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Textos do Exército Zapatista de Libertação Nacional, do seu Sub[p]Comandante Insurgente Marcos e demais membros do Comité Clandestino Revolucionário Indígena - Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional

29.8.04

Ler um vídeo.

Segunda Parte: duas falhas.

Bom, é verdade, estou sendo generoso demais com o espelho. Mas não me refiro só ao fato de que só tenhamos tido duas falhas, erros ou faltas ("falhos" dizem por estas bandas) no primeiro ano de atividade dos caracóis e das Juntas de Bom Governo, mas sim que se trata de duas faltas que já parecem ser crônicas na nossa ação política (e que contradizem flagrantemente nossos princípios): a posição das mulheres, de um lado, e, do outro, a relação da estrutura político-militar com os governos autônomos.

Quem esteve em contato com os caracóis ou com as Juntas de Bom Governo deve ter muitas mais, mas uma parte delas se deve à dinâmica da resistência, outra é de erros que, pelo menos como tendência, já estão em processo de solução, e outra parte ainda é de erros que não o são (ou seja, são ações propositais).

Há outros erros que não tenho certeza se devam a algo que tenha a ver com a guerra, a resistência, a clandestinidade. Entre eles, há, por exemplo, nossa tradicional falta de cortesia. É comum que quem chegue aos caracóis e tente falar com a Junta de Bom Governo, passe um bom tempo esperando para ver se será recebido ou não. Também é freqüente que se mandem perguntas e as respostas não cheguem ("deveriam ao menos se dar ao trabalho de responder que não vão responder", suplicava-resmungava uma sociedade civil).

Pode parecer engraçado, mas para alguém que às vezes cruzou um oceano (e não metaforicamente) para chegar em nossos solos, não tem graça nenhuma não ser recebido. Eu acredito que é o "jeito" daqui, mas já está sendo resolvido; agora há uma comissão que, enquanto a Junta de Bom Governo se prepara, atende quem chegar (sempre e quando não se trate do governo federal). Contudo, o funcionamento da chamada "comissão de recepção" (formada quase sempre por membros do CCRI) não tem sido igual em todos os caracóis e mais de um ou uma "sociedade civil" tem ficado esperando. Mas, acreditem, estamos atentos a que isso não volte a acontecer... pelo menos não com tanta freqüência.

Por outro lado, se deve entender que estamos num movimento, em rebeldia e resistência. Se a isso acrescentamos várias gerações vítimas de enganos e traições, é possível compreender a desconfiança natural diante dos novos visitantes e que se peçam dados e referências que ajudem a esclarecer se o recém-chegado está com boas ou más intenções. O que alguns vêem como tendências à burocratização nas JBG e nos conselhos autônomos são, na realidade, produtos da dinâmica do acossado e perseguido.

Outro erro detectado pelas "sociedades civis" e, sobretudo, pelas organizações não-governamentais que trabalham nas comunidades, não o é.

Refiro-me ao fato de que os membros das Juntas de Bom Governo mudam continuamente. Depois de "plantões" que vão de 8 a 15 dias (a depender da região) a Junta é relevada; os que estavam voltam a seus trabalhos de conselho autônomo e outras autoridades entram para dirigir a JBG.

"Quando já estamos nos entendendo com uma equipe", dizem as "sociedades civis", "a trocam por outra e devemos começar de novo; não há continuidade porque se fazem acordos com uma Junta numa semana e na seguinte já tem outra Junta diferente". Há quem não entra em detalhes e receita: "as Juntas de Bom Governo são um sem mãe".

Uma "comissão de vigilância" (equipe do CCRI encarregada de apoiar a JBG em cada região) me falava: "Estamos trabalhando muito, porque quando uma equipe começa a pegar o jeito dos trabalhos da Junta, troca-se por outra equipe e temos que começar novamente a explicar as coisas aos novos. Não só, quando já passaram todas as autoridades autônomas, zas!, troca-se o conselho e dá-lhe outra vez".

Vocês vão dizer que sou malandro, mas a verdade é que é planejado para ser assim.

Claro que o plano não é para que as Juntas sejam, para usar o termo das "sociedades civis", um sem mãe. O plano é que o trabalho da JBG aconteça em rodízio com os membros de todos os conselhos autônomos de cada região. Trata-se de fazer com que a tarefa de governar não seja exclusiva de um grupo, que não haja governantes "profissionais", que a aprendizagem seja para o maior número possível, e que se rejeite a idéia de que o governo só pode ser desempenhado por "pessoas especiais".

Assim, quase sempre acontece que quando todos os membros de um conselho autônomo já aprenderam qual é o sentido do bom governo, há novas eleições nas comunidades e mudam todas as autoridades. Aqueles que haviam aprendido voltam ao milharal e entram os novos... e se recomeça.

Analisando detidamente, se verá que se trata de todo um processo no qual povos inteiros estão aprendendo a governar.

Vantagens? Bom, uma delas é que é mais difícil que alguma autoridade use de malandragem e, argumentando o quanto é "complicada" a tarefa de governar, não informe as comunidades sobre o uso de recursos ou a tomada de decisões. Quanto mais conhecem o todo, mais difíceis serão o engano e a mentira. E maior será a vigilância que os governados exercem sobre o governante.

Também se dificulta a corrupção. Se você consegue corromper um membro da JBG, terá que corromper todas as autoridades autônomas, ou seja, todos os turnos, porque fazer um "trato" só com uma não garante nada (a corrupção também precisa de "continuidade"). Quando você acaba de corromper todos os conselhos, terá que começar de novo, porque até lá já terá ocorrido outra troca de autoridades e o que "acertou" com um não funciona mais. Assim que, praticamente, terá que corromper todos os moradores adultos das comunidades zapatistas. Ainda que, claro, é provável que quando conseguir, as crianças já terão crescido e então de novo...

Sabemos que este método dificulta a realização de alguns projetos, mas, em troca, temos uma escola de governo que, em longo prazo, dará frutos numa nova forma de fazer política. Além disso, este "erro" tem nos permitido combater a corrupção que poderia aparecer entre as autoridades.

Sei que levará tempo. Mas para aqueles que, como nós zapatistas, fazem planos para décadas, alguns anos não é muito tempo.

Outro "erro", que não o é, diz respeito ao fato de que, às vezes, procura-se a Junta de Bom Governo para pedir uma declaração de apoio a um movimento ou a uma organização e o pedido não é atendido. Ou se convida uma JBG a atos políticos e o convite é recusado. Isso não porque à Junta não interesse apoiar ou participar. Deve-se, pura e simplesmente, ao fato de que estas ações não competem à Junta de Bom Governo porque envolvem todos os povos zapatistas, não só os que estão na jurisdição de uma Junta, e as JBG não se podem arrogar representações que não lhes competem. Além disso, na maior parte das vezes, a olicitação e o convite é feito ao EZLN, mas o EZLN é uma coisa e as Juntas são outra coisa. De tal forma que não se aflijam, estamos todos aprendendo.

Contrariando o que se poderia pensar, os erros que são de nossa exclusiva responsabilidade são os mais difíceis de resolver.

No início da segunda parte do vídeo, dizia que um erro que arrastamos há muito tempo diz respeito ao lugar das mulheres. A participação das mulheres nos trabalhos de direção organizativa continua sendo pequena, e nos conselhos autônomos e nas JBG é praticamente inexistente. Mesmo não sendo uma contribuição do EZLN às comunidades, é também nossa responsabilidade.

Se nos Comitês Clandestinos Revolucionários Indígenas de região a porcentagem da participação feminina está entre 33 e 40%, nos conselhos autônomos e nas Juntas de Bom Governo anda, em média, em menos de 1%. As mulheres continuam não sendo levadas em consideração na hora de nomear comissários ejidais e agentes municipais. O trabalho de governo é ainda prerrogativa dos homens. E não é que estejamos a favor do "apoderar-se" das mulheres, tão na moda lá em cima, mas sim que na base social zapatista ainda não há espaços para que a participação feminina se veja refletida nos cargos de governo.

E não só. Apesar das mulheres zapatistas terem tido e ter um papel fundamental na resistência, em alguns casos, o respeito dos seus direitos continua sendo uma mera declaração que não sai do papel. É verdade que a violência no interior da família tem diminuído, mas é mais pelas limitações ao consumo de álcool do que por uma nova cultura familiar e de gênero.

Também se continua limitando a participação das mulheres nas atividades que implicam sair do povoado.

Não se trata de algo escrito ou explícito, mas a mulher que sai sem o seu marido ou sem seus filhos é mal vista e se pensa mal dela. E não me refiro a atividades "extrazapatistas", de cuja participação há restrições severas que incluem também os homens. Falo de cursos e encontros organizados pelo EZLN, pelas JBG, pelos municípios autônomos, pelas cooperativas de mulheres e pelos próprios povos.

É uma vergonha, mas devemos ser sinceros: ainda não podemos apresentar bons resultados a respeito da questão da mulher, da criação de condições para seu desenvolvimento de gênero, de uma nova cultura que reconheça a elas capacidades e aptidões supostamente exclusivas dos homens.

Mesmo que dê pra ver que isso vai longe, esperamos algum dia poder dizer, com satisfação, que conseguimos resolver pelo menos este aspecto do mundo.

Só por isso já valeria a pena.

O que é sim uma "contribuição" (má, com certeza) do EZLN às comunidades e ao seu processo de autonomia, é a relação da estrutura político-militar com os governos civis autônomos.

De início, a idéia que tínhamos era que o EZLN devia acompanhar e apoiar os povos na construção de sua autonomia. Contudo, o acompanhamento se transforma, às vezes, em direção, o conselho em ordem...e o apoio em estorvo.

Já havia dito antes que a estrutura hierárquica piramidal não é própria das comunidades indígenas. O fato do EZLN ser uma organização político-militar e clandestina ainda contamina processos que devem e têm que ser democráticos.

Em algumas Juntas e caracóis apareceu o fenômeno de que comandantes do CCRI tomam decisões que não competem a eles e colocam a Junta em maus lençóis. O "mandar obedecendo" é uma tendência que continua topando com as paredes que nós mesmos levantamos.

Estas duas falhas requerem nossa atenção especial e, obviamente, medidas que as bloqueiem. Não podem ser atribuídas ao cerco militar, à resistência, ao inimigo, ao neoliberalismo, aos partidos políticos, aos meios de comunicação ou ao mau humor de quando levantamos com o pé esquerdo...

É tudo. Fui o mais breve possível porque, na aceitação dos próprios erros, temos que ser tão parcos como extensos nas soluções.

Valeu. Saúde e entendo que ainda não entendam. Por isso havia iniciado com "paciência, virtude guerreira".

Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Subcomandante Insurgente Marcos.

México, agosto de 2004, 20 e 10.

P.S. Quer dizer que era melhor quando estávamos caladinhos? Seja como for, dizemos o que pensamos e sentimos. De quantas pessoas e organizações podem dizer o mesmo?

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Comunicado divulgado através do La Jornada em 21/08/2004.

27.8.04

Ler um vídeo.
Primeira parte: uma ilhota.


Com a proteção da chuva, o Sombraluz caminha em espiral, esboçando um caracol com seus passos. Entra? Sai? Vai saber. Parece que fala ou escreve a quem não está. Vejamos...

A festa acabou. Os músicos foram embora, mesmo que ainda haja um pouco de confusão. Amanhã o dia será como costuma ser neste mês: sol de vez em quando, como se, de tempos em tempos, se aproximasse só para ver o que fazemos, com as nuvens e a chuva nos escondendo de repente, como que fazendo “bolinha” sobre o mundo. Mas ainda falta para que o sol suba com seu pijama de nuvens e também falta para que estas expressem suas saudades e suspiros sobre as sombras e luzes de baixo. A festa se apaga aos pouquinhos, como quem se desculpa, como se o ruído (o blá, blá da música na lama) desse o “quem está aí” e o silêncio, calando, dissesse, “sou eu”. Aos pouquinhos também se acendem os grilos. Assim como quem ainda espera, deixa sua cintura no meu braço mais um momento. Olha para a desordem de estrelas dispersas, o céu lavando-se o rosto moreno de sombra e a lua piscando sua luz entre as nuvens. Você escuta? Já há só a serragem da noite, alguma gota de chuva chegando com evidente atraso aos telhados de zinco, um cachorro imitando a eco do seu latido com a cumplicidade de outros. Vem, caminhemos de novo, façamos do olhar um testemunho. Acende a mente, vê o que se vê e o que não se vê. Atenção! Já aparecem as primeiras letras.

Supõe-se que deveria ser uma tela, com imagem, som e um controle remoto. Supõe-se, mas não...No lugar da tela e do controle remoto aparece uma cartolina onde se lê:

O SISTEMA ZAPATISTA DE TELEVISÃO INTERGALÁTICA APRESENTA... UM VÍDEO MUUUUIIITO ESPECIAAAAAL!

O Sombraluz troca a cartolina por outra na qual se lê, agora em letras escritas a mão:

A AUSÊNCIA DE SOM E IMAGEM NESTE VÍDEO NÃO É POR FALTA DE TECNOLOGIA, MAS SIM PELA QUE SE CHAMA DE “TECNOLOGIA DA RESISTÊNCIA”.

Mmmh, quer dizer que é um vídeo sem imagens e som... A partir deste momento, o “vídeo alternativo” será apresentado em sucessivas cartolinas, com letras de diferentes tipos, tamanhos e cores. Acomode-se onde e como puder, e leia...

Naquele tempo, havia... um país chamado México

Provavelmente, as futuras gerações de mexicanos não saberão disso (graças a uma criminosa reforma do sistema educativo do segundo grau), mas a lenda cultural da fundação que dá origem à Nação Mexicana não tem nada a ver com a mestiçagem. Tampouco se relaciona com a brutal conquista espanhola, nem com as guerras invasoras, abertas ou disfarçadas, dos vários nomes da estupidez imperial ao longo da história: Estados Unidos da América do Norte, França, Inglaterra, Alemanha.

Muito menos está associada ao estúpido decreto (cada mudança de governo) do fim da história num nome: Agustín de Iturbide, Antonio López de Santa Anna, Maximiliano de Habsburgo, Carlos Salinas de Gortari (ou o nome que venha a receber o “tenho nome, mas me conhecem como a plenitude dos tempos”).

Não, o referencial histórico, cultural e simbólico desta nação tem a ver com o indígena: sobre uma ilhota, uma águia devora uma serpente e um cacto lhe serve de pedestal. Esta imagem será escudo, bandeira, sinônimo, espelho coletivo e âncora cultural dos mexicanos desde o século XIX até este amanhecer do século XXI.

Segundo a lenda, os mexicas fundam Tenochtitlán no lugar onde encontram este sinal. O deus Huitzilpochtli (chamado também de “céu azul” e representado por um sol) teria derrotado Copil. O coração do vencido é enterrado e se transforma em cacto. Os mexicas, procedentes de Aztlán (“O Lugar das Garças), serão conhecidos então como “astecas” e, com o passar do tempo, este nome será sinônimo de “mexicanos”.

Assim que hoje, quando o vigésimo primeiro século ensaia os primeiros passos, em meio ao caos, os símbolos nos lembram que o México é fundado sobre uma ilhota. E, sobre uma ilhota, como foi ao longo de toda a sua história como nação, a mexicana enfrenta uma nova tentativa de destruição, agora com a desculpa da “modernidade”. E, como em toda a guerra, o poderoso ataca primeiro os dois objetivos principais: a verdade... e o calendário.

Uma retomada rápida das principais imagens da “vida nacional” apresentadas pelos meios de comunicação (particularmente pela televisão) provoca uma sensação de caos, anacronismo e injustiça. O calendário em vigor marca a metade do ano de 2004, mas a programação às vezes parece estar na metade do século XIX, e, às vezes, na metade do ano de 2006.

A diferença entre esquerda e direita está no fato de que uns saem em vídeo e outros não.

Alguns saldos da questão Ahumada: não só se fortalecem as qualidades histriônicas de dirigentes do Partido da Revolução Democrática (PRD), seu provincianismo fazendo fila para subir no avião privado do corruptor de maiores, sua decadência artesanal (priistas e panistas se burlavam das ligas, das bolsas – as de plástico e as do paletó – e as carteiras, como se não existissem, dizem, as finanças cibernéticas e as contas bancárias nas Ilhas Caimãs) e o método infalível de ocultar um escândalo com outro maior (o complô – à luz do sol, claro – como lavatórios da mídia).

Também devemos a Ahumada o fato de exibir um governo, o federal, preferindo o escândalo na mídia no lugar da via jurídica; estabelecer a verdadeira estatura política (de anãos) da “dupla dinâmica” (Creel e Derbez), e mostrar a fragilidade do Estado mexicano ao levar o seu governo a uma crise internacional com o governo de Cuba.

E o mais importante: o caso Ahumada foi só um tira-gosto da longa amostra com a qual a classe política destrói o calendário: 2006 será o ano mais longo da história, pois começou em janeiro de 2004. Não foi o afã de justiça ou a busca da verdade a motivar a saída à luz pública das tramóias de Carlos Ahumada, “produtor de vídeos de vocação” (disse Monsiváis). A razão foi a de atingir a imagem pública de López Obrador.

No que diz respeito à corrupção, as cenas exibidas e ocultadas pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI) não ficariam atrás no rating. No chamado Pemexgate abundam as provas jurídicas, mas falta o vídeo. Na guerra suja de Díaz Ordaz-Echeverría-López Portillo-De la Madrid-Salinas de Gortari-Zedillo há evidências incriminatórias, mas a justiça determinou que passasse antes do horário nobre. Nas fraudes eleitorais há certezas, mas não há réu no banco dos acusados. Na corrupção transformada em governo há seguranças legais, mas não podem ser usadas como slogan eleitoral.

E o Partido da Ação Nacional (PAN) disputa o seu lugar na programação. O de Vamos México, a Loteria Nacional e o desvio de fundos públicos para a Provida, foram, nos esclarecem apressados, um problema de relações públicas e de “imprensa má”.

Muito a contragosto, os três principais partidos políticos do México disputam entre si o papel de protagonista no escândalo com a mesma força com a qual antes disputavam os votos. Parece que ninguém faz o favor de informá-los, mas a crise do estado mexicano é também, e, sobretudo, a crise da classe política. Se a disputa eleitoral de 2006 foi adiantada para 2004 não é pelas urgências nacionais, é porque o verbo “madrugar” não se conjuga só nas intermináveis coletivas de imprensa.

A diferença entre o passado e o futuro está no fato de que o primeiro já foi ao confessionário.

Se, às vezes, a luta pelo poder nos coloca anos adiante, a direita realmente existente cumpre sua tarefa e nos situa décadas e séculos atrás.

Campeã da dupla moral, a direita pretende impor à sociedade mexicana um sistema de valores baseado no sectarismo no lugar da inclusão, na filosofia das telenovelas no lugar do conhecimento científico, na intolerância no lugar do respeito ao diferente, no racismo no lugar dos valores humanos, na esmola no lugar da justiça, no closet no lugar da liberdade manifesta, na hipocrisia no lugar da honestidade. Em suma: na Idade Média, mas com Internet e televisão de alta definição.

Se alguém acha que a direita só tem o âmbito cultural como espaço de ação política, e que aí ela não fez outra coisa a não ser colher derrotas (qualquer evento ou ato que seja vetado pela direita confessional tem sucesso garantido), ou que só se encontram no PAN e nas hierarquias retrógradas da Igreja católica, não deixa de ser ingênuo... e irresponsável.

Dos Legionários de Cristo ao Yunque, passando por Opus Dei e Provida, a direita não se contenta em conquistar “corações e mentes”. Conquista espaços de poder, recruta e treina grupos paramilitares, e dirige (às vezes com cinismo e às vezes às escondidas) setores políticos, empresariais, de mídia e sociais.

Em suma, a direita cresce, se reproduz e não morre.

E isso não é tudo. A direita faz reviver, com a cumplicidade desse ilustre oportunista que é o reitor da Universidade Nacional Autônoma do México, UNAM, (e pré-candidato à presidência da República), Juan Ramón de la Fuente, os grupos de bate-paus da universidade.

No recente assassinato do jovem estudante da UNAM, Noel Pavel González, a mão ensangüentada do grupo direitista Yunque só consegue se esconder pela cumplicidade da Procuradoria Geral de Justiça do Distrito Federal (de filiação perredista e supostamente de esquerda) que, além de sair diariamente no rádio, na televisão e nos jornais, distribui “suicídios” como se fossem boletins de imprensa.

Junto a Pavel e sua família, esperam também Digna Ochoa e seus próximos. Enfrentam amargamente o que muitos calam: a alquimia que apresenta mentiras como verdades jurídicas.

Vendo as ações dos governantes, pode-se ver que se antes a luta entre os partidos era pelo “centro”, agora disputam a direita sem reserva nenhuma.

Claro que, além da tendência à corrupção e ao autoritarismo, os políticos partilham outra coisa: o culto à mídia.

A diferença entre a democracia e o rating está na...na...na... há diferença?

As mudanças políticas no México do final do século XX e início do século XXI podem ser apreciadas na relação entre o governo e os meios de comunicação. Na época “dourada” do priismo (a “pré-modernidade”, dizem alguns) o então partido único, além do mais, governava. A “modernidade” trouxe algumas mudanças à mídia, e foi preciso governar COM os meios de comunicação. Em pouco tempo, a importância da comunicação cresceu e o poder político passou a ser governado PELA mídia. E agora, com a “pós-modernidade”, SÃO os meios de comunicação que governam e os políticos são só o elenco que não só se sujeita às regras do espetáculo, mas também aos temas que são definidos pela televisão, pelo rádio e pela imprensa escrita (nesta ordem e neste horário).

Uma obviedade: a agenda nacional (que é o que importa e urge na Nação, como se deve expor, como se deve resolver, com que método, com que hierarquia e em que tempo, enfim, a agenda dos principais problemas nacionais) já não é decidida nos círculos exclusivos da classe política (que é aonde se fazia), nem muito menos lá em baixo, na população (que é aonde não tem sido feito e se deveria fazer), mas sim nas direções das grandes empresas de comunicação.

Se antes a imprensa televisiva, radiofônica e escrita estava majoritariamente sujeita aos grilhões de um sistema político autoritário, agora, pelas lutas sociais e pelo próprio mérito do grêmio jornalístico, existe uma relativa liberdade (atacada de tal forma que a do jornalista deveria ser qualificada como uma profissão “de alto risco”) para abordar temas que antes nem dava pra pensar, e para fazer isso com criatividade, engenhosidade, espírito crítico e profundidade (mesmo que não freqüente). Porque temos que saudar o jornalismo comprometido (que existe) que não titubeia em enfrentar o poder ao dar uma notícia, fazer uma reportagem ou elaborar uma crônica.

Contudo, este jornalismo comprometido, ao elevar sua importância e sua autoridade moral, atrai o olhar do poder. Os políticos procuraram cativá-lo com galanteios mais ou menos sofisticados. Mas, à diferença dos políticos, os jornalistas não são bobos e perceberam logo que os políticos não faziam nem idéia do que estava acontecendo na realidade. Houve assim aqueles que se mantiveram e se mantêm diante do poder, e outros que se puseram e se põe no poder. São estes últimos que se autodefinem “porta-vozes da sociedade”.

A “opinião pública” é o disfarce com o qual os meios de comunicação apresentam seus critérios particulares e de grupo como se fossem de toda a população. Paulatinamente, os noticiários e as “mesas dos comentaristas” foram substituindo a democracia (governo do povo, para o povo e pelo povo), incluindo a eleitoral. Em breve, os cargos que dependem de eleição popular serão decididos por chamadas de auditório e não pelos votos (no lugar do bolo, do refrigerante e do gorro ou da camiseta da carreata pré-moderna, se imprimirá 40 vezes a sua ficha para participar de uma visita guiada ao circo de San Lázaro).

Não se trata de um ato perverso, um bom número de jornalistas, colunistas políticos e comentaristas são de gente honesta, com visão crítica e realmente preocupada com os problemas sociais. Por alguma coisa ganham o respeito dos expectadores, ouvintes e leitores. Ma há aqueles que nem são jornalistas, e sua visão é a de um grupo pequeno, em situação privilegiada e que vê o problema de fora... e de cima.

Numa situação na qual o governo não governa, a crescente importância do jornalista o põe a caminhar na estreita linha que separa a ética do cinismo. Diante do espelho, cada um sabe quem é.

O papel transcendente do jornalismo tem sido “seqüestrado” pelos monopólios da mídia. O rating dos meios de comunicação, conseguido por seus jornalistas e não pelos anunciantes, é colocado a serviço do marketing político, sobretudo nos períodos eleitorais (e agora todo o calendário é eleitoral, até mesmo quando não há eleições). Desta forma, a imagem publicitária substitui os princípios e os programas políticos, se transforma no aspecto mais relevante e, não poucas vezes, “puxa” todo o partido político, que se “veste” com a roupa do “mais popular” (o PAN fez isso com Fox, o PRD faz o mesmo com López Obrador, e o PRI...o PRI...bom, vai logo encontrar alguém).

Resumindo: a diferença entre a “pré-modernidade” e a “pós-modernidade” está no fato de que na primeira os políticos tinham quem lhes escrevesse os discursos, e na segunda têm quem lhes faz as inserções publicitárias.

Contudo, o abraço da mídia e da classe política pode ser mortal... para os meios de comunicação. Embriagados pela interlocução privilegiada que têm com o poder político, os jornalistas o tomam como único destinatário e esquecem sua ação social. Não vai demorar o tempo em que os noticiários serão só vistos, ouvidos ou lidos por outros jornalistas (lamento informar-lhes que os políticos não vêem, não lêem e nem escutam as notícias, eles têm um encarregado ou encarregada de lhes fazer um resumo). Como os políticos prescindem dos governados, os meios de comunicação prescindirão do auditório. Tanto uns quanto outros se felicitarão e, vendo-se no espelho do outro, se dirão “Como somos importantes!”.

A diferença entre um meio de comunicação progressista e um fascista está em como falam de eu, mim, me, comigo...

A Marcha contra a Delinqüência, chamada por muitos de “histórica” (mesmo mantendo esta honra só por alguns dias, porque a renúncia de Durazo a mandou, como dizemos nós jornalistas, “para as páginas internas”), provocou uma espécie de debate (na realidade, foi uma intensa troca de adjetivos) sobre o papel dos meios de comunicação.

Depois de ameaçar com a insurreição popular o que considera abertamente injusto, arbitrário e ilegal processo de afastamento contra López Obrador, o PRD e os setores afins se sentiram indignados pela convocação da chamada “Marcha do Silêncio”. E mais ainda, quando a mobilização foi um sucesso no que se refere à participação... da classe acomodada. Tanto tempo cortejando este setor (Giuliani, os “segundos andares”, o Centro Histórico da Cidade do México, o auge urbanístico em Santa Fé, a “Houston” do ocidente do DF) e acontece que o ingrato se mobiliza para protestar pela insegurança.

A marcha acontece e a direita, sempre pronta a capitalizar o que a esquerda abandona, monta nela (sem frutos, como se viu depois). Os meios de comunicação se unem. De fato, a imensa maioria dos participantes se faz presente convocada pela televisão, pelo rádio, pela imprensa escrita. Há meios de comunicação que fazem isso porque entendem que é um tour de force contra López Obrador e querem “domá-lo”, e há outros que fazem isso simplesmente por coerência, e tomam como destinatários os governos federal, estaduais e municipais.

Boa parte dos participantes pertencia aos setores privilegiados da sociedade mexicana (as ruas próximas à Reforma e no Centro Histórico cheias de carros com motoristas e guarda-costas aborrecendo-se na espera, dezenas de ônibus de escolas particulares estacionados, restaurantes de luxo repletos antes, durante e depois da marcha; como alguém me disse: “era um centro comercial, mas tamanho gigante”). Claro que também ouve esta tradição muito mexicana que se chama carreata e “passar a lista” (as grandes lojas de departamentos dos centros comerciais “exortaram” seus empregados a participarem). Mas, quanto às reivindicações, ficou muito longe de ser uma marcha de direita. Não se mobilizaram contra as expropriações de empresas privadas, ou contra os impostos sobre os artigos de luxo, ou contra leis que obriguem as empresas a pagarem salários justos, ou contra o fato de apoiar com o petróleo o governo de Cuba, ou para derrubar um governo “vermelhinho”. Manifestaram-se porque sofrem pela criminalidade. Não era exatamente o populacho, mas, então?, que os assaltem, seqüestrem e que os matem por serem bonitos(as)?

Durante anos o PRD temeu as ruas. Toda manifestação que não fosse de apoio ao seu partido ou a seus dirigentes era vista com receio. A satanização do movimento estudantil da UNAM em 1999 (porque não o dirigia), e anos e anos desmantelando organizações sociais, e acontece que a rua é tomada por esses que se tratou de adular: os que têm e podem.

Por sua vez, os meios de comunicação foram os primeiros a se surpreender pelo sucesso da marcha. Televisa só se atinou a fazer uma mesa redonda com o tema “E o que vem depois da marcha?”, e a pedir aos três porquinhos (Fernández de Cevallos, Jackson e Ortega) que se comprometessem a fazer acordos para resolver o problema da falta de segurança. A estas alturas do partido esperar algo dessa gente! É como acreditar nos óvnis...

Não são poucas as vezes em que a mídia tem entrado em confrontação com o governo da Cidade do México. A divulgação dos vídeos do caso Ahumada e as reportagens sobre o tema da insegurança são alguns exemplos. A “Marcha do Silêncio” serviu para exacerbar os ânimos. Daí a chamar alguns meios de comunicação, sobretudo a Televisa, como “a negra mão do fascismo”, era só um passo...e este foi dado de imediato.

Contudo, uma leitura atenta de alguns meios de comunicação serve para traçar as dimensões: Crônica, o jornal “preferido” de López Obrador, vem insistindo há pelo menos dois mandatos no que agora é o PRI a reivindicar: que não se brigue nos meios de comunicação, mas sim nos tribunais. Reforma, outro jornal muito “apreciado” pela AMLO, tem documentado a corrupção de todo o espectro político, não só do PRD. El Universal mantém um quadro digno de repórteres e comentaristas. La Jornada não abandona seu compromisso popular (que já completa quase 20 anos) e é o meio de comunicação mais consultado pela audiência cibernética. Nos dias após a marcha, Televisa, em seus noticiários, seguiu e abundou nas denúncias de López Obrador contra as vendas do Banamex e do Bancomer. Semanas depois, repórteres da Televisa investigaram o desvio de recursos, originalmente destinados ao combate da AIDS, para a organização direitista Provida, e documentaram a prática de abortos clandestinos em clínicas desta organização que, supostamente, é contra o aborto. E há mais casos do que espaço.

No outro extremo, Televisa fez uma reportagem grosseira e ridícula do casamento da jornalista Letizia com um membro da realeza espanhola (perdão, não lembro do nome, talvez na latrina...), usando meios que não dedicou aos atentados do 11 de março. Ou se fez eco ao conto para boi dormir dos óvnis supostamente avistados pela Força Aérea Mexicana. Além disso, num de seus especiais dedicados aos flanelinhas, encabeçou a moda perigosa de incriminar a pobreza. Aí os flanelinhas, limpadores de pára-brisas e vendedores dos cruzamentos foram apresentados como se a maioria ou todos fossem seqüestradores e assaltantes. Claro que, acusando ter recebido o recado, o senhor Ebrard (que, se não me engano, é chefe de polícia da “Cidade da Esperança”) dedica agora seus esforços a perseguir e penalizar a pobreza. Passa-se então do combate à delinqüência a combater os pobres...e mais uma vez a adular um setor.

Assim não parece nem uma coisa nem outra. Nem a Televisa e os demais meios eletrônicos e impressos representam o avanço do fascismo no México, como denuncia o PRD. Nem tampouco a Televisa e os demais meios eletrônicos e impressos são a “vanguarda da democratização” social e da mídia, como se autodenominam locutores, comentaristas e editores. Da mesma forma, o governo de López Obrador se debate entre o apoio aos que menos têm, com programas sociais e iniciativas culturais elogiáveis, por um lado, e, por outro, o autoritarismo e a perseguição à pobreza com operações policiais cujas imagens remetem às do Iraque ocupado pelas tropas inglesas e norte-americanas.

Não, uns e outros estão se acomodando, se definindo.

Não só em bater insistentemente no fato de que pobreza é sinônimo de delinqüência, é aonde os meios de comunicação e os políticos se encontram. Dia após dia, se sucedem escândalos políticos e financeiros que não têm nenhuma sanção penal, e tudo se reduz a uma condenação moral. Já não se discute se algo foi moralmente mal feito, mas sim se é legal ou não. O sistema jurídico mexicano, junto com todo o Estado, encontra-se mergulhado na lagoa da podridão na qual se avalizam, com leis e juízes, crimes de lesa humanidade. Desaparecimentos forçados e repressão (como as que foram protagonizadas, entre outros, por Echeverría), fraudes (como as da Loteria Nacional), desvios de recursos (como os do PAN para Provida), roubos disfarçados de acordos legislativos (como o perpetrado contra os trabalhadores do Seguro Social) e o que vier a se juntar na programação de hoje, é tudo permitido pelo “império da lei”, mas se cultiva, com irresponsabilidade, o rancor social.

Enquanto ocorre tudo isso, por trás da agenda da mídia avança outra agenda, a da destruição do Estado mexicano...

Uma programação diferente?

Fora desta programação há indivíduos, coletivos, grupos, povoados que entendem que por trás destas suposta “agenda nacional” há outra, a real, a verdadeira, que consiste, grosso modo, na destruição do México enquanto Nação. Eles e elas sabem que o desmantelamento frenético e implacável do Estado nacional, levado adiante por uma classe política sem utilidade e sem vergonha (e acompanhada em não poucos casos por alguns meios de comunicação e por todo o sistema jurídico), levará a um caos e a um pesadelo que nem a programação estelar de terror e suspense poderia igualar.

Como se naufragasse no mar neoliberal, a Nação Mexicana afunda cada vez mais e a cada dia se parece menos com si mesmo e mais com nada. O país cuja história das origens remete a uma ilhota em meio a uma lagoa, se afoga em águas que não são suas.

Mas há mexicanos e mexicanas que resistem. Não sem dificuldades, com os tropeços e aflições do dever, vão construindo pequenos espaços, ilhotas em cima das quais se sonha, se luta, se trabalha. Ilhotas nas quais, amanhã, o México será o México, talvez um pouco melhor, talvez um pouco mais bom, mas o México.

Falaremos de uma dessas ilhotas de resistência, não a melhor nem a única, e de autonomia nas comunidades indígenas zapatistas. Falaremos dos caracóis e das Juntas de Bom Governo, de nossas falhas, erros e do que foi conseguido, sem outra imagem a não ser o olhar capaz de acolher nossa palavra, e sem outro áudio a não ser o que nos for outorgado pelo ouvido e o coração daqueles que, sem estar aqui, estão conosco.

(a continuar...)

Das montanhas do Sudeste Mexicano.
Subcomandante Insurgente Marcos.
México, agosto de 2004, 20 e 10.
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Comunicado divulgado através do La Jornada em 20/08/2004.
A quem corresponda:

Psst,
Psst,
Psst!

Tem alguém aí? Um ouvido? Um olhar? Um coração, pelo menos?
Valeu. Saúde e paciência, virtude guerreira.

Das montanhas do Sudeste Mexicano.
Subcomandante Insurgente Marcos.
México, agosto de 2004, 20 e 10.

P. S. Desculpem a interrupção, mas é que nós também temos um vídeo. O único problema é que deve ser lido (limitações tecnológicas da resistência rebelde) e, isso sim, é preciso mudar de canal...
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Comunicado divulgado através do La Jornada em 19/08/2004.

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