casa de segurança” na Cidade do México e não oferece treinamento algum. Estas pessoas más, segundo nossos informes, estão envolvidas com banditismo e o dinheiro que recebem, e que supostamente pedem para as comunidades, é usado em benefício pessoal. O EZLN já começou uma investigação para estabelecer a responsabilidade daqueles que usurpam o seu nome e enganam pessoas boas e honestas. Como é difícil contatar o Comando Geral do EZLN para comprovar se tal pessoa é ou não integrante do EZLN ou base de apoio, e se o que diz está certo ou não, agora bastará colocar-se em contato com uma das Juntas de Bom Governo (a da área da qual provém o “enganador”) e em questão de minutos se dirá se está certo o não, e se é ou não zapatista. Para isso, as Juntas de Bom Governo expedirão certidões e credenciais que, mesmo assim, deverão ser confirmadas.

Estas e outras decisões deverão ser tomadas pelas Juntas de Bom Governo (que se chamam assim, esclareço eu, não porque sejam “boas” por si só, mas sim para diferenciá-las claramente do “mau governo”).

De tal forma, que agora as sociedades civis já sabem com quem têm que se colocar de acordo para projetos, acampamentos de paz, visitas, doações e etceteras. Os defensores dos direitos humanos já sabem a quem devem encaminhar as denúncias que recebem e de quem devem esperar resposta. O exército e a polícia já sabem quem devem atacar (levando só em consideração que nós, ou seja, o EZLN, também vamos nos meter nisso). Os meios de comunicação que dizem o que são pagos para dizer já sabem quem caluniar ou ignorar. Os meios de comunicação honestos já sabem onde podem procurar para solicitar entrevistas ou reportagens nas comunidades. O governo federal e seu “enviado” já sabem o que têm que fazer para não existir. E o poder do Dinheiro já sabe que outra coisa deve temer.

O barulho e o cansaço continuam. Em algum lugar, alguém faz girar o sintonizador do rádio e, de repente, se ouve com nitidez: “Esta é Rádio Insurgente, Voz dos Sem Voz, transmitindo de algum lugar das montanhas do sudeste mexicano”, em seguida, a marimba toca ao ritmo inconfundível de “Já se vê no horizonte”. Os companheiros e companheiras suspendem o seu trabalho por um momento e começam a trocar comentários em língua indígena. Só por um momento. Em seguida, a barulheira do trabalho começa outra vez.

É curioso. De repente me veio que estes homens e mulheres não parecem estar construindo algumas casas. É como se o que levantam em meio a toda essa barulheira fosse um mundo novo. Mas talvez não. Talvez são, de fato, só algumas construções, e tudo não passou do efeito da luz e da sombra que a madrugada estende sobre as comunidades onde se traçam os Caracóis, que me fez pensar que o que se construía era um mundo novo.

Vou para um canto da madrugada e acendo o cachimbo e a dúvida. Então, me ouço claramente dizendo a mim mesmo : “Talvez não... mas talvez sim...”.

(Continuará...)

Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Subcomandante Insurgente Marcos.

México, julho de 2003.

18.8.03

Chiapas: a décima terceira estela.

Quinta parte: uma história.


A história dos municípios autônomos rebeldes zapatistas é relativamente jovem, completou 7 anos e entra nos 8. Apesar de terem sido declarados por ocasião da ruptura do cerco de dezembro de 1994, os municípios autônomos rebeldes zapatistas (os MAREZ) levaram ainda um tempo para concretizar-se.

Hoje, o exercício da autonomia indígena é uma realidade em terras zapatistas, e temos o orgulho de dizer que tem sido conduzido pelas próprias comunidades. Neste processo, o EZLN tem se dedicado unicamente a acompanhar e a intervir quando há conflitos ou desvios. Por isso, é que a voz do EZLN não coincidia com a dos municípios autônomos. Estes expressavam diretamente denúncias, diligências, esclarecimentos, acordos, relações de irmandade (não são poucos os municípios autônomos rebeldes zapatistas que mantêm relações com municípios de outros países, principalmente da Itália). Se agora os autônomos têm pedido que o EZLN cumpra as funções de porta-voz é porque entraram numa etapa superior de organização e, generalizada esta, não cabe a um único município, ou a vários, o dá-lo a conhecer. Por isso, o acordo foi que o EZLN desse a conhecer isso que agora muda.

No período anterior, os problemas das autoridades autônomas podem ser reunidos em dois grupos: os que se referem à sua relação com a sociedade civil nacional e internacional e os que se referem ao seu autogoverno, ou seja, às relações com as comunidades zapatistas e não zapatistas.

Em sua relação com a sociedade civil nacional e internacional, o problema principal é que há um desenvolvimento desequilibrado dos municípios autônomos, das comunidades que se encontram em seu interior e, inclusive, das famílias de zapatistas que vivem aí. Ou seja, os municípios autônomos mais conhecidos (como os que são sedes dos já extintos Aguascalientes) ou mais ao alcance da mão (mais próximos dos centros urbanos ou com acesso pela estrada), recebem mais projetos e mais apoio. O mesmo ocorre com as comunidades. As mais conhecidas e as que se encontram à beira da estrada recebem mais atenção das "sociedades civis".

No caso das famílias zapatistas, acontece que a sociedade civil, quando visita as comunidades, trabalha em projetos ou se instala com o acampamento de paz, costuma construir uma relação especial com uma ou várias famílias da comunidade. Logicamente, com obrigações, presentes ou atenções especiais, estas famílias têm mais vantagens do que as demais, ainda que sejam todas zapatistas. Também não é raro que aqueles que têm uma interlocução com a sociedade civil pelo cargo que ocupam na comunidade, no município autônomo, na região, ou na área, recebam atenções especiais e presentes que muitas vezes dão o que falar no resto da comunidade ou não seguem o critério zapatista de "a cada um de acordo com suas necessidades".

Devo esclarecer que não se trata de uma relação perversa nem do que alguém, com soberba, chamou de "contra-insurreição bem intencionada", mas sim de algo natural nas relações humanas. Contudo, isso pode produzir desequilíbrios na vida comunitária quando não há contrapesos a esta atenção privilegiada.

No que se refere à relação com as comunidades zapatistas, o "mandar obedecendo" foi aplicado sem distinção. As autoridades devem ver que se cumpram os acordos das comunidades, suas decisões devem ser regularmente informadas, e o "peso" do coletivo, junto com o "passa a voz" que funciona em todas as comunidades, se convertem num vigilante difícil de evadir. Ainda assim, há casos de alguém que tem a manha de burlar isso e corromper-se, mas não chega muito longe. É impossível ocultar um enriquecimento ilícito nas comunidades. O responsável é castigado com a obrigação de torná-lo coletivo e de repor à comunidade o que pegou indevidamente.

Quando a autoridade se desvia, se corrompe ou, para usar um termo nosso, "está com malandragem" é removida do cargo e uma nova autoridade a substitui. Nas comunidades zapatistas o cargo de autoridade não tem remuneração alguma (durante o tempo em que a pessoa é autoridade, a comunidade a ajuda na sua manutenção), é concebido como um trabalho em benefício do coletivo e é rotativo. Não poucas vezes é aplicado pelo coletivo para punir a indolência ou a indiferença de algum de seus integrantes, como quando alguém que falta muito nas assembléias comunitárias é castigado com o cargo de agente municipal ou enviado ejidal.

Esta "forma" de autogoverno (que aqui resumo ao extremo) não é uma invenção ou uma contribuição do EZLN. Vem de mais longe e, quando o EZLN nasceu, já estava funcionando há um bom tempo, ainda que só ao nívelde cada comunidade.

É com o crescimento desmedido do EZLN (que, como já expliquei, se deu no final dos anos 80), que esta prática passa do local ao regional. Funcionando com responsáveis locais (isto é, os encarregados da organização em cada comunidade), regionais (um grupo de comunidades) e de área (um grupo de regiões), o EZLN viu que, de forma natural, os que não davam conta dos trabalhos eram substituídos por outros. Ainda que aqui, como se tratava de uma organização político militar, o comando tomava a decisão final.

Com isso, quero dizer que a estrutura militar do EZLN "contaminava" de alguma forma uma tradição de democracia e de autogoverno. O EZLN era, para assim dizer, um dos elementos "antidemocráticos" numa relação de democracia direta comunitária (outro elemento antidemocrático é a Igreja, mas este é assunto para outro escrito).

Quando os municípios autônomos começam a caminhar, o autogoverno não passa só do local ao regional, mas também se desprende (sempre tendencialmente) da "sombra" da estrutura militar. Na designação ou na destituição das autoridades autônomas, o EZLN não intervém em nada, e só tem se limitado a sublinhar que, como o EZLN, por seus princípios, não luta pela tomada do poder, nenhum dos comandantes militares ou membros do Comitê Clandestino Revolucionário Indígena pode ocupar um cargo de autoridade na comunidade ou nos municípios autônomos. Aqueles que decidem participar dos governos autônomos devem renunciar definitivamente ao seu cargo organizativo dentro do EZLN.

Não vou me estender muito sobre o funcionamento dos Conselhos Autônomos, eles têm seu agir próprio ("seu jeito", dizemos nós) como aval, e não são poucas as testemunhas das "sociedades civis" nacionais e internacionais que têm visto eles funcionar e que trabalham diretamente com eles.

Contudo, não quero que fique a impressão de que se trata de algo perfeito e que seja idealizado. O "mandar obedecendo" nos territórios zapatistas é uma tendência, e não está isenta de sobe-e-desce, contradições de desvios, mas é uma tendência dominante. Que isso tem resultado em benefício das comunidades fala o fato de ter conseguido sobreviver em condições de perseguição, hostilidade e pobreza que poucas vezes podem ser encontradas na história do mundo. Não só, os conselhos autônomos têm conseguido levar adiante, com o apoio fundamental das "sociedades civis", um trabalho titânico: construir as condições materiais para a resistência.

Encarregados de governar um território em rebeldia, ou seja,sem apoio institucional algum e sob perseguição e hostilidade, os conselhos autônomos centraram suas baterias em dois aspectos fundamentais: a saúde e a educação.

Na saúde, não se limitaram a construir clínicas e farmácias (sempre apoiados pelas "sociedades civis", não podemos esquecer disso), formaram também agentes de saúde e mantêm campanhas permanentes de higiene comunitária e de prevenção de doenças.

Uma vez, uma destas campanhas esteve muito perto de custar-me o ser criticado na assembléia (não sei se vocês sabem o que é ser criticado numa assembléia, mas, caso não saibam, basta que lhes diga que o inferno deve ser algo parecido) e ser "olhado" pela comunidade (ou seja, as pessoas "olham" para você, mas com um desses olhares que dá calafrios, enfim, uma espécie de purgatório). Acontece que, acho que foi em La Realidad, estava de passagem e pernoitava numa das choças que os companheiros têm para casos como estes. Nesse dia, passou o "comitê de saúde" da comunidade para verificar as latrinas de cada casa (havia o acordo de que as latrinas deviam ser cobertas regularmente com cal ou cinzas para evitar a proliferação das doenças). Obviamente, a nossa latrina não tinha cal e nem cinzas.

Os do "comitê de saúde" me disseram, carinhosamente, "companheiro subcomandante insurgente Marcos, estamos vistoriando as latrinas por acordo da comunidade e sua latrina não tem cal e nem cinzas e então você tem que colocá-las e amanhã voltamos para ver se já foram colocadas". Eu comecei a balbuciar algo sobre a viagem, o cavalo coxo, os comunicados, as movimentações militares, os paramilitares e não lembro mais do que. Os do "comitê de saúde" ouviram pacientemente até que parei de falar e só disseram "é tudo, companheiro subcomandante insurgente Marcos". É óbvio que, no dia seguinte, quando passaram os do "comitê de saúde", a latrina estava com cinzas, cal e areia, menos o cimento, mas isso só porque não o encontrei, do contrário tampava até pra sempre a dita latrina.

Quanto à educação, nas terras em que não havia escolas, e muito menos professores, os Conselhos Autônomos (com o apoio das "sociedades civis", não me cansarei de repeti-lo) construíram escolas, capacitaram promotores de educação e, em alguns casos, até criaram seus próprios conteúdos educativos e pedagógicos. Manuais de alfabetização e livros de texto são preparados pelos "comitês de educação" e por promotores, acompanhados pelas "sociedades civis" que entendem destes assuntos.

Em algumas regiões (mas não em todas, claro) já se conseguiu que as meninas freqüentem a escola, elas que, desde os tempos antigos, eram marginalizadas do acesso ao conhecimento. Mesmo tendo conseguido que as mulheres não sejam vendidas e escolham livremente o seu parceiro, existe ainda em terras zapatistas o que as feministas chamam de "discriminação de gênero". Ainda falta bastante para que a chamada "lei revolucionária das mulheres" seja cumprida.

Continuando com a educação, em alguns lugares, as bases zapatistas têm feito acordos com professores da seção democrática do sindicato do magistério (ou seja, os que não estão com a Gordillo) para que não façam trabalho de contra-insurreição e respeitem os conteúdos recomendados pelos Conselhos Autônomos. Zapatistas que são, estes professores democráticos aceitaram o acordo e o têm cumprido plenamente.

Claro, nem os serviços de saúde, nem os de educação atingem todas as comunidades zapatistas, mas boa parte delas, a maioria, já tem uma forma de conseguir um remédio, cuidar de uma doença e conseguir um veículo para levar alguém à cidade no caso de doença ou acidente graves. A alfabetização e o primário estão só se generalizando, mas uma região já conta com uma secundária autônoma que, nestes dias, "faz a graduação" de uma nova leva de homens e, atenção, mulheres indígenas.

Dias atrás, me mostraram os diplomas e os certificados de estudo da Secundária Rebelde Autônoma Zapatista. Minha modesta opinião é que deveriam fazê-los de chicle porque têm como cabeçário um "EZLN - Exército Zapatista de Libertação Nacional", e, logo em seguida, se lê (em "castelhano" e em tzotzil) "O Sistema Educativo Rebelde Autônomo Zapatista de Libertação Nacional (se refere ao que funciona em Los Altos, porque em outras regiões há outros sistemas educativos) certifica que o (a) aluno (a) fulano (a) cursou satisfatoriamente os três graus da Secundária Autônoma, de acordo com os Planos e Programas Zapatistas da ESRAZ, Escola Secundária Rebelde Autônoma Zapatista 1º de Janeiro", obtendo uma média geral de _____. Razão pela qual o nosso Sistema Educativo reconhece o seu esforço, suas contribuições à luta de resistência e convida-o a partilhar com nossos povos o que o povo lhe deu".E, em seguida, diz "Por uma educação libertadora! Por uma educação científica e popular! Coloco-me a serviço do meu povo". Assim que, em caso de perseguição, o aluno não só não poderá exibi-lo, mas sim terá que comê-lo, por isso é melhor que seja de chicle. Há também o boletim com as várias notas (que aparece como um "reconhecimento") e nele se lêem as matérias (na realidade não são matérias, mas sim "áreas") que são cursadas: Humanismo, Esportes, Artes, Reflexão sobre a Realidade, Ciências Sociais, Ciências Naturais, Reflexão sobre a língua materna, Comunicação, Matemática, Produção e Serviços à comunidade. Só há dois conceitos: "A" ("área aprovada") e "ANA" ("área não-aprovada"). Já sei que as "Anas" que existem no mundo vão se ofender, mas eu não posso fazer nada porque, como costumo dizer, os autônomos são autônomos.

A educação é gratuita e os "comitês de educação" (reitero: como apoio das "sociedades civis") se esforçam para que cada aluno tenha o seu caderno e o seu lápis, sem ter de pagar por ele.

Quanto à saúde, está se fazendo também o esforço para que também seja gratuita. Em algumas clínicas zapatistas já não se cobra aos companheiros nem a consulta, nem o remédio, nem a cirurgia (quando esta se faz necessária e é possível nas nossas condições), e nas demais se cobra o custo do remédio, não a consulta e nem o cuidado médico. Nossas clínicas têm o apoio e a participação direta de especialistas, cirurgiões, médicos e médicas, enfermeiros e enfermeiras da sociedade civil nacional e internacional, bem como de alunos e residentes de medicina e odontologia da UNAM, da UAM e de outros institutos de ensino superior. Não cobram um único centavo e muitas vezes tiram do seu bolso.

Eu sei que mais de um estará pensando que já está parecendo um informe do governo e só falta que eu diga que "o número de pobres foi reduzido" ou algumas "foxeadas" bem ao estilo, mas não, por aqui o número de pobres tem crescido porque o número de zapatistas tem crescido, e uma coisa acompanha a outra.

Por isso, quero reafirmar que tudo isso se dá em condições extremas de pobreza, carência, limitações técnicas e de conhecimentos, além do fato de que o governo faz o possível para bloquear os projetos que vêm de outros países.

Há pouco tempo, algumas pessoas da "sociedade civil" me falaram dos sofrimentos que tiveram para trazer uma geladeira que funciona a energia solar. O projeto consiste em vacinar as crianças, mas a maioria das comunidades não tem energia elétrica ou, quando tem, não tem refrigerador. De tal forma, que a geladeira permitiria guardar as vacinas até que fossem aplicadas naqueles que delas precisam. Bom, acontece que para trazer a dita geladeira era necessário passar por uma infinidade de trâmites burocráticos e, conforme se investigou, só havia uma organização que podia trazer do exterior o que quer que fosse e de forma rápida: a "Fundação Vamos México" de Martha Sahagún de Fox. É óbvio que não se recorreu a esta agência de
propaganda. Foram cumpridos todos os trâmites e, mesmo que demore, a geladeira será instalada e haverá vacinas.

Além da educação e da saúde, os Conselhos Autônomos vêem os problemas das terras, do trabalho e do comércio, onde avançam um pouco. Vêem também questões de moradia e alimentação, mas estamos engatinhando. Onde se está um pouco melhor é na cultura e na informação. Quanto à cultura, se promove, sobretudo, a defesa da língua e das tradições culturais. Na informação, através das várias estações da rádio zapatista, são transmitidos noticiários em língua [indígena]. Também, regularmente e intercalados com todo tipo de músicas, se transmitem mensagens recomendando aos homens o respeito às mulheres, e chamando as mulheres a organizarem-se e exigir o respeito dos seus direitos. E, não é por nada, mas a nossa cobertura da guerra do Iraque foi muito superior à da CNN (o que, olhando bem, não significa muito).

Os Conselhos Autônomos administram também a justiça. Os resultados são irregulares. Em alguns lugares (por exemplo, em San Andrés Sakamchén de los Pobres) até os priistas procuram a autoridade autônoma porque, dizem "eles sim atendem e resolvem o problema". Em outros, como vou explicar agora, há problemas.

Quando a relação dos Conselhos Autônomos com as comunidades zapatistas está cheia de contradições, a relação com as comunidades não-zapatistas tem sido de atrito constante e de enfrentamento.

Nos escritórios das organizações não-governamentais defensoras dos direitos humanos (e no Comando Geral do EZLN) há uma boa quantidade de denúncias contra os zapatistas por supostas violações dos direitos humanos, injustiças e arbitrariedades. No caso das denúncias recebidas pelo Comando, são distribuídas aos Comitês de Área para investigar sua veracidade e, em caso de resposta positiva, resolver o problema juntando as partes para fazer um acordo.

Mas no caso dos organismos defensores dos direitos humanos há dúvidas e confusões porque não está definido a quem devem se dirigir. Ao EZLN ou aos Conselhos Autônomos?

E têm razão (os defensores dos direitos humanos) porque não há clareza sobre este assunto. Também há o problema das diferenças entre o direito positivo e os chamados "usos e costumes" (como são chamados pelos juristas) ou "caminho do bom pensamento" (como nós o chamamos). A solução deste último cabe a quem tem feito da defesa dos direitos humanos a sua vida. Ou, como no caso Digna Ochoa (que para encarregado especial do caso não passou de uma secretária - como se ser uma secretária fosse ser algo menor-, mas que, para os perseguidos políticos foi, e é, uma defensora), sua morte. No que diz respeito a uma definição clara de a quem é necessário se dirigir para dar andamento a estas denúncias, cabe aos zapatistas. E, por estes dias, se conhecerá como irão tratar de resolvê-lo.

Enfim, não são poucos os problemas que a autonomia indígena enfrenta em territórios zapatistas. Para tratar de resolver alguns deles, foram realizadas mudanças importantes em sua estrutura e funcionamento. Mas falarei sobre isso depois, agora só quis dar um breve panorama do onde estamos.

Esta longa explicação se deve ao fato de que a construção desta autonomia indígena não tem sido obra só dos zapatistas. Se a condução do processo foi exclusiva das comunidades, a realização contou com o apoio de muitos e muitas mais.

Se o levante de 1º de janeiro de 1994 foi possível pela cumplicidade conspiradora de dezenas de milhares de indígenas, a construção da autonomia em território rebelde é possível pela cumplicidade de centena de milhares de pessoas de diferentes cores, diferentes nacionalidades, diferentes culturas, diferentes línguas, enfim, de mundos diferentes.

Com seu apoio, elas e elas tornaram possível (no que tem sido bom, porque no ruim é só responsabilidade nossa) não o atendimento às demandas dos indígenas rebeldes zapatistas, mas sim uma leve melhora em suas condições de vida e, sobretudo, que tenhamos sobrevivido e feito crescer mais uma, talvez a menor, das alternativas diante de um mundo que exclui todos os "outros", ou seja, os indígenas, jovens, mulheres, crianças, migrantes, trabalhadores, professores, camponeses, motoristas de táxi, comerciantes, desempregados, homossexuais, lésbicas, transexuais, religiosos comprometidos e honestos, artistas e intelectuais progressistas e ________ (acrescente você o que falta).

Também para todos eles e elas (e aqueles que não são nem eles e nem elas) deveria ter um diploma próprio que dissesse "O Exército Zapatista de Libertação Nacional e as Comunidades Indígenas Rebeldes Zapatistas certificam que ___________ (nome do - ou da - cúmplice em questão) é nosso irmão (ã) e tem, nestas terras e conosco, um coração moreno como casa, a dignidade como alimento, a rebeldia como bandeira e como amanhã um mundo onde caibam muitos mundos. Entregue em solos e céus zapatistas aos tantos dias do mês tal do ano etcétera", e assinam os e as zapatistas que sabem fazê-lo, e quem não souber, pois então, põe sua digital". Eu, num canto, colocaria:

Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Subcomandante Insurgente Marcos.

México, julho de 2003.

(Continuará...)

14.8.03

Chiapas: a décima terceira estela.

Quarta parte: um plano.


Há vários anos, as comunidades indígenas zapatistas estão empenhadas num processo de construção da autonomia. Para nós, a autonomia não é fragmentação do país ou separatismo, mas sim o exercício do direito de governar e governar-nos, conforme estabelece o artigo 39 da Constituição Política dos Estados Unidos Mexicanos.

Desde o início do nosso levante, e bem antes, nós indígenas zapatistas temos insistido que somos mexicanos... mas também somos indígenas. Isso quer dizer que reivindicamos um lugar na Nação Mexicana,
mas sem deixar de ser o que somos. O suposto projeto zapatista de uma "Nação Maia" só existe nos papéis de alguns dos militares mais estúpidos do Exército Federal Mexicano que, sabendo que a guerra que travam contra nós é ilegítima, usam este pobre argumento para convencer suas tropas de que, atacando-nos, defendem o México. Contudo, o alto comando militar e seus serviços de inteligência sabem que o EZLN não aspira a separar-se do México, mas sim que, como diz o seu sobrenome, pretende a "libertação nacional".

Por outro lado, o projeto separatista para o sudeste mexicano está na aplicação da doutrina neoliberal às nossas terras e é comandado pelo governo federal. O agora fracassado "Plano Puebla Panamá" nada mais era a não ser um plano de fragmentar o país, designando ao sudeste mexicano a função de "área reservada" ao dinheiro mundial.

No projeto de fragmentação viabilizado pelo governo (esta é a verdadeira agenda dos partidos políticos e dos três poderes da União, não a que sai na imprensa), o México seria dividido em três: o norte, com seus Estados incorporados na lógica produtiva e comercial da União Americana; o centro, como provedor de consumidores de médio e alto poder aquisitivo; e o sul-sudeste como território a ser conquistado pela apropriação dos recursos naturais que, na destruição globalizada, são cada vez mais importantes: água, ar e terra (madeira, petróleo, urânio...e pessoas).

Sendo esquemáticos e breves, teríamos que o plano é fazer: do norte, uma grande maquiladora; do centro, um gigantesco "mall"; e do sul-sudeste, uma grande fazenda.

Mas uma coisa são os planos no papel e outra é a realidade. A voracidade do grande dinheiro, a corrupção da classe política, a ineficiência da administração pública e a crescente resistência de grupos,
coletivos e comunidades têm impedido que o plano possa ser completamente implementado, e que aonde consegue se instalar apresenta a solidez de uma cenografia de papelão presa com alfinetes.

Agora que, para o Poder, os "suicídios" parecem estar na moda, poderíamos dizer que não há conceito melhor para definir os planos de políticos e empresários para o nosso país: um suicídio.

A globalização do dinheiro precisa da destruição do Estado Nacional. Este, durante muito tempo, tem sido (entre outras coisas) a trincheira na qual se refugiam os capitais nacionais para subsistir e crescer. Mas da trincheira sobram só alguns escombros.

No campo, os pequenos e médios produtores têm sucumbido diante da grande agroindústria. Em seguida, será a vez dos grandes produtores nacionais. Na cidade, os "mall", ou seja, os centros comerciais, não anulam só o pequeno e médio comércio, mas também "tragam" os grandes comércios nacionais. Sem falar da indústria nacional, que já está nas últimas.

Frente a isso, a estratégia do dinheiro nacional tem sido ingênua pra não dizer estúpida. Tem distribuído moedas para um e para outro do espectro dos partidos políticos, garantindo assim (pelo menos, é nisso que acreditam) que não importa a cor que governa, porque estará sempre a serviço da cor do dinheiro. Desta forma, os grandes empresários mexicanos financiam tanto o PRI, o PAN, o PRD, ou qualquer partido político que tenha alguma chance na arena governamental e parlamentar.

Em suas reuniões (como nos tempos da máfia na América do Norte, os casamentos costumam ser um pretexto para que os grandes senhores selem acordos e superem conflitos), os senhores mexicanos do dinheiro se felicitam mutuamente; têm na lista toda a classe política nacional.

Mas lamento dar-lhes uma má notícia: como demonstrado pelo agora calado escândalo dos "Amigos de Fox", o dinheiro forte vem do outro lado. Se quem paga manda, quem paga mais, manda mais. Desta forma, estes políticos impulsionarão as leis de acordo com o cheque que recebem. Cedo ou tarde, os grandes capitais estrangeiros irão se apropriando de tudo, começando por quebrar e absorver os que mais têm. E tudo isso com a proteção de leis "ad hoc". Os políticos são, e há muito tempo, dóceis empregados... de quem paga mais. Os empresários nacionais fazem mal a pensar que o dinheiro estrangeiro se conformará com o setor elétrico e o petróleo. O novo poder no mundo quer tudo. Desta forma, o dinheiro nacional ficará só na saudade e, se tiver sorte, com algum cargo menor nas direções.

Em sua cegueira histórica, o agonizante capital nacional vê com terror qualquer forma de organização social. As casas dos mexicanos ricos são protegidas com complexos sistemas de segurança. Temem que a mão que lhe tira o que têm venha de baixo. Ao fazer uso do seu direito à esquizofrenia, os mexicanos ricos não delatam só a origem real de sua abundância, mas também revelam sua visão curta. Serão despojados sim, mas não pela improvável fúria popular, e sim por uma cobiça maior do que a deles: a daqueles que são ricos de onde é a riqueza. Não é assaltando as grandes mansões e de madrugada que a desgraça entrará, mas sim pela porta principal e em horário comercial. O ladrão não tem o físico do despossuído, mas sim o
do próspero banqueiro.

Quem despojará de vez os Slim, os Zambrano, os Romo, os Salinas Pliego, os Azcárraga, os Salinas de Gortari e os demais sobrenomes do reduzido universo dos ricos mexicanos, não fala tzeltal, tzotzil, chol ou
tojolabal, e nem tem pele morena. E menos ainda fala espanhol. Fala inglês, tem a pele cor verde-dólar, estudou em universidades estrangeiras e é um ladrão de hábitos refinados.

Por isso, de nada lhes servirão os exércitos e as polícias. Estes se preparam e ficam entrincheirados para combaterem contra forças rebeldes, mas seu maior inimigo, o que os aniquilará por completo, professa
a mesma ideologia: o capitalismo selvagem.

Por sua vez, a classe política tradicional já começou a ser desalojada. Se o Estado é visto como uma empresa, é melhor que sejam os gerentes a administrá-lo, não os políticos. E na neo-empresa "estado-nacional.com" a arte da política não serve mais.

Os políticos de antigamente já se deram conta disso e tendem a esconder-se em suas respectivas trincheiras regionais ou locais. Mas o furacão neoliberal irá buscá-los também aí.

Enquanto isso, o capital nacional continuará em seus fartos banquetes. E talvez nunca vai perceber que um de seus comensais será o coveiro.

Por isso, em vão esperam aqueles que suspiram para que a defesa do Estado Nacional venha dos empresários nacionais, dos políticos ou das "instituições da República". Uns, outros e outras estão embriagados pelo holograma do poder nacional e não se dão conta de que logo serão tirados da mansão que agora possuem.

Em algumas ocasiões, nós zapatistas temos nos referido ao chamado "Plano Puebla Panamá" como a algo já extinto. Isso tem sido assim por várias razões:

Uma é que o mencionado plano já foi minado e a simples tentativa de implementá-lo não fará outra coisa a não ser acirrar as revoltas sociais.

Outra é que o plano pretende que aceitemos que no norte e no centro do país as coisas já estão decididas e ninguém se opõe. Isso é falso. Os rumos da resistência e da rebeldia cruzam todo o território
nacional e afloram também aí onde a modernidade parece ter triunfado totalmente.

Outra ainda é que, pelo menos nas montanhas do sudeste mexicano, não se permitirá a sua implementação por nenhum motivo.

Para nós não é um inconveniente que Derbez e Taylor continuem iludindo empresários com o mencionado plano, e que vários funcionários cobrem honorários por trabalharem em seu cadáver. Fizemos nossa parte em avisar e que cada um faça o que quiser.

O principal plano do governo não é o "Plano Puebla Panamá". Este serve só para entreter uma parte da burocracia estatal e para que os empresários nacionais comunguem com a roda de moinho de que, agora sim, o governo fará algo para melhorar a economia.

Em vez disso, o plano principal do casal presidencial consiste em algo completamente diferente do "PPP": desmantelar todas as já frágeis defesas da economia nacional, entregar-se totalmente à desordem globalizada e atenuar um pouco, com sermões e esmolas, os impactos brutais de uma guerra mundial que já devastou várias nações.

Se para Carlos Salinas de Gortari o projeto do mandato foi o "Pronasol" (lembrem que até começaria a se formar o "partido solidariedade"), para o foxismo é a "Fundação Vamos México", dirigido por Martha Sahagún de Fox. O "Pronasol" nada mais era a não ser a esmola institucionalizada. "Vamos México" tem, além disso, um forte cheiro de prostíbulo rançoso.

Os planos do governo costumam ser complexos e retumbantes, mas a única coisa a ficar escondida por tanto palavrório é o alto salário dos seus funcionários. Estes planos servem só para ter secretarias, emitir
comunicados de imprensa e dar a impressão de que está se fazendo algo pelas pessoas.

Os que mandam mandando esquecem que a virtude de um bom plano é que deve ser simples e sincero.

De tal forma que, diante do "Plano Puebla Panamá" em particular, e contra todo plano global de fragmentação da nação mexicana em geral, o Exército Zapatista de Libertação Nacional lança agora o... "Plano
La Realidad-Tijuana" ("RealiTi", pela sigla).

O Plano consiste em amarrar todas as resistências em nosso país e, com elas, reconstruir a nação mexicana a partir de baixo. Em todos os Estados da federação existem homens, mulheres, crianças e anciãos que não se rendem e que, ainda que não se fale deles, lutam por democracia, liberdade e justiça. Nosso plano consiste em falar com eles e ouvi-los.

O Plano "La Realidad-Tijuana" não tem orçamento algum, nem funcionários e nem secretarias. Conta só com as pessoas que, no seu lugar, com o seu tempo e a seu modo, resistem à espoliação, e lembra que a pátria não é uma empresa com sucursais, mas sim uma história comum. E a história não é só passado. É também, e sobretudo, futuro.

Como a música do Cavalo Branco, mas em Sombra-Luz e saindo um domingo de La Realidad (e não de Guadalajara), a palavra e o ouvido zapatista atravessarão todo o território nacional, de Cancun a Tapachula, até Matamoros e Paz, chegará a Tijuana à luz do dia, passará por Rosarito e não vai parar até ver Ensenada.

E não só isso. Como o nosso modesto anseio é contribuir com alguma coisa para a construção de um mundo onde caibam muitos mundos, temos também um plano para os cinco continentes.

Para o norte do continente Americano temos o "Plano Morelia-Polo Norte" que inclui os Estados Unidos e o Canadá.

Para a América Central, o Caribe e a América do Sul, temos o "Plano La Garrucha-Terra do Fogo".

Para a Europa e a África, temos o "Plano Oventik-Moscou" (caminhando para oriente e passa por Cancun em setembro próximo).

Para Ásia e Oceania, temos o "Plano Roberto Barrios-Nova Deli" (caminhando para o ocidente).

Para os cinco continentes o plano é o mesmo: lutar contra o neoliberalismo e pela humanidade.

E temos também um plano para as galáxias, mas ainda não sabemos que nome vamos dar a ele ("Terra-Alpha Centauro"?). Nosso plano intergaláctico é tão simples quanto os anteriores e consiste, grosso modo, em fazer com que não seja uma vergonha chamar-se "ser humano".

Inútil dizer que nossos planos têm várias vantagens: não sãodispendiosos, não tem diretor algum e se realizam sem cortar fitas, sem cerimônias cansativas, sem estátuas e sem que o conjunto musical reprima
sua vontade de tocar, agora a ritmo de cumbia e enquanto o respeitável público solta o refrão, esse que diz "já se vê o horizonte...

Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Subcomandante Insurgente Marcos.

Julho de 2003.

Chiapas, México, Continente Americano, Planeta Terra. Sistema solar, Galáxia...

Galáxia... como se chama a nossa galáxia?

P.S. Por falar em planos perversos, neste 25 de julho se completam 9 anos do atentado de que foi vítima a comitiva do então candidato a governador de Chiapas Amado Avendaño Figueroa. Nele perderam a vida os lutadores sociais Agustín Rubio, Ernesto Fonseca e Rigoberto Maurício. Ainda não foi feita justiça. Não sei vocês, mas nós não esquecemos.
Chiapas: a décima terceira estela

Terceira parte: um nome.


Chove. Sempre chove em julho, o sétimo mês do ano. Estou tremendo de frio junto ao fogão, dando voltas sobre mim mesmo, como se fosse um frango no espeto, para ver se assim me seco um pouco. Acontece que a reunião com os comitês terminou muito tarde, de madrugada, e nós estamos acampados a uma boa distância do lugar da reunião. Não chovia quando saímos, mas, como se estivesse nos esperando, desabou uma chuva torrencial, justo quando estávamos na metade do caminho, ou seja, quando continuar ou
voltar era indiferente. Os insurgentes foram às suas respectivas choças para trocar o uniforme molhado. Eu não, e não por ser valente, mas sim por bobeira, porque acontece que, procurando reduzir o peso da mochila, não coloquei uma outra muda de roupa. De tal forma que estou aqui, que nem "frango à moda de Sinaloa". Além disso, inutilmente, porque, por alguma razão que não consigo compreender, o meu gorro parece uma esponja que absorve água quando chove e se espreme sozinho debaixo de um telhado. O
caso é que, dentro da choça onde está o fogão, tenho minha chuva pessoal.
Estes absurdos não me maravilham, afinal estamos em terras zapatistas, e aqui o absurdo é tão freqüente como a chuva, sobretudo no sétimo mês do ano. Agora, acabei de colocar mais lenha no fogão, e não no sentido figurado, e as chamas ameaçam queimar o telhado. "Não há mal que não possa ficar pior", digo a mim mesmo lembrando de um dos refrões de Durito, e é melhor que eu saia.

Lá fora parou de chover, mas debaixo do meu gorro há um dilúvio. Estou tratando de acender o cachimbo com ele virado pra baixo quando chega o major Rolando. Ele fica me olhando. Olha para o céu (que a
esta altura já está completamente sereno e com uma lua que parece, não duvidem, um sol da meia-noite). Volta a olhar para mim. Eu entendo seu desconcerto e digo: "É o gorro". Rolando diz "Mmh", que significa algo
assim como "Ah". Enquanto isso, já chegaram mais insurgentes e insurgentas e, obviamente, um violão (este sim, bem sequinho), e começam a cantar. Com Rolando e um atendente, em dueto, iniciamos "La Chancla" diante de um público desconcertado, porque aqui o "Hit Parade" é pelos corridos, as úsicas populares e do norte.

Diante da repetição do meu fracassado lançamento como cantor, e retirei num canto e segui o sábio conselho de Monarca que, como Ronaldo, icou me olhando, viu o céu, voltou a me olhar e só disse: "Tira o teu
gorro, Sup". Tirei-o e, obviamente, parou esta chuva privatizada. Monarca foi pra onde estavam os demais. Disse ao capitão José Luis (que me escolta) que fosse descansar, que já não ia acontecer nada. O capitão foi embora, mas não para descansar, e sim para a cantoria.

Desta forma, fiquei sozinho. Ainda tremendo, mas já sem a chuva sobre mim. Voltei a tratar de acender o cachimbo, agora sim com ele virado para cima, mas descobri que o fósforo havia se molhado e não soltava nem uma faísca. Murmurei: "Que falta de sorte, já não acendo nem o cachimbo, com certeza meu "sex appeal" vai pro buraco". Estava procurando nos bolsos das calças (que não são poucos) não um exemplar de bolso do "Kamasutra", mas sim um fósforo seco, quando uma chama se acendeu bem perto de mim.

Por trás da luz reconheci o rosto do Velho Antonio, aproximei o cachimbo ao fósforo aceso e, enquanto estava dando as primeiras tragadas, disse ao velho Antonio: "Faz frio".

"Faz", respondeu ele, e com outro fósforo acendeu seu cigarro feito com a maquininha. À luz do fósforo, o Velho Antonio ficou me olhando, em seguida olhou pro céu, depois outra vez pra mim, mas ele não disse nada. Eu tampouco, certo de que o Velho Antonio já está acostumado, como eu, aos absurdos que povoam as montanhas do sudeste mexicano. Um vento repentino apagou a chama e ficamos só com a luz de uma lua parecida com uma grande vela desgastada pelo uso e o fumo riscando a escuridão. Sentamos num tronco de uma árvore caída. Creio que ficamos em silêncio por um instante, não lembro bem, mas o caso é que, quase sem perceber, o Velho Antonio já estava contando...

A HISTÓRIA DO SUSTENTADOR DO CÉU.

Segundo nossos ancestrais, é necessário sustentar o céu para que não caia. Ou seja, não é que o céu está firme, mas sim, de vez em quando fica fraco e quase desmaia e se deixa cair como as folhas caem das
árvores, e então acontecem verdadeiras calamidades porque o mal chega ao milharal, a chuva o quebra todo, o sol castiga o solo e quem manda é a guerra, quem vence é a mentira, quem caminha é a morte e quem pensa é a dor.

Disseram nossos ancestrais que isso acontece porque os deuses que fizeram o mundo, os primeiros, se empenharam tanto em fazer o mundo que, depois de terminá-lo, não tinham muita força para fazer o céu, ou seja, o telhado de nossa casa e o colocaram assim do jeito que deu, e então o céu foi colocado sobre a terra como um desses telhados de plástico. Então o céu não está bem firme, mas, às vezes, parece que afrouxa. E é necessário saber que, quando isso acontece, se desorganizam os ventos e as águas, o fogo se inquieta e a terra quer se levantar e caminhar sem encontrar onde ficar sossegada.

Por isso, os que chegaram antes de nós disseram que, pintados de cores diferentes, quatro deuses voltaram ao mundo e, tornando-se gigantes, se colocaram nos quatro cantos do mundo para prendê-lo ao céu para que não caísse, ficasse quieto e bem plano, para que o sol, a lua, as estrelas e os sonhos caminhassem por ele sem sofrimento.

Mas aqueles que deram os primeiros passos por estas terras contam também que, às vezes, um ou mais dos pilares, os sustentadores do céu, é como se começasse a sonhar, a dormir ou a se distrair com uma nuvem, então o seu lado do telhado do mundo, ou seja, o céu, não fica bem esticado, e então o céu, ou seja, o telhado do mundo, é como se afrouxasse e é como se quisesse cair sobre a terra, e já não fica plano o caminho do sol, da lua e das estrelas.

É isso que aconteceu desde o início, por isso os primeiros deuses, os que deram origem ao mundo, deram uma tarefa a um dos sustentadores do céu e ele deve ficar de prontidão para ler o céu, ver quando começa a afrouxar , então este sustentador deve falar aos demais sustentadores para que acordem, voltem a esticar o seu lado e as coisas se acomodem outra vez.

E este sustentador nunca dorme, deve sempre estar em alerta e de prontidão para acordar os demais quando o mal cai sobre a terra. E os mais antigos no passo e na palavra dizem que este sustentador do céu leva um caracol pendurado no peito e com ele ouve os ruídos e os silêncios do mundo para ver se está tudo certo, e com o caracol chama os outros sustentadores para que não durmam ou para que acordem.

E dizem aqueles que foram os primeiros que, para não adormecer, este sustentador do céu vá e vem pra dentro e pra fora do seu coração, pelos caminhos que leva no peito, e dizem aqueles mestres mais antigos que este sustentador ensinou aos homens e às mulheres a palavra e a sua escrita porque, dizem que enquanto a palavra caminha pelo mundo é possível que o mal se aquiete e no mundo esteja tudo certo, assim dizem.

Por isso, a palavra do que não dorme, do que está de plantão contra o mal e suas maldades, não caminha direto de um lado pra outro, mas sim anda rumo a si mesmo, seguindo as linhas do coração, e para fora, seguindo as linhas da razão, e dizem os sábios de antes que o coração dos homens e das mulheres tem a forma de um caracol e aqueles que têm bom coração e seu pensamento andam de um lado pra outro, acordando os deuses e os homens para que fiquem de plantão para que no mundo esteja tudo certo. Por isso, quem vela quando os demais dormem usa o seu caracol, e o usa para muitas coisas, mas, sobretudo, para não esquecer".

Com estas últimas palavras, o Velho Antonio pega uma varinha e desenha algo na terra. O Velho Antonio vá embora e eu também vou. No oriente o sol se aproxima do horizonte, como quem apenas se aproxima, como para checar se quem vela não adormeceu e se há alguém de plantão para que o mundo volte a estar certo.

Voltei ao lugar na hora do pozól, quando o sol já havia secado a terra e o meu gorro. Ao lado do tronco caído, sobre a terra, vi o desenho que o Velho Antonio havia feito. Era uma espiral de traço firme, era um caracol.

O sol estava na metade do seu caminho quando voltei à reunião dos comitês. Decidida a morte dos Aguascalientes na madrugada anterior, se decidia agora o nascimento dos Caracóis com outras funções, além das que tinham os já agonizantes Aguascalientes.

Desta forma, os Caracóis serão como portas para entrar nas comunidades e para que as comunidades saiam; como janelas para que nos vejamos dentro e para que vejamos fora; como alto-falante para levar pra longe a nossa palavra e para ouvir a de quem está longe. Mas, sobretudo, para lembrar-nos que devemos velar e ficar de prontidão diante da otalidade dos mundos que povoam o mundo.

Os comitês de cada região têm se reunido para colocar um nome a seu respectivo Caracol. Serão horas de propostas, discussões sobre traduções, risadas, aborrecimentos e votações. Sei que isso vai demorar, por isso vou me retirar e peço que me avisem quando tiverem chegado ao acordo.

Já no quartel, conversamos e, de sobremesa, o Monarca diz que encontrou uma poça "bem legal" para tomar banha e não sei o que mais. O caso é que Ronaldo, que não toma banho nem em defesa de si mesmo, se entusiasma e diz "Vamos".

Eu escuto com ceticismo (não é a primeira vez que Monarca sai com uma das suas), mas, seja como for, temos que esperar que os comitês entrem em acordo, de tal forma que eu também digo "Vamos". José Luis fica para alcançar-nos mais tarde porque não comeu, assim nós três saímos antes, ou seja, Rolando Monarca e eu a passos rápidos. Atravessamos um potreiro e nada de chegar. Cruzamos um milharal e nada de chegar. Disse a Rolando: "Acha que vamos chegar quando a guerra já acabou". Monarca retruca dizendo
que "É logo aí".

Afinal, chegamos. A poça está num lugar pouco fundo do rio pelo qual passa o gado para atravessá-lo e, de conseqüência, está cheia de lodo e rodeada de bosta de vacas e de cavalos. Rolando e eu protestamos juntos. Monarca se defende: "Ontem não estava assim". Eu digo: "Além do mais já faz frio, acho que não vou tomar banho". Rolando, que perdeu o entusiasmo pelo caminho, lembra que a sujeira, como diz Piporro, também protege contra as balas, e se junta ao "Acho que eu também não". Então, Monarca solta um
discurso sobre o dever e não sei que mais e diz que "não importam as privações e os sacrifícios". Eu lhe digo que não sei o que tem a ver o dever com o seu diabo de poça e então ele dá uma patada porque nos diz "Ah,
então, se mandam".

Não o tivesse dito. Rolando range os dentes como um javali nervoso enquanto tira a roupa, e eu mordo o cachimbo e me dispo até revelar totalmente a "outra meia filiação". Mergulhamos na água mais por orgulho do que por vontade. Tomamos banho, mas o lodo nos deixou o cabelo de um jeito que daríamos inveja ao punk mais radical. José Luis chegou em seguida e disse "a água está bem fodida". Rolando e eu lhe dizemos, em estéreo, "Ah, então você se manda". De tal forma que também José Luiz entra na poça cheia
de lodo. Ao sair nos damos conta de que ninguém trouxe nada para se secar. Rolando disse "Pois, vamos nos secar com o vento", de tal forma que só colocamos as botas e amarramos os revólveres na cintura, e aí voltamos, completamente pelados, com nossas misérias ao ar, secando-nos com o sol.

De repente, José Luis, que marcha na vanguarda, dá o alerta dizendo "vem gente". Colocamos os passamontanhas e seguimos adiante. Era um grupo de companheiras que ia lavar roupas no rio. Obviamente riram até cansar e fizeram comentários. Perguntei a Monarca se ouviu o que diziam e me disse que disseram "Aí vai o Sup". Mmh... eu digo que me reconheceram pelo cachimbo, porque eu não dei razão para que me reconheçam pela "outra" meia filiação.

Antes de chegar ao quartel nos vestimos, mesmo que ainda molhados, mas tampouco se tratava de inquietar as insurgentas. Avisaram-nos, então, de que os comitês haviam terminado. Cada Caracol já
tinha o seu nome:

O Caracol de La Realidad, de zapatistas tojolabales, tzeltales e mames, se chamará "MÃE DOS CARACÓIS DO MAR DE NOSSOS SONHOS", ou seja "S-NAN XOCH BAJ PAMAN JÁ TEZ WAYCHIMEL KU'UNTIC ".

O Caracol de Morelia, de zapatistas tzeltales, tzotziles e tojolabales, se chamará "REDEMOINHO DAS NOSSAS PALAVRAS", ou seja, "MUC'UL PUY ZUTU'IK JU'UM JC'OPTIC".

O Caracol de La Garrucha, de zapatistas tzeltales, se chamará "RESISTÊNCIA PARA UM NOVO AMANHECER", ou seja, "TE PUY TAS MALIYEL YAS PAS YACH'IL SACÁL QUINAL".

O Caracol de Roberto Barrios, de zapatistas choles, zoques e tzeltales, se chamará "O CARACOL QUE FALA PARA TODOS", ou seja, "TE PUY YAX SCO'PJ YU'UM PISILTIK" (em tzeltal) e "PUY MUITIT'NA CHA'NA TI LAK PEJTEL" (em chol).

O Caracol de Oventik, de tzotziles e tzeltales, se chamará "RESISTÊNCIA E REBELDIA PELA HUMANIDADE", ou seja, "TA TZIKEL VOCOLIL XCHIUC JTOYBAILTIC SVENTA SLEKILAL SJUNUL BALUMIL".

Esta tarde não choveu e o sol pôde chegar sem problemas, caminhando por um céu bem plano, até a casa que tem por trás da montanha. Então, a lua saiu e, ainda que pareça incrível, a madrugada aqueceu as
montanhas do sudeste mexicano.

(Continuará...)

Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Subcomandante Insurgente Marcos.

México, julho e 2003.

9.8.03

Chiapas: a décima terceira estela.

Segunda Parte: uma morte.


Há alguns dias, o Exército Zapatista de Libertação Nacional decidiu a morte dos chamados Aguascalientes de La Realidad, Oventik, La Garrucha, Morelia e Roberto Barrios. Todos eles localizados em território rebelde. A decisão de fazer desaparecer os Aguascalientes foi tomada depois de um longo processo de reflexão...
No dia 8 de agosto de 1994, na sessão da Convenção Nacional Democrática celebrada em Guadalupe Tepeyac, o Comandante Tacho, em nome do Comitê Clandestino Revolucionário Indígena - Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional, inaugurou diante de cerca de 6 mil pessoas procedentes de várias partes do México e do mundo, o chamado Aguascalientes e o entregou à sociedade civil nacional e internacional.

Muitos não conheceram este primeiro Aguascalientes, seja porque não puderam ir, seja porque naquele ano eram muito jovens (se você tem agora 24 anos, ou seja, entrou no 25º, naquela época você tinha 14 anos, ou seja, estava entrando nos seus 15), mas era um navio formidável. Encalhado nas encostas de uma montanha, suas brancas e gigantescas velas aspiravam percorrer os sete mares. Sobre a ponte ondulava, feroz e desafiadora, a bandeira com o caveira e as tíbias cruzadas. Duas gigantescas bandeiras nacionais se abriam aos seus lados, como asas. Tinha biblioteca, enfermaria, sanitários, chuveiros, música ambiente (que alternava obsessivamente, a do "tapete colorido" e "cartas marcadas") e, segundo contam, até uma área para atentados. O traçado das construções se assemelhava, conforme tenho relatado alguma vez, a um gigantesco caracol graças ao que chamávamos de "casa torta". A "casa torta" não estava torta, tinha um declive que, a primeira vista, parecia um erro arquitetônico, mas que, do alto, permitia apreciar a espiral formada pelas construções. A tripulação do primeiro Aguascalientes era integrada por indivíduos e "individuas" sem rosto, evidentes transgressores das leis marítimas e terrestres, e o seu capitão era o mais enfeitado pirata que tenha navegado pelos sete mares: venda no buraco do olho direito, barba preta com centelhas prateadas, nariz pronunciado, gancho numa mão e espada na outra, perna de carne e perna de pau, revolver no cinto e cachimbo na boca.

O processo para chegar à construção deste que foi o primeiro Aguascalientes foi acidentado... e doloroso. E não me refiro à construção física (que foi realizada em tempo record e sem "spots" televisivos), mas sim à construção conceitual. Explico:

Nós, depois de nos termos preparado por 10 anos para matar e morrer, para atirar e usar armas de todo tipo, fabricar explosivos, executar manobras militares estratégicas e táticas, enfim, para fazer a guerra, após os primeiros dias de combate, havíamos nos visto invadidos por um autêntico exército, primeiro de jornalistas, mas depois de homens e mulheres das mais diversas procedências sociais, culturais e nacionais.

Foi depois daqueles "diálogos da Catedral", em fevereiro-março de 1994. Os jornalistas continuaram aparecendo de forma intermitente, mas isso que nós chamamos de "a sociedade civil", para diferenciá-la da classe política e para não enquadrá-la em classes sociais, foi sempre constante.

Nós estávamos aprendendo e, imagino, esta sociedade civil, também. Nós aprendíamos a ouvir e a falar, do mesmo modo, imagino, que a sociedade civil. Também imagino que a aprendizagem foi menos árdua para nós. Afinal de contas esta havia sido a origem fundamental do EZLN: um grupo de "iluminados" que chega da cidade para "libertar" os explorados e que se depara com o fato de que, mais que "iluminados", confrontados com a realidade das comunidades indígenas, parecíamos focos fundidos. Quanto tempo demoramos em dar-nos conta de que tínhamos que aprender a ouvir e, depois, a falar? Não tenho certeza, já passaram não poucas luas, mas calculo uns dois anos pelo menos. Ou seja, o que em 1984 era uma guerrilha revolucionária de tipo clássico (levante armado das massas, tomada do poder, instauração do socialismo a partir de cima, muitas estátuas e nomes de heróis e mártires em qualquer lugar, purgantes, etcetera, enfim, um mundo perfeito) por volta de 1986 já era um grupo armado, esmagadoramente indígena, ouvindo com atenção e balbuciando apenas suas primeiras palavras com um novo professor: os povos indígenas.

Acho que já relatei antes, e várias vezes, esta parte do processo de formação (ou "re-fundação") do EZLN. Mas se o repito agora não é para aborrecê-los com a saudade, mas sim para tratar de explicar como se chegou ao primeiro Aguascalientes e, depois, à sua proliferação em terras zapatistas, ou seja, rebeldes.

Com isso, quero dizer que o principal ato de fundação do EZLN foi aprender a ouvir e a falar. Creio que, então, aprendemos bem e tivemos êxito. Com a nova ferramenta que construímos com a palavra aprendida, o EZLN se transformou logo numa organização não só de milhares de combatentes, mas sim claramente "fundida" com as comunidades indígenas.

Para dizê-lo de outra forma, deixamos de ser "estrangeiros" e nos tornamos parte deste canto esquecido pelo país e pelo mundo: as montanhas do sudeste mexicano.

Chegou um momento, não poderia definir propriamente quando, em que o EZLN já não estava de um lado e as comunidades de outro, mas sim todos éramos simplesmente zapatistas. Ao lembrar deste período, estou sendo necessariamente esquemático. Espero ter outra ocasião e outro meio para detalhar este processo que, em sua forma nua e crua, não esteve isento de contradições, retrocessos e recaídas.

O caso é que estávamos assim, ou seja, ainda aprendendo (porque, creio, nunca se acaba de aprender), quando o agora "neo-aparecido", Carlos Salinas de Gortari (então presidente do México graças a uma fraude eleitoral fora do comum), teve a "brilhante" idéia de fazer as reformas que acabavam com o direito dos camponeses a terra.

O impacto nas comunidades que já eram zapatistas foi, pra dizer pouco, brutal. Para nós (repare que já não faço distinção entre as comunidades e o EZLN) a terra não é uma mercadoria, mas tem sim conotações culturais, religiosas e históricas que não vêm ao caso explicar aqui. De tal forma que, logo, nossas fileiras regulares tiveram um crescimento geométrico.

E não só isso, a miséria também aumentou e, com ela, a morte, sobretudo de crianças menores de 5 anos. Em função do meu cargo, me cabia checar por rádio centenas de povoados e não havia dia em que alguém não relatasse a morte de um menino, de uma menina, de uma mãe. Como se fosse uma guerra. Depois, entendemos que era, de fato, uma guerra. O modelo neoliberal que Carlos Salinas de Gortari comandou com cinismo e desenfado era para nós uma autêntica guerra de extermínio, um etnocídio, já que eram povos indígenas inteiros que estavam sendo liquidados. Por isso, nós sabemos do que falamos quando falamos da "bomba neoliberal".

Imagino (deve haver estudiosos sérios por aí que contam com dados e análises precisas) que isso ocorria em todas as comunidades indígenas do México. Mas a diferença estava no fato de que nós estávamos armados e treinados para uma guerra. Num poema, Mario Benedetti diz que nem sempre se faz o que se quer, que nem sempre se pode, mas há o direito de não fazer o que não se quer. E, neste caso, não queríamos morrer... ou, melhor, não queríamos morrer assim.

Desde antes, numa ocasião, falei da importância que a memória tem para nós. E, de conseqüência, a morte pelo esquecimento era (e é) para nós a pior das mortes. Eu sei que vai soar apocalíptico, e que mais de um vai procurar algum traço de martírio no que digo, mas, para deixar isso claro, nos deparamos com uma escolha, mas não entre a vida e a morte, mas sim entre um tipo de morte e outro. A decisão, coletiva e tomada após consultar cada um das então dezenas de milhares de zapatistas, já faz parte da história e deu origem a esta faísca que foi a madrugada de primeiro de janeiro de 1994.

Mmmmh. Parece que estou me desviando, porque o que aqui se trata de informar é que temos decidido dar morte aos Aguascalientes zapatistas. E não só informar vocês, mas também tratar de explicar-lhes o porquê. Enfim, sejam generosos e continuem lendo.

Encurralados, saímos daquela madrugada de 1994 só com duas certezas: uma é a que iam nos fazer em pedaços; a outra, que o gesto iria atrair a atenção de pessoas boas para um crime que, não por ser silencioso e afastado dos meios de comunicação, era menos sangrento: o genocídio de milhares de famílias de indígenas mexicanos. Dito assim, pode soar que tínhamos (ou temos) a vocação dos mártires que se sacrificam pelos outros.

Mentiria se dissesse que sim. Porque, vendo isso friamente, ainda que não tivéssemos nenhuma chance militar, nosso coração não pensava na morte, mas sim na vida e, como éramos (e somos) zapatistas e, logo, nossa dúvida nos inclui, pensávamos que poderíamos estar equivocados nisso de que iam nos fazer em pedaços, que talvez o povo do México inteiro se levantaria. Mas nossa dúvida, devo ser sincero, não chegou a ser tão grande para supor que poderia acontecer o que na realidade aconteceu.

E isso que aconteceu foi, exatamente, o que deu origem ao primeiro Aguascalientes e, em seguida, aos que vieram. Acho que não é necessário que repita o que ocorreu. Estou quase certo (eu não costumo me sentir assim em quase nada) de que quem lê estas linhas teve a ver, pouco ou muito, com o que aconteceu.

Por isso, façam um esforço e coloquem-se em nosso lugar: anos inteiros de preparação para disparar uma arma, e acontece que o que se deve disparar são palavras. Limito-me a dizer isso, e agora que leio o que acabo de escrever parece que fui quase natural, como um desses silogismos que ensinam na preparatória. Contudo, então, acreditem, não foi nada fácil. Batalhamos muito... e continuamos a fazer isso, mas acontece que um guerreiro não esquece o que aprende e, como expliquei antes, nós aprendemos a ouvir e a falar. Assim, que naquele momento, a história, como disse não sei quem, cansada de andar, se repetia, e estávamos de novo como no começo, ou seja, aprendendo.

E aprendemos, por exemplo, que éramos diferentes, e que havia muitos diferentes de nós, mas também diferentes entre eles mesmos. Ou seja, que, quase imediatamente após as bombas ("não eram bombas, mas sim rockets", se apressaram a esclarecer então os intelectuais anexos que criticavam a imprensa que falava em "bombardeios das comunidades indígenas"), caiu sobre nós uma pluralidade que não poucas vezes nos fez pensar se não teria sido melhor que, de fato, nos tivessem feito em pedaços".

Um combatente definiu isso, em termos muito zapatistas, em abril daquele 1994. Chegou a relatar-me a chegada de uma caravana da sociedade civil. Perguntei-lhe quantos eram (tínhamos que acomodá-los em algum lugar) e quem eram (não perguntava o nome de cada um, mas sim a que organização, ou a que grupos, pertenciam). O insurgente avaliou antes a pergunta e depois a resposta que daria. Isso costuma demorar um pouco, de tal forma que acendi o cachimbo. Depois da avaliação, o companheiro disse: "São um punhado e sem mãe". Acho inútil estender-me sobre o universo quantitativo que abrange o conceito científico de "um punhado", mas com o "sem mãe" o insurgente não queria expressar uma reprovação ou uma qualificação de estado d'animo daqueles que chegavam, mas sim definir a composição do grupo. "O que quer dizer com sem mãe?", perguntei. "Sim", respondeu, "há... há sem mãe", acabou dizendo para insistir no fato de que não havia nenhum conceito científico que definisse melhor a pluralidade que havia entrado de assalto em território rebelde. O assalto se repetiu mais de uma vez. Às vezes eram, de fato, um punhado. Outras vezes eram dois ou mais punhados. Mas sempre foi, para usar o neologismo empregado pelo insurgente, "sem mãe".

Intuímos, então, que, de qualquer forma, tínhamos que aprender, e que esta aprendizagem devia ser para o mais possível. Foi assim que pensamos numa espécie de escola onde nós fossemos os alunos e os "sem mãe" o professor. Para tanto, já estávamos em junho de 1994 (ou seja, nós não somos muito rápidos para dar-nos conta de que temos que aprender) e estávamos prestes a tornar pública a chamada "II Declaração da Selva Lacandona" que chamava a construir a "Convenção Nacional Democrática" (CND).

A história da CND é assunto para outro relato e agora só a menciono para situá-los no tempo e no espaço. Espaço. Sim, este era parte do problema da nossa aprendizagem. Ou seja, precisávamos de um espaço para aprender a ouvir e a falar com esta pluralidade que chamamos "sociedade civil". Acordamos então construir o espaço e chamá-lo Aguascalientes já que seria a sede da Convenção Nacional Democrática (relembrando a convenção das forças revolucionárias mexicanas na segunda década do século XX). Mas a idéia do Aguascalientes ia além. Queríamos um espaço para o diálogo com a sociedade civil. E "Diálogo" quer dizer também aprender a ouvir o outro e aprender a falar com ele.

Contudo, o espaço Aguascalientes havia nascido vinculado a uma iniciativa política conjuntural e muitos supuseram que, esgotada esta iniciativa, o Aguascalientes perdia sentido. Poucos, muito poucos voltaram ao Aguascalientes de Guadalupe Tepeyac. Depois veio a traição de Zedillo do dia 9 de fevereiro de 1995 e o Aguascalientes foi quase totalmente destruído pelo exército federal. Inclusive, foi erguido aí um quartel militar.

Mas se algo caracteriza os zapatistas é a tenacidade ("será a necessidade", deve pensar mais de um). Assim, não havia passado um ano quando novos Aguascalientes surgiam em vários pontos do território rebelde: Oventik, La Realidad, La Garrucha, Roberto Barrios, Morelia. Aí sim, os Aguascalientes foram o que deviam ser: espaços para o diálogo e para o encontro com a sociedade civil nacional e internacional. Além de sediar grandes iniciativas e encontros em datas memoráveis, quotidianamente eram o lugar onde "sociedades civis" e zapatistas se encontravam.

E não só isso. Outros Aguascalientes surgiram em outros pontos do território nacional (de cabeça lembro o da "Casa do Lago" fundado pelo CLETA, e, mais recentemente, o chamado "Olho de Águia" na Cidade Universitária, na UNAM - ambos na Cidade do México) e no mundo (o de Madri, Espanha, é o mais recente). As pessoas que levantaram e mantiveram funcionando estes espaços não devem estar contentes ao saber agora que nós zapatistas decretamos a morte dos Aguascalientes. Mas fazem mal a ficarem aborrecidos, porque com os zapatistas não há mortes estéreis.

Dizia-lhes que nós tratamos de aprender dos nossos encontros com a sociedade civil nacional e internacional. Mas também esperávamos que ela aprendesse. O movimento zapatista surge, entre outras coisas, para reivindicar o respeito. E não é que nos insultaram. Ou, pelo menos, não foi com esta intenção. Mas é que, para nós, a lástima é uma afronta e a esmola uma bofetada. Porque, paralelamente ao surgimento e ao funcionamento destes espaços de encontro que foram os Aguascalientes, foi mantido em alguns setores da sociedade civil o que nós chamamos de "a síndrome da Cinderela".

Do baú das recordações tiro agora trechos de uma carta que escrevi há mais de 9 anos: "Não lhes reprovamos nada (aos da sociedade civil que chegam nas comunidades), sabemos que arriscam muito ao vir para nos ver e trazer ajuda aos civis deste lado. Não é a nossa carência a que nos faz sofrer, é ver nos outros o que outros não vêem, a mesma orfandade de liberdade e democracia, a mesma falta de justiça (...) Do que nossa gente tirou de benefício desta guerra, guardo um exemplo de "ajuda humanitária" para os indígenas chiapanecos, chegado algumas semanas atrás: uma sapatilha de salto alto, cor-de-rosa, de importação número 6 e ½... sem seu par. Levo-a sempre na minha mochila para lembrar disso a mim mesmo, entre entrevistas, reportagens fotográficas e supostos atrativos sexuais, o que somos para o país depois de primeiro de janeiro: uma Cinderela (...) Estas boas pessoas que, sinceramente, nos mandam uma sapatilha rosa, de salto alto, número 6 e ½ de importação, sem seu par... pensando que, pobres do jeito que estamos, aceitamos qualquer coisa, caridade e esmola. Como dizer não a toda esta boa gente, que não queremos continuar vivendo a vergonha do México? Nesta parte não há o que maquiar que não torne feio o resto. Não, não queremos continuar vivendo assim".

Isso foi em abril de 1994. Então, achamos que era questão de tempo, que as pessoas iam entender que os indígenas zapatistas eram dignos e que não procuravam esmolas, mas sim respeito. A outra sapatilha rosa nunca chegou e o par continua incompleto, e nos Aguascalientes se amontoam computadores que não prestam, remédios vencidos, roupas extravagantes (para nós) que não são utilizadas nem nas peças de teatro ("senhas" as chamam por aqui) e, sim, sapatos sem o seu par. E continuam chegando coisas assim, como se esta gente dissesse "coitadinhos, estão muito necessitados, com certeza qualquer coisa lhes serve e para mim isso aqui está estorvando".

Não só, há uma esmola mais sofisticada. É a que praticam algumas ONGs e organizações internacionais. Consiste, grosso modo, no fato de que são eles a decidir do que é que as comunidades precisam e, sem sequer consultá-las, impõem não só determinados projetos, mas também os tempos e as formas de sua concretização. Imaginem o desespero de uma comunidade que precisa de água potável e à qual encaminham uma biblioteca, a que precisa de uma escola para as crianças e lhe dão um curso sobre ervas medicinais.

Alguns meses atrás, um intelectual de esquerda escrevia que a sociedade civil devia mobilizar-se para conseguir o cumprimento dos Acordos de San Andrés porque as comunidades indígenas zapatistas estavam sofrendo muito (atenção: não por ser questão de justiça para os povos indígenas do México, mas sim para que os zapatistas não sofressem maiores privações).

Um momento. Se quisessem, as comunidades zapatistas seriam as de melhor nível de vida da América Latina. Imaginem vocês quanto o governo não estaria disposto a investir para conseguir nossa rendição, tirar muitas fotos e fazer muitos "spots" onde Fox e Martinha se autopromoveriam, enquanto o país esfarela entre as mãos. Quanto não teria dado o agora "neo-aparecido" Carlos Salinas de Gortari para terminar seu mandato, não com o peso dos assassinatos de Colosio e de Ruiz Massieu, mas sim com a foto dos rebeldes zapatistas assinando a paz e o Sup entregando sua arma (a que Deus lhe deu?), e que arruinou milhões de mexicanos? Quanto não teria oferecido Zedillo para ocultar a crise econômica na qual afundou o país com a imagem de sua entrada triunfal em La Realidad? Quanto não teria se disposto a dar o "bolacha pra cachorro" Albores para que os zapatistas aceitassem a efêmera "re-municipalização" que impôs durante a tragicomédia do seu mandato?

Não. Os zapatistas têm recebido muitas ofertas para comprar sua consciência, e, contudo, se mantêm em resistência, fazendo de sua pobreza (para quem aprende a ver) uma lição de dignidade e de generosidade. Porque nós zapatistas dizemos "tudo para todos, nada para nós" e se o dizemos é porque o vivemos. O reconhecimento constitucional dos direitos e da cultura indígena, e a melhora das condições de vida, é para todos os povos indígenas do México, não só para os indígenas zapatistas. A democracia, a liberdade e a justiça às quais aspiramos são para todos os mexicanos, não só para nós.

Com não poucas pessoas temos insistido no fato de que a resistência das comunidades zapatistas não é para provocar lástima, mas sim respeito. Aqui, agora, a pobreza é uma arma que tem sido escolhida por nossos povos para duas coisas: para evidenciar que o que procuramos não é o assistencialismo e para demonstrar, com o próprio exemplo, que é possível governar e governar-se sem o parasita que se diz governante. Mas, bom, o tema da resistência como forma de luta tampouco é objeto desse texto.

O apoio que pedimos é para a construção de uma pequena parte desse mundo onde caibam todos os mundos. É, pois, um apoio político, não uma esmola.

Parte da autonomia indígena (da qual fala, com certeza, a chamada "Lei COCOPA") é a capacidade de governar-se, ou seja, de conduzir o desenvolvimento harmônico de um grupo social. As comunidades zapatistas estão empenhadas neste esforço e têm demonstrado, não poucas vezes, que podem fazer isso melhor do que aqueles que se dizem governo. O apoio às comunidades indígenas não deveria ser visto como o apoio aos doentes mentais que nem sequer sabem do que precisam (e, por isso, há que se dizer a eles o que devem receber) ou a crianças às quais se deve dizer o que devem comer, a que hora e como, o que devem aprender, o que devem dizer e o que devem pensar (mesmo que duvide que ainda há crianças que aceitam isso). E este é o raciocínio de algumas ONGs e de boa parte dos organismos financiadores de projetos comunitários.

As comunidades zapatistas são responsáveis em relação aos projetos (não são poucas as ONGs que podem testemunhá-lo), os fazem funcionar, os fazem produzir e assim melhoram os coletivos, não os indivíduos. Quem apóia uma ou várias comunidades zapatistas está apoiando não só a melhora da situação material de um coletivo, está apoiando um projeto muito mais simples, porém mais atraente: a construção de um mundo novo, no qual caibam muitos mundos, onde as esmolas e as lástimas pelo outro sejam parte das novelas de ficção científica... ou de um passado a ser esquecido e prescindível.

Com a morte dos Aguascalientes, morre também a "síndrome de Cinderela" de algumas "sociedades civis" e o paternalismo de algumas ONGs nacionais e internacionais. Pelo menos morrem para as comunidades zapatistas que, a partir de agora, não receberão, nem permitirão a imposição de projetos.

Por isso tudo, e por outras coisas que serão vistas depois, no próximo dia 8 de agosto de 2003, aniversário do primeiro Aguascalientes. A festa (porque há mortes que devem ser festejadas) será em Oventik e estão convidados todos aqueles e aquelas que, nestes dez anos, têm apoiado as comunidades rebeldes, seja com projetos, seja com acampamentos de paz, seja com caravanas, seja com o ouvido atento, seja com a palavra companheira, seja com o que for, sempre e quando não seja com a lástima e a esmola.

No dia 9 de agosto de 2003, nascerá algo novo. Mas sobre isso lhe contarei amanhã. Ou daqui a pouco, porque agora, por aqui, é madrugada, nas montanhas do sudeste mexicano, lugar digno da pátria, terra rebelde, abrigo de transgressores da lei (inclusive a da gravidade) e pedacinho do grande quebra-cabeça mundial da rebeldia pela humanidade e contra o neoliberalismo.

(Continuará...)

Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Subcomandante Insurgente Marcos.

México, julho de 2003.
Chiapas: a décima terceira estela.

Primeira parte: um caracol.

Madrugada nas montanhas do sudeste mexicano.

Vagarosamente, com um movimento lento, porém constante, a lua deixa que o escuro lençol da noite resvale pelo corpo e mostra enfim a fluida nudez de sua luz. Estende-se então ao longo do céu com o desejo de olhar e ser olhada, ou seja, de tocar e ser tocada. Se a luz produz algo é sublinhar o seu oposto, de tal forma que, aqui em baixo, uma sombra oferece uma mão à nuvem enquanto murmura: "Venha comigo, olhe com o seu coração o que os meus olhos lhe mostram, caminhe com seus passos e sonhe em meus braços. Lá em cima, as estrelas formam um caracol tendo a lua como origem e destino. Olhe e ouça. Esta é uma terra digna e rebelde. Os homens e mulheres que nela vivem são como muitos homens e mulheres do mundo. Caminhemos, então, para vê-los e ouvi-los agora, quando o tempo titubeia entre a noite e o dia, quando a madrugada é rainha e senhora nestes solos.

Cuidado com a poça e com o barro. Melhor seguir o rastro que, como em muitas outras coisas, é quem mais sabe. Você ouve estas risadas? São de um casal que há esta hora repete o antigo ritual do amor. Ele murmurou algo e ela ri, ri como se cantasse. Em seguida, o silêncio, depois suspiros e gemidos apagados. Ou talvez foi o contrário, antes os suspiros e gemidos, depois os murmúrios e as risadas. Mas vamos adiante, porque o amor não precisa de outras testemunhas a não ser os olhares trocados na pele e, vendo a luz do sol sem que importe a hora, também desnuda as sombras.

Venha. Sentemos um pouco e deixe que lhe conte. Estamos em terras rebeldes. Aqui vivem e lutam estes que se chamam "zapatistas". E estes zapatistas são muito diferentes... e deixam desesperado mais de um. No lugar de tecer sua história com execuções, morte e destruição, se empenham em viver. E as vanguardas do mundo se arrancam os cabelos, porque no "vencer ou morrer" estes zapatistas nem vencem e nem morrem, mas tampouco se rendem e têm aversão ao martírio tanto quanto à vacilação. Muito diferentes com certeza. E também este que se diz que é o seu líder, o tal Sup Marcos, cuja imagem pública mais se aproxima de Cantinflas e Pedro Infante do que a Emiliano Zapata e Che Guevara. E é inútil dizer que assim ninguém os leva a sério, porque os primeiros a fazer gozação do serem muito diferentes são eles mesmos.

São indígenas rebeldes. Rompem assim com o esquema tradicional que, primeiro da Europa e depois de todos aqueles que vestem a cor do dinheiro, lhes foi imposto para olharem e serem vistos.

De tal forma que não lhes colocam nem a imagem "diabólica" dos sacrificadores de homens para revoltar os deuses, nem a do indígena indigente com a mão estendida esperando a esmola ou a caridade de quem tudo tem, nem a do bom selvagem que é pervertido pela modernidade, nem da criança que diverte os maiores com seus balbucios, nem a do submisso peão de todas as fazendas que fazem a historia do México, nem a do hábil artesão cujo produto enfeitará as paredes de quem o despreza, nem a do ignorante que não deve opinar sobre o reduzido horizonte de sua geografia, nem a de quem teme os deuses celestiais ou terrenos.

Porque você há de saber, azul repouso, que estes indígenas aborrecem até aqueles que simpatizam com sua causa. É que não obedecem. Calam quando se espera que falem. Falam quando se espera o silêncio. Quando se espera que dirijam se colocam para trás. Quando se espera que continuem para trás, pegam por outro lado. Quando se espera que só eles falem, começam falando de outras coisas. Quando se espera que se conformem com sua geografia, suas lutas caminham pelo mundo.

Ou seja, não deixam ninguém contente. E parece que não se importam muito. O que lhe importa é ter o seu coração contente, de tal forma que seguem os caminhos que ele aponta. É isso que parecem estar fazendo agora. Há gente nos caminhos por toda parte. Vão e vêm trocando apenas as saudações de praxe. Passam longas horas em reuniões ou assembléias ou o que for. Entram com o rosto severo e saem sorrindo com cumplicidade.

Mmh...

Seja como for, com certeza o que vão fazer ou dizer não vai agradar a muitos. Além disso, como diz o Sup, a especialidades dos zapatistas é criar problemas e, em seguida, ver quem os resolve. É assim que destas reuniões não se pode esperar outra coisa a não ser problemas...

Talvez poderíamos adivinhar do que se trata se olhássemos com atenção. Os zapatistas são muito diferentes, não sei se já lhe disse isso, por isso imaginam coisas antes que estas coisas existam e acham que, ao nomeá-las, estas coisas começam a ter vida, a caminhar... e sim, a dar problemas. Por isso, com certeza, já imaginaram algo e vão começar a agir como se este algo já existisse e ninguém vai entender nada até que passe um tempo porque, de fato, já nomeadas, as coisas começam a ganhar corpo, vida e amanhã.

Então, poderíamos procurar alguma pista... Não, não sei onde procurar... Creio que o jeito deles é olhar com os ouvidos e ouvir com o olhar. Sim, já sei que soa complicado, mas agora não me vem outra coisa. Vem, continuamos a caminhar.

Olha, lá o riacho faz um redemoinho e no seu centro a lua faz cintilar com leve tremor sua dança desajeitada. Um redemoinho... ou um caracol.

Dizem por aqui que os mais antigos dizem que outros anteriores a eles disseram que os primeiros destas terras tinham apreço pela figura do caracol. Dizem que dizem que diziam que o caracol representa o entrar no próprio coração, que é assim que os mais primeiros chamavam o conhecimento. E dizem que diziam que o caracol também representa o sair do coração para andar pelo mundo, que é assim que os primeiros chamavam a vida. E não só, dizem que dizem que diziam que com o caracol se chamava o coletivo para que a palavra fosse de um para outro e o acordo crescesse. E também dizem que dizem que diziam que o caracol era ajuda para que o caracol ouvisse inclusive a palavra mais distante. Isso eles dizem que dizem que diziam. Eu não sei. Caminho pegando você pela mão e mostro a você o que o meu ouvido vê e o meu olhar ouve. E vejo e ouço um caracol, o "pu'y" como o chamam na língua dessas bandas.

Sssh. Silêncio. A madrugada já cede o passo ao dia. Sim, já sei que ainda está escuro, mas veja como as choças vão se iluminando, pouco a pouco, com a chama dos fogões. Como agora somos sombras na sombra, ninguém nos vê, mas se nos vissem, com certeza, nos convidariam para um cafezinho que, com este frio, cai bem. Como cai bem o roçar da sua mão na minha.

Olha, a lua já desliza para ocidente, ocultando sua gravidez de luz por trás da montanha. Está na hora de ir embora, de abrigar o passo na sombra da cova, aí onde se aliviam o desejo e o cansaço com outro cansaço mais amável. Venha, aí, com pele e palavras irei lhe sussurrar "E, como queria ser/ uma alegria entre todas, / uma só, a alegria com a qual você se alegra!/ Um amor, só um amor:/ um amor do qual você se apaixonasse./ Mas/ não sou nada mais do que sou". (Pedro Salinas. "A Voz a você devida"). Aí já não olharemos, mas no dormitar do desejo ancorado num bom porto, poderemos ouvir a atividade que, nestes dias, agita estes zapatistas que se empenham em subverter até o tempo e levantam de novo, como se fosse uma bandeira, outro calendário... o da resistência".

Luz e sombra vão embora. Não percebem que uma choça manteve acesa sua tênue luz durante toda a noite. Agora, lá dentro, um grupo de homens e mulheres partilha o café e o silêncio, como antes partilharam a palavra. Durante várias horas, estes seres de coração moreno traçaram, com suas idéias, um grande caracol. Partindo do internacional, seu olhar e seu pensamento foram se adentrando, passando sucessivamente pelo nacional, o regional e o local, até chegar ao que eles chamam "El Votán: o guardião e o coração do povo", os povos zapatistas. Assim, da curva mais externa do caracol, se pensam palavras como "globalização", "guerra de dominação", "resistência", "economia", "cidade", "campo", "situação política", e outras que a borracha vai eliminando depois da clássica pergunta "Está claro ou há perguntas?" ao final do caminho de fora pra dentro, no centro do caracol, ficam só algumas siglas "EZLN". Depois há propostas e se esboçam, no pensamento e no coração, janelas e portas que só eles vêem (entre outras coisas, porque ainda não existem). A palavra impar e dispersa começa a trilhar o caminho comum e coletivo. Alguém pergunta "Há acordo?" "Há", responde afirmando a voz já coletiva. Traça-se de novo o caracol, mas agora em sentido oposto, de dentro pra fora. A borracha segue o caminho inverso até que fica só, enchendo um velho quadro, uma frase que para muitos é delírio, mas para estes homens e mulheres é uma razão de luta: "um mundo onde caibam muitos mundos". Mas, logo em seguida, se toma uma decisão.

Agora é o silêncio e a espera. Uma sombra sai da chuva noturna. Somente um fio de luz ilumina o seu olhar. De novo na escuridão, acende o fumo de seus lábios. Com as mãos atrás das costas, começa um vaivém sem destino. Há alguns minutos, lá dentro, foi decidida uma morte...

(Continuará...)

Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Subcomandante Insurgente Marcos.

México, julho de 2003.

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

Site Meter