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Textos do Exército Zapatista de Libertação Nacional, do seu Sub[p]Comandante Insurgente Marcos e demais membros do Comité Clandestino Revolucionário Indígena - Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional

22.9.03

Palavras do Subcomandante Marcos

México, setembro de 2003.

Irmãos e irmãs do México e do mundo que se encontram em Cancun nesta mobilização contra o neoliberalismo:

Recebam a saudação dos homens, mulheres, crianças e anciãos do Exército Zapatista de Libertação Nacional.

Para nós, é uma honra que, no meio de suas reuniões, acordos e mobilizações, criem um espaço para ouvir a nossa palavra.

O movimento mundial contra a globalização da morte e da destruição tem hoje em Cancun uma de suas expressões mais brilhantes.

Perto de onde se realiza esta mobilização, um punhado de servidores do dinheiro acordam as formas e os tempos para continuar com o suculento crime da globalização. A diferenças entre eles e todos nós não está nos bolsos de uns e de outros ainda que os bolsos deles transbordem de moedas e os nossos de esperanças.

Não, a diferença não está nas notas, mas sim no coração.

Vocês e nós, temos no coração um amanhã que está por vir, ou seja, a ser construído. Eles só têm um passado que querem repetir eternamente.

Nós temos a vida, eles a morte.

Nós lutamos pela humanidade, eles pelo neoliberalismo.

Nós queremos a liberdade, eles querem nos escravizar.

Não é a primeira vez, e nem será a última, que os que se acham donos do planeta têm que se esconder por trás de seus altos muros e de suas patéticas forças de segurança para fazer seus planos.

Como numa guerra, o alto comando deste exército transnacional que se propõe a conquistar o mundo da única forma que lhe é possível conquistá-lo, ou seja, destruindo-o, se reúne sob um esquema de segurança tão grande quanto o seu medo.

Porque se antes os poderosos se reuniam às costas do mundo para maquinar suas futuras guerras e expropriações, hoje têm que fazer isso não só diante de todos, mas agora contra milhares em Cancun e milhões em toda a terra.

Porque é disso que se trata. De uma guerra. De uma guerra contra a humanidade.

A globalização dos que estão em cima nada mais é a não ser uma máquina mundial que se alimenta de sangue e defeca dólares.

E no complexo balanço que transforma mortes em dinheiro, há um grupo de serem humanos que é cotado a um preço muito baixo na carnificina global. São os indígenas, os jovens, as mulheres, as crianças, os anciãos, os homossexuais, as lésbicas, os migrantes, os diferentes. Ou seja, a imensa maioria da humanidade.

A guerra mundial do poderoso quer transformar o planeta terra num clube exclusivo no qual ele se reserva o direito de admissão.

A área de luxo e exclusiva na qual agora se reúnem, representa o seu projeto de globo terráqueo: um complexo de hotéis, restaurantes, áreas de lazer de luxo, protegido por exércitos e policiais.

Para o poderoso, todos nós temos a opção de estar no interior desta área exclusiva, mas só como serviçais, ou ficarmos fora do mundo, ou seja, da vida.

Mas não temos porque obedecer ou escolher entre viver como serviçais ou morrer. Podemos construir um caminho novo, no qual viver seja viver com dignidade. No qual viver seja viver com liberdade.

Construir esta alternativa é possível e é necessário.

Esta alternativa é necessária porque dela depende o futuro da humanidade. Este futuro está em jogo em todos os cantos de cada um dos cinco continentes.

E esta alternativa é possível porque no mundo inteiro há aqueles que sabem que “Liberdade” é um termo que, ou se conjuga no plural, ou não deixa de ser uma pobre desculpa para o cinismo.

Irmãos e irmãs:

No mundo inteiro há dois projetos de globalização em disputa.

O de cima, que globaliza o conformismo, o cinismo, a estupidez, a guerra, o esquecimento.

E o de baixo que globaliza a rebeldia, a esperança, a criatividade, a inteligência, a imaginação, a vida, a memória, a construção de um mundo onde caibam todos os mundos. Um mundo com...

Democracia! Liberdade! Justiça!

Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Pelo Comitê Clandestino Revolucionário Indígena – Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional.

Subcomandante Insurgente Marcos.

México, Continente Americano, Planeta Terra. Setembro de 2003.
Palavras do Comandante David

México, setembro de 2003.

Irmãos e irmãs camponeses e indígenas do México, da América Latina e do mundo:

Enviamos a todos e a todas a saudação dos homens, mulheres, crianças e anciãos do Exército Zapatista de Libertação Nacional.

Em primeiro lugar, queremos agradecer pelo convite que a Via Campesina nos fez de participar deste ato. Agradecemos também todos os que participam desta importante mobilização e nos dão a oportunidade de dizer a nossa palavra.

E nossa palavra, irmãos e irmãs, é de autonomia e de resistência. Diante dos poderosos do dinheiro que agora se reúnem para fazerem acordos sobre como acabar conosco, humilhar-nos e fazer-nos desaparecer, nós zapatistas levantamos a autonomia e a resistência como armas e escudo pela humanidade e contra o neoliberalismo. Porque nós, povos indígenas de qualquer parte do México, da América Latina e de qualquer continente, temos sofrido sempre todo tipo de injustiças. Sofremos pela expropriação de nossas riquezas naturais, da água, dos bosques, dos rios, dos mananciais, das pedras, do ar, até dos túmulos dos nossos mortos. Por toda parte nos tratam com desprezo e humilhação.

Fazem gozações da nossa língua, da nossa cultura, da nossa roupa e de toda a nossa maneira de ser. Fazem gozações da nossa cor porque somos da cor da nossa mãe terra.

Desde a conquista espanhola, temos sido tratados com desigualdade e injustiça. Não temos sido levados em consideração em todos os planos de desenvolvimento e na hora de tomar as decisões. Como indígenas, não temos direito à terra, à saúde, à educação, à alimentação e à moradia. Somos escravos e explorados em nossa própria terra. Ou somos desalojados de nossas próprias terras e obrigados a ficar na rua ou a irmos morrer nos países estrangeiros.

É assim que temos sido obrigados a destruir nossa unidade, nossas idéias e costumes coletivos. Somos atacados com idéias e costumes diferentes dos nossos e assim querem destruir os nossos valores e querem acabar com a convivência respeitosa de muitas culturas como as que nós indígenas zapatistas proclamamos.

É assim que os poderosos querem nos matar. Mas nós queremos viver. Não viver como escravos, mas sim viver com liberdade, com democracia e com justiça.

Por isso, porque queremos viver, a resistência dos povos é uma de nossas armas de luta diante dos planos e projetos de morte do mau governo e dos poderosos. Ainda que a resistência não tenha sido e nem será fácil para os nossos povos em resistência, porque eles têm que suportar todos os golpes políticos, econômicos, ideológicos, culturais, militares e paramilitares do mau governo.

Mas a resistência nos torna fortes e dignos, porque faz com que nós, povos zapatistas, não nos rendamos e não nos vendamos diante das idéias e das migalhas do supremo governo.

A resistência une os povos em luta que buscam uma vida justa e contra os planos de morte e destruição dos poderosos. Assim, a partir da resistência, os povos começam a desenvolver a sua vida política, econômica, social, ideológica e cultural. Porque começam a desenvolver coletivamente os seus trabalhos nas áreas de saúde, educação, na comercialização e na organização das autoridades autônomas.

Somente assim, a partir da resistência, os povos podem começar a exercitar seus direitos à autonomia, a partir dela os povos começam a pensar, a se organizar e a decidir como querem viver e se governar sem que os políticos intervenham na vida dos povos. Com a resistência, vamos defender nossos direitos à autonomia e à livre determinação. Com a resistência vamos defender nossas terras, as riquezas naturais, a cultura e nossas formas de governo, ou seja, a nossa autonomia.

Porque para os povos indígenas, a autonomia é um elemento fundamental, porque, com a autonomia, temos direito a pensar, a decidir, a nos organizar e nos governar como povos, de acordo com nossa forma de entender, de acordo com nossos conhecimentos da vida e do mundo, de acordo com a nossa cultura de povos.

Os povos indígenas do México e de toda a América têm sabido se organizar com inteligência e sabedoria, se governar e dirigir o seu próprio destino e assim puderam desenvolver sua vida política, econômica, social e cultural.

Por isso, a autonomia é um direito que devem ter todos os povos das origens de cada país, para que possam viver com liberdade, com direito, com igualdade e justiça como todos os seres humanos.

Por isso, nós zapatistas reivindicamos, exigimos e exercemos todo este direito à autonomia e à livre determinação para todos os povos indígenas do México e do mundo. Ninguém deve tirar este direito, porque tirar a autonomia a um povo é tirar-lhe o direito à vida, à criatividade, à organização e ao desenvolvimento. Sem autonomia, a vida dos povos será submissão, dominação, humilhação e morte. Por isso, com a arma da autonomia numa mão e a arma da resistência na outra, lançamos um apelo aos camponeses do México e do mundo inteiro.

É um apelo que muitos anos atrás foi feito pelo general Emiliano Zapata que disse que a terra é de quem a trabalha. A terra que trabalhamos é nossa, não é dos bancos, nem dos que vendem adubos e inseticidas e promovem os cultivos transgênicos. A terra não é de quem a vê como uma mercadoria, a vende e a compra, a destrói e a mata.

A terra é nossa, dos camponeses e dos indígenas, e devemos tomá-la em nossas mãos e fazê-la produzir para todos, não para um punhado de vagabundos que da terra não conhecem nem a cor.

Por isso, deste canto digno da nossa pátria mexicana, lançamos um apelo a todo o povo do México, a todos os povos da América Latina e a todos os povos do mundo a unir-se à resistência e a apoiar a resistência de todos os povos pobres do mundo que estão sendo golpeados e ameaçados para serem destruídos pela globalização da morte.

Irmãos e irmãs do mundo, chamamos vocês a se unirem e a se organizarem na resistência mundial.

Pela resistência!

Pela humanidade!

Contra o neoliberalismo!

Democracia! Liberdade! Justiça!

Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Pelo Comitê Clandestino Revolucionário Indígena – Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional.

Comandante David. México, setembro de 2003.
Palavras da Comandante Esther

Irmãs mulheres indígenas, camponesas e da cidade:

Enviamos uma saudação a todas as que participam desta grande mobilização mundial contra a Organização Mundial do Comércio, sobretudo, àqueles que participam das ações da Via Campesina.

Agradecemos por nos ter dado a oportunidade de dizer nossas palavras como Exército Zapatista de Libertação Nacional.

Irmãs mulheres indígenas e camponesas. Queremos dizer a vocês que se organizem para lutar contra o neoliberalismo que nos humilha, nos explora e quer nos fazer desaparecer como indígenas, como camponesas e como mulheres.

Porque não pagam o justo preço pelo produto que vendemos enquanto aumentam cada vez mais o preço dos produtos deles. Tudo o que nós pobres compramos está cada vez mais caro e só poucas pessoas se beneficiam e vivem melhor.

Enquanto isso, milhões de homens, mulheres e crianças pobres morrem de fome e de doença. Por isso, não vamos permitir que façam livremente suas covardias.

Não vamos permitir que homens, mulheres e crianças do mundo inteiro continuem morrendo de fome e de doença. Porque nós sabemos que, como mulheres indígenas e camponesas, somos nós que sofremos mais com nossos filhos porque nós cuidamos deles e os mantemos, além disso, trabalhamos na roça.

Devido a isso, devemos ter mais coragem para lutar e acabar com toda esta exploração e humilhação. Também queremos dizer aos homens que respeitem os nossos direitos como mulheres. Mas não vamos pedir isso como favor, mas sim vamos obrigar os homens a nos respeitar. Porque muitas vezes os maus tratos que recebemos não vêm só do rico explorador. A fazer isso são também os homens que são pobres como nós, sabemos disso muito bem e não há quem pode negá-lo.

Porque o rico quer nos humilhar porque somos mulheres, mas também o homem que não é rico age assim, ou seja, o que é pobre como nossos maridos, nossos irmãos, nossos pais, nossos filhos, nossos companheiros de luta, os que trabalham conosco e estão na nossa organização.

Então, dizemos claramente que quando exigimos o respeito das mulheres, não o reivindicamos só dos neoliberais, mas também vamos obrigar a isso os que lutam contra o neoliberalismo, que dizem que são revolucionários, mas que na própria casa são como Bush.

Queremos dizer também a todas as mulheres da cidade que se organizem para lutarem juntas porque elas também sofrem da mesma situação, humilhação e exploração. Porque as que trabalham nas fábricas como operarias, empregadas, professoras, secretárias, têm um patrão ou patroa, porque as mulheres ricas também nos humilham e nos desprezam. E o que ganham não dá para elas cuidarem da saúde, da educação e da alimentação de seus filhos. E têm que cumprir também o horário que lhes dão, e quando não o cumprem perdem o trabalho e, contudo, não lhes pagam o justo salário.

E também as mulheres jovens que são perseguidas, molestadas e violentadas e os homens usam como pretexto o como elas se vestem, mas nós não devemos permitir isso porque cada um se veste como lhe dá vontade e nem por isso deve ser molestado ou violentado.

E queremos falar também das mulheres que são assassinadas em Cidade Juarez que é no Estado de Chihuahua, aqui no México. Aí, há muitas mulheres que são seqüestradas, violentadas e assassinadas e são só mulheres jovens, pobres e trabalhadoras. Seus familiares pedem justiça e os governos não fazem outra coisa a não ser se fazer de bobos. E, como não há justiça, os assassinatos continuam.

Se a serem seqüestrados, violentados e assassinados fossem homens e ricos, vocês veriam com que rapidez o governo e seus policiais encontrariam o culpado. Mas não, não fazem nada porque a morrer são mulheres e pobres.

Por isso, temos que nos organizar, para nos defender e obrigar ao respeito dos nossos direitos; de nada adianta esperar que o governo faça algo porque não faz outra coisa a não ser dar entrevistas no rádio, na televisão e nos jornais.

Por isso, dizemos a vocês, irmãs indígenas, camponesas e da cidade, que as convidamos a se organizarem para lutarmos juntas já que sofremos a mesma humilhação por parte dos ricos e também dos nossos homens que não querem nos respeitar como mulheres.

Mas chegou a hora de, juntas, obrigarmos os homens a nos respeitar pelo que somos e como merecemos.

Viva as mulheres indígenas!

Viva as mulheres camponesas!

Viva as mulheres da cidade!

Viva as mulheres pobres!

Democracia! Liberdade! Justiça!

Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Pelo Comitê Clandestino Revolucionário Indígena – Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional.

Comandante Esther. México, setembro de 2003.
Exército Zapatista de Libertação Nacional. México.

Setembro de 2003.

Para: Via Campesina, Secretaria Executiva, Tegucigalpa, Honduras.

De: Subcomandante Insurgente Marcos, CCRI-CG do EZLN, México.

Irmãos e irmãs:

Recebam nossas saudações.

Comunico-lhes que recebemos a sua carta de 5 de agosto de 2003 na qual nos convidam a participar do Fórum Internacional Camponês Indígena e das jornadas de luta e resistência que ocorrerão, de 8 a 14 de setembro deste ano, contra a Organização Mundial do Comércio que se reunirá em Cancun, México.

Agradecemos pelo convite e saudamos a existência da Via Campesina, ou seja, sua luta e sua resistência. Anexos à presente, vocês receberão três discursos (gravados e escritos): um do Comandante David, outro da Comandante Esther e outro ainda do Subcomandante Insurgente Marcos, todos eles em nome do Comitê Clandestino Revolucionário Indígena – Comando Geral do EZLN.

Achamos que os discursos poderiam ser apresentados em qualquer uma das mobilizações de massa que se realizarão nestas datas, mas fica a critério de vocês apresentá-los em fóruns e reuniões. Pedimos somente que, quando possível, sejam mulheres que integrem a Via Campesina a apresentar cada um dos discursos.

Esperamos que dê tudo certo e que, de fato, o trem da morte que a OMC conduz seja descarrilado em Cancun e em qualquer lugar do mundo.

Oxalá, tenhamos logo mais notícias de vocês.

Valeu. Saúde e que a esperança continue sendo semeada, e crescendo, nos campos dos cinco continentes.

Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Subcomandante Insurgente Marcos.

12.9.03

Palavras de despedida do Comandante David

Agora, sou eu que vou dirigir as palavras de agradecimento e despedida à sociedade civil nacional e internacional.

A nossos irmãos e irmãs de todos os países do mundo, que chamamos de sociedade civil internacional, que, sem ligar para os riscos de atravessar terras e mares para vir ao nosso encontro para dar-nos seu apoio e sua solidariedade. A todos eles e elas, nossa saudação e agradecimentos especiais porque têm entendido que nossa luta não é só para os zapatistas ou só para os indígenas do México, mas sim eles sabem que a nossa luta é por democracia, liberdade e justiça para todos. Nossa luta é pela humanidade e contra o neoliberalismo, é para construir um mundo onde caibam todos os mundos. Por um mundo onde reine a verdade e a justiça, não a mentira e a destruição da vida.

Aos irmãos e irmãs indígenas e não indígenas de todos os estados do nosso país que é o México, que chamamos de sociedade civil nacional, para eles e elas, as nossas saudações e agradecimentos especiais. Temos certeza de que têm entendido e têm feito sua a nossa causa, e sabem que ela não é somente para os indígenas zapatistas, mas sim para todos os indígenas e não indígenas e de todo o México e do mundo. E, por isso, têm nos oferecido o seu apoio, sua solidariedade e seu acompanhamento, arriscando sua segurança, sua vida, ou a perda do seu emprego para vir encontrar-se conosco, para aprender com a nossa resistência e organização dos povos, e também para que eles possam partilhar conosco sua experiência, sua resistência e sua esperança de uma vida melhor no futuro.

É por isso, irmãos e irmãs, nacionais e internacionais, com o seu apoio e solidariedade à nossa causa, junto com vocês temos tornado grande e forte nossa resistência e rebeldia. Porque em todos vocês temos encontrado milhares e milhões de ouvidos, de vozes e corações sinceros. Por vocês e com vocês, nós zapatistas continuamos existindo, ainda que o mau governo tenha tentado nos aniquilar de todas as formas. Mas será inútil a tentativa do supremo governo de acabar conosco porque, a cada dia, a rebeldia e a resistência dos povos indígenas e não indígenas do México e do mundo será maior e mais forte. Porque temos encontrado em vocês apoio e solidariedade nestes dez anos de luta pelos nossos direitos, para defender e exercer nossa autonomia e livre determinação enquanto povos.

Democracia, liberdade e justiça para todos!

Desejamos continuar lutando com vocês por todos estes ideais e utopia, por isso dizemos a vocês que continuem vindo para nos ensinar sobre suas formas de resistência e partilhar suas experiências e seus sonhos, mas também, e, sobretudo, para aprender de nós o que for bom, e não o que for ruim, porque com nossa luta, com nossa resistência e rebeldia desejamos dar uma pequena contribuição à luta maior contra o neoliberalismo e a globalização da morte que ameaça toda a humanidade.

Pela humanidade, contra o neoliberalismo!

Viva o Exército Zapatista de Libertação Nacional!

Democracia! Liberdade! Justiça!

Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Pelo Comitê Clandestino Revolucionário Indígena - Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional.

México, agosto de 2003.

Muito obrigado, irmãos e irmãs.
O Comandante Brus Li anuncia o Plano la Realidad - Tijuana.

Boas tardes a todos vocês, irmãos e irmãs.

Hoje, dia 9 de agosto de 2003, em resposta aos planos da classe política que pretende fragmentar país, o Exército Zapatista de Libertação Nacional chama o povo do México a levar adiante o Plano La Realidad-Tijuana, para o qual propomos sete acordos comuns e sete reivindicações nacionais:

Primeiro acordo: respeito recíproco à autonomia e à independência das organizações sociais de operários, camponeses, indígenas, mulheres, anciãos, homossexuais, lésbicas, transexuais, trabalhadoras e trabalhadores do sexo, jovens empregados, crianças, colonos, professores, pequenos comerciantes, devedores, artistas, intelectuais, religiosos a suas formas de luta e de organização, a seus processos e formas de tomar decisões, a suas legítimas representações, a suas aspirações e demandas e aos acordos aos quais cheguem com sua parte contrária.

Segundo acordo: promover as formas de autogestão e autogoverno em todo o território nacional de acordo com as modalidades de cada um.

Terceiro acordo: promover a rebeldia e a resistência civil e pacífica diante das disposições do mau governo e dos partidos políticos.

Quarto acordo: prestar solidariedade total e incondicional ao agredido, não ao agressor.

Quinto acordo: formar uma rede de comércio básico entre as comunidades e de promoção de consumo básico em locais e comércios nacionais, dando preferência ao pequeno e médio comércio e ao chamado comércio informal.

Sexto acordo: defesa conjunta e coordenada da soberania nacional e oposição frontal e radical às iminentes privatizações da energia elétrica, do petróleo e dos demais recursos naturais.

Sétimo acordo: formar uma rede de informação e cultura e reivindicar dos meios de comunicação uma informação verdadeira, completa, oportuna e equilibrada. Criar meios de comunicação locais e estabelecer redes regionais e nacionais de defesa e promoção da cultura local, regional e nacional, e das ciências e das artes universais.

As sete reivindicações que propomos são:

Primeira Reivindicação: a terra é de quem a trabalha. Defesa da propriedade ejidal e comunal da terra, proteção e defesa dos recursos naturais. Nada sem o conhecimento e o consentimento prévio dos habitantes e trabalhadores de cada lugar.

Segunda reivindicação: trabalho digno, salário justo para todos e todas.

Terceira reivindicação: moradia digna para todos e todas.

Quarta reivindicação: saúde pública e gratuita para todos e todas.

Quinta reivindicação: alimentação e roupa a baixo custo para todos e todas.

Sexta reivindicação: educação leiga e gratuita para todas as crianças e a juventude.

Sétima reivindicação: respeito à dignidade da mulher, das crianças e dos anciãos.

O EZLN faz um apelo às organizações sociais independentes do estado e dos partidos políticos para que discutam e, no caso, aprovem a ampliem este plano nacional.

Democracia! Liberdade! Justiça!

Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Pelo Comitê Clandestino Revolucionário Indígena - Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional.

México, agosto de 2003.

Obrigado.
Palavras da Comandante Fidélia às mulheres do mundo.

Muito boas tardes irmãs do povo do México e do mundo.

Irmãs:

Quero dizer a vocês estas palavras das minhas irmãs revolucionárias do Exército Zapatista de Libertação Nacional e que recebam a saudação muito especial por elas enviada.

Irmãs e mulheres, quero dizer a vocês estas breves palavras. Hoje fazemos um apelo ao povo masculino do México porque nós queremos exigir o nosso respeito enquanto mulheres. Nós vamos exigir isso porque não estamos pedindo um favor e nem suplicando. Isso vai acontecer obrigatoriamente.

Porque, irmãs mulheres, vocês sabem muito bem que as mulheres estão no campo e na cidade. Elas trabalham e seus direitos são violentados. Não são respeitadas. Por isso, hoje, convidamos as mulheres de todo o México e do mundo e todas as mulheres que estão em qualquer lugar, e que não são organizadas, que não nos escutam, mas às quais talvez vai chegar a minha voz, que nós vamos obrigá-los a nos respeitarem como mulheres mesmo que façam uma carinha triste.

Porque há ainda muitos lugares do México nos quais nós mulheres somos maltratadas, desprezadas, exploradas e se diz que não prestamos, que não valemos nada, que não temos nenhum direito. Mas, hoje, chegou o momento em que vamos fazer com que nos respeitem por obrigação. Não os estou repreendendo, escutem bem, o nosso respeito enquanto mulheres é uma obrigação.

Então, trago a vocês uma saudação especial das minhas irmãs revolucionárias do Exército Zapatista de Libertação Nacional, do Comitê Clandestino Revolucionário, do sudeste mexicano e de todo o México onde há zapatistas porque eles estão em qualquer lugar.

Obrigada irmãs.
Palavras do Comandante Omar aos jovens.

Boas tardes, jovens.

Boas tardes a todos os presentes.

Irmãos e irmãs do mundo e do México.

Especialmente para os e as jovens e também a todos os presentes e aos que não estão presentes e que nos ouvem de longe e de perto.

Hoje, estamos aqui neste lugar, que nasceu há poucas horas, e que vocês já sabem que é o Caracol Resistência e Rebeldia pela Humanidade.

Recebam todos vocês uma saudação revolucionária e esperamos que tudo esteja bem, ainda que cansados pelo baile nesta grande festa tão importante, de tal forma que o cansaço não importa, mas estou com inveja de vocês porque eu não fui ao baile.

Jovem estudante, jovem desempregado, do planeta terra e do México, você que procura continuar estudando nas universidades e não é aceito. Quando termina os estudos, você procura trabalho e não lhe dão. E, quando lhe dão emprego, pagam uma miséria. Então, não há oportunidades nem na educação e nem no trabalho.

Por outro lado, não respeitam a forma pela qual você quer viver sua juventude. Perseguem-nos porque somos diferentes. Gostariam de que já fossemos velhinhos e velhinhas para eles não se preocuparem. Não nos querem, nos odeiam, mas têm medo de nós porque quando somos jovens somos capazes de organizar-nos. Aí é que eles se enganam porque não ficaremos velhos, porque uns vão morrendo e outros vão brotando. Assim, a luta vai ficar jovem o tempo todo.

Na nossa juventude, os governos, seus grupos de facções, como os grandes empresários de todas as espécies, oferecem trabalho, mas a uma condição: que você obedeça a eles, que fique debaixo de suas ordens a serviço deles como um servo e depois pagam uma migalha. É assim que se aproveitam da força da nossa juventude.

Irmãos e irmãs: aqui em Chiapas, no México e no mundo, vamos demonstrar que, não importa em que lugar do mundo estivermos, como jovens somos capazes de organizar-nos, para exigir nossos direitos e nosso próprio destino no futuro que queremos e, assim, levar adiante nossa cultura, nossa forma de ser o que somos, de acordo com o nosso povo ou grupo, a depender de onde nos encontremos.

Lutem, junto a nós zapatistas. Damos a vocês o exemplo de que não há outra coisa que se possa fazer. Lutando e resistindo, não há bomba, governo ou dinheiro que nos detenha. Quando o que é feito pelo poder do dinheiro é encurralar-nos ao roubo, à droga, ao alcoolismo, à prostituição para, em seguida, dizer que mataram alguém por ser ladrão ou o prendem o tempo todo, e não dizem nada, mas só porque você estava vestido como queria ou por você defender seus direitos ou sua cultura.

É hora de despertar. Não nos deixemos morrer como o rico e o governo querem. E se temos que morrer, pois que seja somente lutando para que nossa morte não seja de graça, mas sim para um futuro melhor para os que vão crescendo, para que não sofram como nós sofremos. Temos que levantar e olhar em frente, que, como dizem os heróis revolucionários, se deve morrer de pé e não de joelhos.

E digo a vocês uma outra coisa, que não acreditem que os governos do mundo, ou os que apóiam a globalização, vão melhorar a economia dos países do mundo. Não é verdade. Eles só vão nos roubar em cada uma de nossas pátrias. Por isso, é necessário que, como jovens, unamos as nossas forças em alguma organização que lutem honestamente e logo verão que neste mundo e possível lutar e não ficar quietos com medo. Temos que ser valentes, não somente para as molecagens. Não reparem, estou brincando.

Lutem e continuem lutando sem parar. Não se rendam e nem se vendam. Assim, seremos mais dignos para os nossos povos. Não em busca de uma colocação e nem do dinheiro, mas sim para que neste planeta terra haja um povo com justiça e dignidade. E como os partidos e os governos dos ricos procuram conformar tudo para que se diga que não está acontecendo nada, que tudo vai bem para o futuro dos jovens dos países, por isso dizemos:

Viva os jovens e as jovens rebeldes do mundo!

Viva os e as jovens rebeldes do México!

Viva o Exército Zapatista de Libertação Nacional!

Viva os Caracóis zapatistas!

Viva os Municípios Autônomos Rebeldes!

Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Pelo Comitê Clandestino Revolucionário Indígena - Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional.

México, 9 de agosto de 2003.

Obrigado.
Palavras do Comandante David aos irmãos indígenas que não são zapatistas

Vou dizer algumas palavras aos irmãos indígenas que não são zapatistas.

Irmãos e irmãs indígenas não-zapatistas que vivem no interior dos povoados, das regiões e dos municípios autônomos rebeldes zapatistas:

Nós do Comitê Clandestino Revolucionário Indígena - Comando Geral do EZLN nos dirigimos a vocês para dizer quanto segue:

Não é necessário ser zapatista para ser atendido e respeitado pelos municípios autônomos em qualquer parte do nosso território. Por ser membro da comunidade ou do município a que pertence, você tem o direito de ser atendido.

Se vivem na mesma comunidade e no mesmo município, são irmãos de raça, de cor e de histórias, e então não deve haver nenhuma razão para lutar e nos enfrentarmos entre irmãos porque sofremos as mesmas injustiças de discriminação e de humilhação. Vivemos na mesma condição de fome e de miséria. Por sermos indígenas e da cor da terra, sofremos o mesmo desprezo, marginalização e esquecimento por parte dos maus governantes e dos poderosos.

O que pedimos aos que não são zapatistas, aos que não concordam conosco ou não entendem a justa causa da nossa luta que respeitem a nossa organização. Que respeitem nossas comunidades e municípios autônomos e suas autoridades. E respeitem as Juntas de Bom Governo de todas as regiões, de todas as áreas e que, a partir de hoje, são formalmente constituídas com o testemunho de muitos milhares e irmãos e irmãs indígenas e não indígenas do nosso México e de muitos países do mundo.

Nós zapatistas não vamos agredir ninguém e nem impor nada aos que não são zapatistas. Seremos respeitosos com os nossos irmãos indígenas sem que para isso importe sua organização, seu partido ou sua religião, sempre e quando nos respeitem e respeitem nossos municípios autônomos e suas autoridades, para que nossos povos indígenas possam exercer seus direitos à autonomia e à livre determinação, como previsto nos Acordos de San Andrés, assinados pelo governo federal e pelo EZLN, e transformados em projeto de lei pela COCOPA em novembro de 1996.

Por isso, queremos deixar bem claro que não ficaremos de braços cruzados quando forem agredidos nossos companheiros, nossas comunidades e nossos municípios por qualquer grupo de pessoas de qualquer partido ou de qualquer grupo paramilitar, porque é nosso dever defender os nossos companheiros e exigir que sejam respeitados.

Irmãos e irmãs. Hoje o zapatismo é maior e mais forte. Nunca antes na nossa história tivemos a força que temos hoje. Já faz tempo que superamos muitos dos limites presentes no Estado de Chiapas, e não só, temos o controle até das comunidades onde estão os destacamentos do Exército federal e da Polícia de Segurança Pública do Estado. Nossa palavra tem penetrado também nos quartéis e em quem mora neles. Não estamos só supondo, estamos comunicando. Como sinal de boa vontade e oferecendo respeito a quem nos respeita e para avançar, dizemos que aqueles que não são zapatistas não serão hostilizados, perseguidos ou agredidos por iniciativa nossa. Daremos um sinal.

Em nome do Comitê Clandestino Revolucionário Indígena - Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional estou dando as seguintes ordens:

A partir de hoje, são levantados todos os postos de controle zapatistas nas estradas e nas pontes federais, estaduais e locais. E se eliminam todas as cobranças a particulares nos caminhos e nas estradas dentro dos territórios rebeldes. A violação desta disposição deverá ser relatada à respectiva Junta de Bom Governo para que, prévia confirmação, seja devolvido o dinheiro ao interessado e se puna a pessoa ou autoridade que cometeu o erro.

Serão revistados somente os veículos que podem estar transportando ilegalmente madeira, drogas ou armas, cujo trânsito é terminantemente proibido em terras zapatistas.

Em cumprimento às demandas das mulheres indígenas, a introdução comprovada de álcool nas comunidades poderá ser punida com o confisco da aguardente e uma multa ao dono do veículo.

Para entrar nas comunidades zapatistas são mantidos os mesmos critérios e medidas que funcionaram até agora e que respondem pelas necessárias medidas de segurança e proteção da população civil zapatista.

Esta é a nossa palavra.

Democracia! Liberdade! Justiça!

Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Pelo Comitê Clandestino Revolucionário Indígena - Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional.

México, 9 de agosto de 2003.

Muito obrigado.
Palavras da Comandante Rosilda.

Muito boas tardes a todos os companheiros e companheiras bases de apoio, homens, mulheres, crianças, jovens, anciãos de todos os povoados e de todos os municípios das regiões zapatistas.

Companheiros e companheiras, hoje estamos reunidos aqui, neste lugar de concentração, e quero dizer-lhes algumas palavras.

Hoje, mais uma vez, estamos demonstrando que nós, que estamos aqui e também os que não puderam chegar, somos fortes para lutar.

Sabemos que já temos resistido dez anos nesta luta. Mesmo que tenhamos sofrido, mas somos dispostos sim a continuar lutando porque sabemos que podemos conseguir.

Todos os municípios e comunidades zapatistas têm demonstrado isso durante dez anos e se vê que são bons, são pra valer, porque sabem lutar e resistir. E devemos continuar demonstrando a nossa luta e a nossa resistência. Sabemos que o mau governo quer nos derrotar, mas não pode, porque nós zapatistas já sabemos como organizar e trabalhar. Se vê que temos a força para continuar lutando por nossos direitos e para construir a nossa autonomia.

Por isso, quero dizer a todos os companheiros e companheiras de todas as áreas zapatistas, de todos os povoados e cidades de todo o México e do mundo, que não desanimem, que não se assustem com as ameaças e a perseguição dos maus governos, porque a nossa luta e a nossa resistência têm crescido muito. Há companheiros e companheiras pelo mundo todo.

Agora, a nossa principal arma de luta é a nossa resistência e a nossa organização de todos os povoados. Por isso, estamos aprendendo a construir a nossa autonomia. Sabemos formar nossos municípios autônomos por toda parte e já temos também as Juntas de Bom Governo. Com isso, já demos mais um passo. Por isso, é o momento de agir com vontade. É este o tempo de colocar mais vontade em todos os trabalhos porque, assim, avançamos no fazer a nossa resistência e no construir a nossa autonomia.

O mau governo não liga pra nós. Daí que fique com suas tolices. Porque o mau governo nunca vai nos deixar. A única forma de alcançar o que precisamos é organizando-nos bem, somos fortes em nossa resistência em nossos municípios autônomos. Mas para que se possam fazer estes trabalhos é necessário que todos participemos, que todos nos empenhemos. Que nós mulheres não fiquemos para trás. Só assim podemos fazer triunfar a nossa luta.

É tudo.

Democracia! Liberdade! Justiça!

Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Pelo Comitê Clandestino Revolucionário Indígena - Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional.

México, 9 de agosto de 2003.

Muito obrigada, companheiros.

1.9.03

Palavras do Comandante Zebedeo.

Irmãos e irmãs, companheiros e companheiras:

Depois de tantos rumores de que o EZLN já estava acabado, como podem ver, estamos aqui outra vez na mesma luta, melhorando os caminhos da resistência.

No passado século XX, fizeram uma maquiagem para fazer-nos crer que havia ficado para trás o tempo da miséria, da pobreza, do paternalismo, da escravidão e da Santa Inquisição. Hoje, os sofrimentos de grande parte da sociedade civil são os mesmos. Vimos a chegada do novo século com o mesmo conteúdo brutal do passado.

Nestes tempos de globalização, estão aplicando de outra maneira a nova Santa Inquisição. Hoje, os pecados dos povos pobres não são pagos com o chicote; estamos pagando com armas sofisticadas, especialmente fabricadas para enfrentar os que se rebelam contra os planos da globalização, contra a invasão; por isso, pagamos todos, incluídas as crianças e os anciãos.

A globalização, com seus tratados de livre comércio, a Organização Mundial do Comércio e a Área de Livre Comércio das Américas constituem implementos e elementos para a extinção do patrimônio de cada país, da soberania e da cultura. Diante desta guerra e da ameaça que a globalização faz a nível mundial, não podemos nos fazer de desentendidos quanto ao fato de que o que se busca é a humilhação e a submissão. Esta situação é tão fácil que pode ser entendida até por um analfabeto.

Conseqüência do mal, ou seja, do parasitismo em relação à sociedade civil mundial, é que, a cada dia, há pobres cada vez mais pobres e aumentam de número os milhões de desempregados, mutilados de qualquer esperança. Esta globalização veio graças a um plano engenhoso, mas, diante dele, os povos do mundo estão aprendendo a resistir e a organizar-se para parar a dominação e a invasão.

Já se lê e já se vêem povos do mundo que têm deixado de serem expectadores. Conforme o tempo passa, vão se tornando atores importantes para construir um mundo onde caibam muitos mundos. Como já é mundialmente conhecido, a guerra dos maus governos da globalização tem levado a morte e a destruição muito longe daqui, para um lugar que foi rico em cultura e história da humanidade.

Lá, o povo do Iraque está demonstrando que a questão não é trocar os tiranos locais por tiranos estrangeiros, mas sim, unir a democracia e a justiça com a liberdade, a soberania e a independência. Resistindo a cada dia, o povo iraquiano derruba a já frágil estátua do triunfo militar britânico e estadunidense.

Queremos repetir também uma saudação que demos antes. A saudação à luta política e cultural do povo basco. E o repito claramente: à luta política e cultural do povo basco, porque logo alguns jornalistas põem sua mentira de que apoiamos a ETA e até um cantor de rock bobo diz isso. Assim, saudamos a luta política e cultural do povo basco.

Mais ainda agora que qualquer pessoa deste país é perseguida, hostilizada e desprezada em qualquer lugar do mundo. Sabemos que para este povo os tempos são difíceis, mas sabemos também que saberão resistir e serem criativos para ir adiante. Nós não podemos fazer muito, mas repetimos também com esperança o “GORA EUSKAL HERRIA” que nunca se apaga, nem sequer nas prisões e nas salas de tortura do governo espanhol, e o dizemos bem forte para que seja ouvido por este sujeito (o juiz Baltasar Garzón) que agora está tirando férias do seu trabalho de fechar jornais e colocar organizações políticas na ilegalidade.

E agora a nossa palavra vai até à Europa, até à França. Neste momento, queremos mandar uma saudação zapatista aos irmãos e irmãs da França que, nestes instantes, encontram-se reunidos num lugar chamado Lês Places, em Larzac. Lá, há irmãos camponeses franceses que lutam contra a globalização da fome, dos cultivos transgênicos e contra a guerra do poder.

Saudamos os Coletivos Sudoeste de Solidariedade com Chiapas (Cariége, Bordeaux, Lot, Pavolorón, Tarn e Toulouse); a rede Mut-Vitz o sudoeste, a Americasol, o Comitê de Apoio aos Povos de Chiapas em Luta, Paris, a Associação Construir um Mundo Solidário, a Confederação Camponesa Nacional e todas as organizações que lá se encontram reunidas. Não sabemos se estão nos ouvindo neste momento, mas tenho certeza de que, apesar de tão longe, sentirão o abraço que os menores de seus irmãos, nós zapatistas, mandamos a eles.

E, mais pra cá, a sudeste do nosso sudeste, da Argentina digna chegam ventos de apoio e esperança. Respondemos a eles com o humilde vento que somos e o nosso abraço cruza a América Latina inteira para nada mais dizer que se entenda só com as palavras “irmãos e irmãs”.

E no Caribe há um povo que está no alvo da guerra de conquista mundial, o povo de Cuba. Para este povo vai a nossa admiração e o nosso respeito que, pequenos que somos, nada mais podemos fazer.

Sabemos que os planos para atacar a ilha de Cuba não são de mentira. Mas, tampouco, é de mentira a decisão deste povo de resistir e decidir, sem ingerências estrangeiras, o seu destino, que outra coisa não é a não ser a soberania.

Irmãos e irmãs:

Há no mundo um país de gente nobre e boa. Também neste país o mal governa, mas, em baixo, a dignidade rebelde fala italiano e pensa no futuro. Os novos mundos que lá e aqui se constroem aprendem juntos a dizer “Fratelli” e “Hermanos”, que em italiano e castelhano querem dizer o mesmo, ou seja, “amanhã”.

E agora queremos mandar uma saudação especial ao povo da América do Norte, que se levantou dos escombros das torres gêmeas de Nova Iorque para opor-se a uma guerra movida por interesses econômicos, e escondida na dor e na coragem provadas pelos atentados de 11 de setembro de 2001. E queremos mandar um abraço muito grande, tão grande quanto a nossa esperança, aos irmãos mexicanos que sofrem e trabalham em terra estrangeira, não porque queiram, mas sim porque a espoliação neoliberal os tirou de suas terras. Saudamos, pois, o sangue mexicano que pulsa acima do Rio Bravo.

Queremos dizer que, nos próximos dias, haverá uma reunião muito importante em Cancun, México. E não estamos nos referindo à reunião da Organização Mundial do Comércio, este organismo que comanda a nova guerra mundial contra a humanidade. Não. Estamos falando da reunião que terão pessoas de todo o planeta para repetir o “não” ao mundo excludente do dinheiro e afirmar que outro mundo é possível.

Conforme sabemos, de 1 a 7 de setembro, haverá ma reunião sobre meios e tecnologias alternativas, de 8 a 9 um fórum camponês e no dia 9 de setembro, daqui a um mês, haverá mobilizações em Cancun e no mundo todo contra aqueles que se acham os donos do planeta. Em setembro, a Cancun e ao mundo, irá a palavra dos zapatistas de acordo com uma forma que estamos pra decidir.

Irmãos e irmãs:

Também queremos saudar e abraçar com carinho especial e admiração todos os mundos que existem no mundo. Não conhecemos os países, mas conhecemos algumas pessoas das que neles lutam, e através de suas palavras e ações temos aprendido que a dignidade e a rebeldia não têm a ver com as bandeiras, os idiomas, os tipos de moedas e os passaportes.

A estes mundos diferentes dizemos daqui, das montanhas do sudeste mexicanos, que não estão sós.

Irmãos e irmãs:

Deixemos para trás o racismo e a exclusão, vejamos um caminho comum que nos leve à esperança de uma vida mais humana. Para construir este mundo novo é importante que todos nós, homens e mulheres, nos tornamos filhos da rebeldia e da resistência, e como recompensa conscientizemo-nos de que iremos estrear os modernos presídios construídos pelos chamados governos.

Isso quer dizer que, então, não é para perder de vista o monstro global mundial. Estas têm sido nossas palavras e o que segue é dançar e lutar.

Viva a resistência mundial!

Viva a rebeldia mundial!

Vivam os povos pobres do mundo!

De Oventik, Caracol “Resistência e Rebeldia pela Humanidade”

Pelo Comitê Clandestino Revolucionário Indígena – Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional.

México, 9 de agosto de 2003.
Palavras do Comandante Tacho aos camponeses do México.

Irmãos e irmãs camponeses do México:

A grave situação de nós, camponeses do México, é cada vez mais crítica.

Nós, que integramos o Exército Zapatista de Libertação Nacional, nos dirigimos a todos e a todas vocês que são os legítimos donos das terras que fazem produzir.

Irmãos, na história do nosso país, o México, nosso trabalho, nossa produção, nossas terras, não foram poucas as vezes em que foi feito um reconhecimento público da importância da nossa produção, resultado do nosso trabalho, suor e esforço.

Nós camponeses temos ocupado e continuamos ocupando um lugar importante em tudo o que produzimos por sua importância fundamental na vida alimentar do povo mexicano.

A desonestidade dos maus governos do passado e dos que temos não reconheceu a importância do trabalho dos camponeses. Estes maus governo têm feito tudo o que é contrário e têm se burlado de nós.

Nós camponeses temos sido desapropriados de nossas terras através de ordens judiciais, policiais e até através do Exército federal mexicano.

Têm seqüestrado nossos bens através de créditos e de taxas de juro muito elevadas. Têm tratado de nos tirar até aquilo que nunca nos deram. Tudo o que têm feito contra nós é para deixar contentes e garantir o que interessa aos ricos.

Burlaram-se e continuam se burlando de nós que somos camponeses.

Estes maus governos sabem muito bem que o reconhecimento do lugar que ocupamos com a nossa produção pertence a nós, os camponeses produtores, porque somos nós que sabemos quanto custa fazer a terra produzir.

Somos nós que merecemos viajar para outros países irmãos para pedir a sua ajuda para melhorar nossa produção, porque temos conhecimentos avançados quanto à produção do campo.

E não as grandes mentiras que os governos têm se afanado em dizer e continuam dizendo com mentiras e enganações em outros países, dizendo que no México não há pobreza, que não há desemprego, que são um governo do povo. Nós camponeses sabemos que estas não passam de mentiras.

Irmãos camponeses, nestes últimos anos os maus governos têm sempre tratado de enganar o povo e, sobretudo, têm tratado de deixar os camponeses conformados através de coisas miseráveis como o PROCAMPO, de coisas raquíticas como o PROGRESA, ou com as desprestigiadas barracas de camelô.

Com toda esta forma de enganar, de burlar, de incapacidade, não têm sido resolvidos os problemas de fundo dos camponeses. O que interessa a estes governos é encher seus bolsos e serem cada vez mais ricos às custas de nós camponeses, e, por isso, somos obrigados a lutar diante da falta de atenção para com os camponeses e com o campo.

Têm agido assim desde que o traidor da pátria Carlos Salinas de Gortari reformou o artigo 27 da Constituição desprotegendo os camponeses.Porque antes se dava proteção aos camponeses em todos os sentidos da vida camponesa e das nossas terras.

Esta reforma significa tudo o que vai beneficiar os interesses dos ricos para que, com a crescente pobreza, nos pressionem para vender aos ricos as terras ejidais e nós camponeses sejamos escravos em nossas próprias terras.

Hoje, nós camponeses dizemos aos que permitiram a venda de terras ejidais através desta lei que, para nós camponeses, a terra é nossa mãe e a mãe não se vende. E para os que permitiram a venda da terra através das leis, que estes não têm mãe.

Diante dos baixos preços dos nossos produtos, provocados pelos maus governos de Salinas, Zedillo e Fox, a nossa situação e as condições de vida têm ido piorando.

Além disso, nós camponeses precisamos de ferramentas para trabalhar, insumos e outros materiais necessários para produzir são cada vez mais caros e não dá para comprar o mínimo necessário.

Irmãos camponeses, a nossa situação é cada vez mais grave. O que compramos é cada vez mais caro e o que produzimos é cada vez mais barato. O governo Fox continua fazendo o mesmo que seus predecessores, e acontece que estes famosos governinhos se dedicam a viajar para outros países para dizer que no México podem vir outros ricos para fazer seus investimentos, que há boas condições para investir. Ou seja, estes mesmos governos estão permitindo uma pilhagem brutal do nosso país.

Mas, na televisão e na imprensa escrita, os governos dizem que os investidores vão gerar empregos, e isso é mentira, porque no México há cada vez mais desemprego, pobreza e miséria. Não há nenhum interesse do governo em melhorar o preço da nossa produção.

Foi isso que Salinas e Zedillo fizeram e nem vamos falar do senhor Fox, que segue os planos de seus predecessores e busca as condições para continuar beneficiando os interesses dos ricos mexicanos e estrangeiros e desenvolver os planos do neoliberalismo em nosso país. A falta de preocupação do governo diante do campo e dos camponeses se revela quando há uma catástrofe natural.

Nós sabemos que existem meios de combater os incêndios florestais, mas não se faz nada, ainda que digam na televisão e na imprensa que estão preparados, a verdade é que não podem apagar nem uma fagulha. O mesmo ocorre com as inundações.

Não é só que não podem, a verdade é que a eles não interessa. Não se importam com o fato de que a selva e os bosques acabem, só estão interessados em encher seus bolsos e não lhes importa que nós camponeses sejamos cada vez mais miseráveis.

Irmãos camponeses, não esperem nada de bom destes velhos tipos de governo. Só nos resta um caminho a seguir. Temos que nos organizar para defender nossas terras juntos em qualquer lugar de qualquer Estado da República Mexicana. Temos que apoiar-nos mutuamente nos problemas que temos.

Não confiem neste governo, por novo que seja, já nos deram mostra disso durante 73 anos, é a outra cara, mas continuam os mesmos.

Durante os últimos anos há mais carestia, mais desemprego, mais pobreza, preços baixos para os nossos produtos, mais misérias, mais expropriação, mais repressão, mais militarização.

Por isso, irmãos e irmãs camponeses do México, fazemos um apelo a todos e a todas para que nos unamos e nos organizemos como camponeses para defender nossas terras e lutemos juntos por melhores condições de vida. Todos nós camponeses precisamos disso, temos que lutar por nós mesmos.

Não virão de nenhum governo e de nenhum partido político as mudanças reais e dignas que atendam às necessidades do campo. O único caminho que nos deixaram é o de organizarmo-nos com a resistência e a rebeldia.

É tudo.

Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Pelo Comitê Clandestino Revolucionário Indígena – Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional.

México, 9 de agosto de 2003.
Palavras da Comandante Esther aos povos indígenas do México.

Irmãos e irmãs.

Pela minha voz fala a voz do Exército Zapatista de Libertação Nacional.

Irmãos e irmãs indígenas do povo do México:

Nós indígenas queremos dizer a vocês do nosso direito a sermos mexicanos.

Não precisamos mudar nossa cultura, nossa roupa, nossa língua, nossa forma de rezar, nossa forma de trabalhar e respeitar a terra, além do mais, não podemos deixar de ser indígenas para sermos reconhecidos como mexicanos.

Não, não podem tirar o que somos.

Somos morenos, sim. Não podem nos transformar em brancos.

Porque nossos avós resistiram mais de 500 anos ao desprezo, à humilhação e à exploração. E nós continuamos resistindo.

Não poderão mais nos humilhar e nem acabar conosco.

Os políticos traíram os povos indígenas do México.

Todos os partidos políticos, tanto o PRI, como o PAN, como o PRD, entraram em acordo para negar os nossos direitos porque não aprovaram a lei de direitos e cultura indígenas.

Quiseram nos tratar como crianças e nos calar.

Acharam que iam conseguir, mas já vêem que não conseguiram e nunca poderão fazer o que eles querem.

Agora, nós mesmos temos que exercer nossos direitos. Não precisamos da permissão de ninguém, muito menos de políticos que só estão aí para enganar o povo e roubar dinheiro.

Por isso, irmãos e irmãs indígenas do povo do México, fazemos um apelo a todos para que apliquem a lei dos Acordos de San Andrés.

Temos o direito de governar e governar-nos, de acordo com o nosso pensamento, em cada município e em cada Estado da República Mexicana.

Ninguém pode nos impedir, nem, muito menos, podem nos prender por exercer os direitos que nós merecemos.

Já é hora de aplicar e praticar em todo o México a autonomia dos povos indígenas. Ninguém deve pedir permissão para formar seus municípios autônomos. Como nós estamos fazendo e praticando, não pedimos permissão.

Ainda que o mau governo não a tenha reconhecido, para nós esta é a nossa lei e nos defendemos com ela.

Também convidamos todos vocês, irmãos e irmãs indígenas, que a façam sua e construam sua autonomia e as autoridades para que o governo do povo mexicano mande obedecendo e para defender e aplicar os Acordos de San Andrés.

Da mesma forma, fazemos um convite a todas as mulheres indígenas mexicanas a se organizarem para que, juntas, trabalhemos a autonomia e pratiquemos nosso direito que merecemos como mulheres.

Já não é tempo de calar e nem de se humilhar diante dos homens, nem de pedir o favor que nos respeitem. É hora de agirmos por nós mesmas, de obrigar os homens a respeitar nossos direitos. Porque se não fazemos isso, ninguém o fará por nós. O que nos resta agora é agir e colocar em prática entre homens e mulheres para construir e fazer avançar nossa autonomia.

Esta é a minha palavra.

Democracia! Liberdade! Justiça!

Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Pelo Comitê Clandestino Revolucionário Indígena – Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional.

México, 9 de agosto de 2003.
Comunicado do Subcomandante Marcos lido durante o encontro.

Exército Zapatista de Libertação Nacional.


México, 9 de agosto de 2003.


Às Juntas de Bom Governo Zapatista:

Aos Municípios Autônomos Rebeldes Zapatistas:

À Sociedade Civil Nacional e Internacional:


Irmãos e irmãs:

Recebam minhas saudações e as de todos os oficiais, insurgentes e milicianos de armas e serviços do nosso Exército Zapatista de Libertação Nacional.

Felicitamos vocês pelo nascimento das Juntas de Bom Governo. São um avanço muito importante na nossa luta pelo reconhecimento dos direitos e da cultura indígena no México e uma boa forma de tratar de resolver os problemas existentes. E felicitamos todos vocês porque este avanço tem sido possível também pelo apoio das “sociedades civis” do México e do mundo todo.

Como vocês lembram, em julho deste ano, os Conselhos de 30 municípios autônomos rebeldes zapatistas se dirigiram ao Comitê Clandestino Revolucionário Indígena – Comando Geral do EZLN para solicitar que eu fosse, temporariamente, também o seu porta-voz.

O objetivo era o de explicar à sociedade civil nacional e internacional as mudanças que foram se gestando durante nove meses em território rebelde e que hoje são uma realidade.

Vemos agora que isso já foi um pouco explicado, que as Juntas de Bom Governo já foram formadas e estão trabalhando nos primeiros Caracóis da resistência que hoje nascem em território rebelde. Tenho certeza de que os novos Caracóis surgirão em todo o México e no mundo, porque nós zapatistas, agora, pintamos Caracóis diante do Poder.

Acreditamos que, como EZLN, já cumprimos a parte que nos cabia nestas mudanças.

Estivemos levando os Caracóis, temos construído as casas das Juntas de Bom Governo e tratamos de explicar um pouco as mudanças.

Assim, devolvo agora a vocês o ouvido, a voz e o olhar. A partir de agora, tudo o que se refere aos Municípios Autônomos Rebeldes Zapatistas será comunicado por suas autoridades e pelas Juntas de Bom Governo, e com elas deverão ser tratados também os assuntos dos municípios autônomos tais como projetos, visitas, cooperativas, conflitos, etcétera.

O Exército Zapatista de Libertação Nacional não pode ser a voz de quem manda, ou seja, do governo, ainda que quem manda, mande obedecendo e seja um bom governo.

O EZLN fala pelos de baixo, pelos governados, pelos povos zapatistas que são seu coração e seu sangue, seu pensamento e seu caminho.

Nós estaremos de prontidão para defendê-los, que é por isso que somos Exército Zapatista, o Votán-Zapata, o guardião e o coração do povo. Assim, a partir de agora, não serei mais porta-voz dos municípios autônomos rebeldes zapatistas. Eles já têm quem fale, e bem, por eles.

Em meu papel de comandante militar das tropas zapatistas, comunico a vocês que, a partir de agora, os Conselhos Autônomos não poderão recorrer às forças milicianas pelos trabalhos de governo. Deverão, portanto, esforçar-se em fazer como devem fazer todos os bons governos, ou seja, recorrer à razão e não à força para governar.

Os exércitos devem ser usados para defender, não para governar. O trabalho de um exército não é o de ser polícia ou uma repartição do ministério público. De conseqüência, como lhes será comunicado por nossos comandantes, serão retirados todos os bloqueios e postos de controle que, sob a autoridade autônoma, nossas forças mantinham nos caminhos e nas estradas, bem como a cobrança de impostos a particulares.

A partir de agora, os bloqueios e postos de controle serão instalados somente nos casos de alerta vermelho.

Continua sendo nosso trabalho e nosso dever proteger as comunidades das agressões do mau governo, dos paramilitares e de todos aqueles que queiram lhes fazer mal. Para isso nascemos, para isso vivemos e para isso estamos dispostos a morrer.

Não preciso lhes dizer que, no México e no mundo, há muitas pessoas boas que estão vendo vocês. No olhar delas há respeito e esperança. Respeito, porque vocês têm avançado quando todos acreditavam que estávamos derrotados, porque, apesar de serem perseguidos pelas armas e a mentira, têm construído um bom governo. E esperança porque, diante dos governos e dos políticos que só enganam e roubam, vocês podem ser o bom exemplo do mandar obedecendo.

Pedimos a vocês que trabalhem com bom pensamento para que nunca percam este respeito e sempre alimentem esta esperança.

Por último, digo a vocês que para mim foi uma grande honra ter sido seu porta-voz.

É toda a minha palavra e espero minha crítica ou o que forem me dizer.

Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Subcomandante Insurgente Marcos.

México, agosto de 2003.
Palavras de boas-vindas a Oventik do Comandante David.

Boas tardes a todos e a todas.

Companheiros e companheiras bases de apoio de todos os territórios rebeldes zapatistas presentes neste histórico evento.

Companheiros e companheiras integrantes dos Conselhos Autônomos de todos os Municípios Autônomos.

Companheiros e companheiras dirigentes de todos os povoados e regiões.

Companheiros e companheiras da Frente Zapatista de Libertação Nacional.

Irmãos e irmãs da sociedade civil nacional e internacional.

Irmãos e irmãs da imprensa nacional e internacional.

Irmãos todos:

Em nome do Comitê Clandestino Revolucionário Indígena – Comando geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional, damos a vocês as boas-vindas neste lugar de encontro de todos os mundos. Um dos lugares dignos da nossa pátria, hoje chamado Caracol da Resistência e da Rebeldia pela Humanidade, Oventik, Município de San Andrés Sakamchén de los Pobres, Chiapas, México.

Desejamos de todo coração que possam se sentir em sua casa. Esta é a casa e o lugar de todos os que sonham com um mundo mais justo e mais humano, onde todos possam ter um lugar digno até o fim de sua existência.

Boas-vindas a todos e a todas.

Muito Obrigado.

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