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Textos do Exército Zapatista de Libertação Nacional, do seu Sub[p]Comandante Insurgente Marcos e demais membros do Comité Clandestino Revolucionário Indígena - Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional

30.9.04

Ler um vídeo.

Sexta parte: seis avanços.

Desde a época da colônia, os povos indígenas têm sofrido condições de miséria extrema. Apesar de ter sido a classe social que mais contribuiu na luta pela independência, nas guerras de resistência contra as invasões norte-americana e francesa e na revolução mexicana (e, se me permitem, na atual democratização do país – ainda que sejam os políticos e os meios e comunicação a disputarem o protagonismo), as dívidas da Nação para com eles não têm feito outra coisa a não ser crescer. Se alguém tem colocado vida e morte para que este país que se chama México pudesse se levantar como nação soberana, livre e independente, têm sido os indígenas.

Nenhum movimento se virava para ver como ficavam depois dos triunfos ou das derrotas. Ganhasse quem ganhasse, os povos indígenas perdiam. Quem lhes oferecia melhoras acabava escravizando-os nas fazendas. Quem lhes oferecia uma pátria livre, acabava colocando-os de lado. Quem lhes oferecia democracia, acabava impondo-lhes leis e governos. Mas sempre que esteve em jogo o destino do México, os indígenas não duvidaram e colocaram a única coisa que tinham: o seu sangue.

Da independência do México até agora já são quase 200 anos e há indígenas que trabalham e morrem em condições semelhantes às da colônia. As terras que tinham lhes foram tiradas, às vezes com violência, às vezes com artifícios. A cor, a língua, a roupa, o “jeito”, têm sido motivo de vergonha, de gozação, de desprezo. O nome de “indígena” tem sido usado como insulto, como sinônimo de preguiçoso, de falta de inteligência, de incapacidade, de submissão, de servilismo.

Depois de tanto, teria sido estranho que não se levantassem em armas. Mas o fizeram. E apesar de ter sido objeto de escárnio e desprezo pelos de pele branca, não transformaram sua guerra numa guerra contra uma cor. E apesar de terem sido objeto de enganos e destino de mentiras por aqueles que falam “o espanhol”, não dirigiram sua guerra contra uma cultura. E apesar de terem sido sempre os que servem nas casas daqueles que tudo têm, não distribuíram destruição. Fizeram uma guerra, a sua guerra. Ainda a fazem. Uma guerra contra o esquecimento.

Este país tem sorte. Onde outros destroem, estes indígenas constroem. Onde outros separam, eles juntam. Onde outros excluem, eles incluem. Onde outros esquecem, eles lembram. Onde outros são um peso para todos, eles carregam, entre outras coisas, a nossa história. E tem sorte o EZLN de ter sido agasalhado por estes povos. Que se não...

Se alguém se voltasse para vê-los, veria seres humanos, cheios de erros, defeitos, debilidades, quedas, enfim, imperfeitos. E aí está o problema, porque se fossem super-homens e supermulheres, bom, então se entenderia o que fizeram. Mas como são como qualquer um, pois então...como vou dizer isso?...pois, como se diz: “eu também tenho que fazer alguma coisa...porque ninguém vai fazer isso por mim”.

É isso que fazem os povos zapatistas. Não esperam que o governo distribua esmolas e discursos. Trabalham para melhorar suas condições de vida e conseguem. Paradoxalmente, suas condições ainda estão bem longe de ser as ideais, são melhores do que as comunidades que recebem “apoio” federal. E isso pode ser constatado ao vivo e a cores (os vídeos, mesmo que sejam lidos, são limitados), e se pode investigar.

É destas melhoras, que têm sido possíveis pelo “terceiro ombro”, que vou lhes falar agora. Tratarei de não me estender muito (me proponho sempre a mesma coisa e as páginas vêm como a chuva), mas convido vocês a conhecer os detalhes nos informes de cada Junta e, obviamente, visitando os Caracóis, as comunidades e falando com os companheiros.

Saúde e educação.

Dois dos avanços têm sido nos campos da saúde e da educação. Os “esquecimentos” dos vários governos federais em relação a estes aspectos têm feito com que “indígena” seja sinônimo de saúde ruim e de ignorância.

Graças ao apoio das pessoas das “sociedades civis”, a saúde das comunidades começou a dar uma guinada. Onde havia morte, começa a ter vida. Onde havia ignorância começa a ter conhecimento. Enfim, onde não havia nada, começa a ter algo bom.

Em Los Altos de Chiapas, por exemplo, o sistema de saúde proporciona atendimento médico gratuito e, até onde chegam seus recursos, também o remédio é de graça. Isso é possível por dois elementos: um é pelo apoio econômico da sociedade civil que permite conseguir equipes médicas e remédios. O outro é porque no lugar de concentrar-se só em atender doenças, o sistema de saúde visa, sobretudo, a medicina preventiva. O objetivo é reduzir as doenças e, de conseqüência, o consumo de remédios. Ainda que com dificuldades, o serviço médico gratuito foi mantido ao longo de todo o ano de funcionamento da Junta de Bom Governo em Los Altos.

Nas cinco regiões onde atuam as Juntas de Bom Governo se realizam campanhas de higiene, se promove o uso de latrinas e da limpeza da casa. Também se fazem campanhas, ainda que isso esteja só se generalizando, para combater doenças crônicas (como a leshmaníase e a úlcera de quem trabalha com o chicle), epidemias e para detectar câncer na mulher. Para conseguir isso, além do apoio econômico para projetos de saúde, há a ajuda solidária (e, em não poucos casos, heróica) de médicos e médicas especialistas e enfermeiras que, roubando o tempo ao seu descanso, vêm para estas terras e distribuem conhecimentos (a parteiras, “osseiras”, promotores de saúde e laboratoristas) e saúde a todas as comunidades.

O terceiro ombro para levantar a vida.

Constroem-se clínicas regionais e municipais, se equipam e se capacitam companheiros e companheiras para que possam usá-los. Na região tojolabal, no dia primeiro de agosto, foi realizada a primeira cirurgia e está sendo equipado um laboratório para o processamento de plantas medicinais. Em todas as regiões há farmácias que são abastecidas com o dinheiro dos projetos e das doações.

Em geral, pouco a pouco, as Juntas de Bom Governo vão conseguindo que cada município autônomo tenha uma estrutura básica de saúde comunitária: promotores de saúde, campanhas de higiene, medicina preventiva, ambulatórios, farmácias, clínicas regionais, médicos e especialistas.

No que diz respeito à educação se procede como se deveria proceder na política, ou seja, de baixo para cima. Constroem-se escolas em todas as comunidades (este ano foram mais de 50 em toda a região e ainda faltam) e se equipam as que já existem (este ano foram umas 300), se capacitam promotores de educação (que participam de cursos de atualização), se levantam centros de educação secundária (onde se ensinarão as raízes históricas do México) e técnica.

Professores de escola e mestres de alvenaria, especialistas em pedagogia, homens e mulheres com nomes e rostos comuns, indígenas com e sem passamontanhas, levantam escolas e conhecimentos onde antes só havia ignorância.

Venham. Assim vocês poderão ver em várias comunidades das várias regiões que tem aparecido uma clínica, uma farmácia, uma escola, que há muita confusão porque uma médica vai reexaminar as mulheres em função de suas doenças, que “Mariya” já sabe escrever seu nome e pode contar que os antigos mexicanos tinham uma cultura muito avançada e agora quer ir à escola secundária autônoma, resta saber se a mandam, que há um dentista na clínica e vai arrancar e arrumar dentes, que lá há uma festa porque chegaram quadros-negros, cadernos, lápis e livros, que Lecho ia morrer, mas não morreu e-que-isso-vai-demorar-o-tanto-que-seja-considerado-normal, que a escola agora está bem alegre, que o médico dos olhos já chegou, que Andulio está chiando porque não encontra o seu lápis, que há um médico pediatra que está explicando a um companheiro que o seu trabalho não é curar os pés, que Uber diz “eu não fui” e ninguém lhe perguntou se foi ele a pegar o lápis de Andulio, que há um neurologista que ajuda um que está mau da cabeça e desmaia, que vão vacinar as crianças, que estes caminhões são para levar os promotores que vão a um curso no Caracol e saber se o curso é de saúde ou de educação porque “você vai ver que por aqui passam uns e outros, que antes não era assim, não, que antes se encontravam vacas e bois pelo caminho, não, não se ofenda...ouça, e você não é daqui, não é mesmo?, se vê logo, mas não se aflija que agora mesmo vou lhe explicar, veja, lá em 1994 toda a indiada se levantou, ou seja a plebe, como dizemos por aqui, e é que os zapatistas e em seguida as sociedades civis e...ouça, não quer um pozól?, porque a explicação vai demorar...”

Alimentação, terra, moradia.

Do urgente ao importante. O problema dos refugiados (sobretudo, os de Polhó) é o que mais absorve a atenção do bom governo em Los Altos de Chiapas. Dos quase 3 milhões e meio de Pesos que Oventik gastou, cerca de dois milhões e meio foram destinados a Polhó. Mas não só à alimentação. Foi construída e colocada pra funcionar um pequeno mercadinho e uma cooperativa de mulheres refugiadas.

O bom governo enxerga longe e avança no projeto de uma bloqueria (“ou seja, é para fazer blocos de construção”, me explicam quando pergunto se é para fazer cérebros de membros do gabinete de Fox – já havia dito que para o do gabinete há “head hunters”).

A fábrica de blocos pode realizar uma produção em cadeia. Além de proporcionar uma renda para os companheiros (que não podem se dirigir a seus trabalhos pela ameaça dos paramilitares), reduzirá notavelmente o preço do material de construção e se poderia ir melhorando as casas. Bom, para isso ainda falta, mas a “bloqueria” do Polhó já começa.

Para melhorar a alimentação de todos, nas cinco regiões foram colocadas pra funcionar cooperativas de produção de porcos (“não, não se produzem políticos”, me esclarecem antes que faça a pergunta de praxe), galinhas, ovelhas (não, não são deputados do PAN votando o desaforo de López Obrador” me dizem, e me vem que agora sim não ia perguntar nada), frangos e gado (ou seja vacas, mulas e um ou outro boi – sem ofender ninguém), de hortaliças e de árvores frutíferas.

De La Garrucha informam que “em nossos municípios autônomos têm sido capacitados os promotores de agro-ecologia para que tenham experiência tanto em cuidar do meio-ambiente, como em cuidar de animais, como vaciná-los e fazer produzir melhor as terras recuperadas e nisso temos avanços em cada município”.

Realizam-se projetos de oficinas de sapataria, máquinas descaroçadoras de arroz, de mecânica (“já consertamos o trator, agora só falta a gasolina”), na região de La Realidad um que é chamado “de tecnologia apropriada, saúde da família, poupança energética e capacitação” que, além de distribuir caixas d’água constrói fogões que poupam lenha; em várias regiões, há oficinas de serralharia, projetos de água potável, oficinas têxteis, produção de colméias.

Assim, de vários flancos e com o apoio das “sociedades civis” se melhoram a terra, a moradia e a alimentação.

Com palavras da selva: “até hoje temos melhorado um pouco a alimentação graças às terras que foram recuperadas das grandes fazendas, porque assim colhemos mais milho e feijão, e os projetos de agro-ecologia. Graças à nossa organização se conseguiu diminuir grandemente o alcoolismo o que nos permitiu usar na alimentação o pouco recurso que temos. Também pudemos melhorar nossas casas ainda que pobremente, mas hoje temos telhados melhores, a casa mais limpa, com sítios mais amplos para poder plantar árvores frutíferas, hortaliças, flores e ter os animais fora de casa”.

Vinculada a essas três coisas está a comercialização.

Expulsam-se os “coiotes” com as bodegas regionais (na região de La Realidad uma se chama “Tudo para todos” – o que, na minha maneira de ver, é um convite ao saque -, outra “O Caracolzinho”, outra “Don Durito”; na região de Morelia a chamam “central de abastecimento” e aí se consegue café, panelas, artesanatos, bordados, panelas de barro, velas, cestos, móveis – tudo produzido pelas comunidades e a baixo preço -, em Roberto Barrios, as bodegas regionais são três), que incluem no projeto a compra de transportes para movimentar a mercadoria. Assim, aumenta o número de cooperativas e de refeitórios populares.

Os principais avanços da autonomia zapatista, na época das Juntas de Bom Governo, têm a ver com a melhora das condições de vida, sim, mas não só...

Governar e governar-se.

Talvez o avanço mais importante que vemos é que estamos aprendendo a construir, não sem falhas e tropeços, um bom governo:

“Aprendemos como resolver nossos problemas, como fazer acordos com outras organizações e autoridades, e também com nossas comunidades. Durante esse tempo aprendemos muito como governar em cada município e vimos que assim não é fácil que os maus governantes nos corrompam porque aprendemos nossa forma de governo em esquema de rodízio, com a experiência de todos e a vigilância como guia. Ao longo do ano tem sido esta a grande aprendizagem e não é fácil que nos comprem com um refresco. Outra coisa que temos aprendido é a tratar com gente de outras culturas e outros países...”.

“Temos aprendido através do trabalho, resolvendo problemas, de início estávamos nervosos, antes em cada município se organizavam como eles queriam, agora, todos os municípios juntos aprendemos a trabalhar eqüitativamente, e aprendemos também a falar com outras pessoas que não são da nossa organização. Sabemos que não são nossos inimigos, o que acontece é que estão enganados, mas vemos que pouco a pouco vão entendendo e vão se aproximando de nós...”.

“Cada autoridade municipal leva ao seu município o que aprendeu na Junta, alguns de nós aprenderam a levantar atas de acordos, elaborar projetos, manusear aparelhos como computador, internet, copiadora, telefone e outros aparelhos que estamos aprendendo a manusear...”.

“Avaliamos que politicamente temos vantagens, aprendemos a fazer o trabalho através do sacrifício. Há mudança em relação à antes, cometemos erros, mas assim vamos aprendendo pouco a pouco. As vantagens que vemos: todos fomos governos, não tivemos nenhum líder, foi um governo coletivo, assim nos ensinamos entre todos o que cada um sabe, há uma distribuição eqüitativa dos projetos, chegaram organizações sociais que procuram nosso atendimento quando seus problemas não são resolvidos...”.

“Na Junta de Bom Governo não precisamos de tradutor porque há gente de línguas diferentes, assim pode chegar qualquer pessoa, seja ela tzeltal, tzotzil, tojolabal ou que fale espanhol, podemos nos entender com nossa própria língua...”.

Foram estes os avanços que vimos e sentimos em um ano das Juntas de Bom Governo. Mas que tal que eu esteja soltando a minha mentira, que tal achar que só falo disso para que pensem que melhoramos. Por isso digo a vocês que venham, que andem pelos povoados e agora sim coloquem som e imagem a esse vídeo...

(a continuar...)

Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Subcomandante Insurgente Marcos.

México, agosto de 2004. 20 e 10.

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Comunicado divulgado através do La Jornada em 25/08/2004.

24.9.04

CARTA ABIERTA.

CARACOL II, OVENTIK SAN ANDRES SAKAMCH’ EN DE LOS POBRES,CHIAPAS, MEXICO,
A 23 DE SEPTIEMBRE DEL AÑO 2004.

A la opinión pública estatal, nacional e internacional:

La Coordinación General del Sistema Educativo Rebelde Autónoma Zapatista de Liberación Nacional-Zona Altos de Chiapas.(S.E.R.A.Z.L.N.-Z.A.CH.).

La Coordinación General del Sistema Educativo Zapatista, hacemos del conocimiento, públicamente a la sociedad civil estatal ,nacional e internacional, que nosotros los pueblos indígenas y no indígenas zapatistas , damos a conocer que somos quienes estamos construyendo y trabajando en la esquematización de los planes y programas de estudio que está llevando a cabo en todos nuestros pueblos en resistencia , es iniciativa de hombres , mujeres, niños , niñas , ancianos y ancianas quienes estamos construyendo y dirigiendo la forma de educación que reclaman nuestros pueblos.

Por lo tanto desmentimos públicamente lo que en fechas pasadas han estado publicando medios de comunicación como radio, periódicos e Internet en el cual el hermano Peter Brown (Pedro Café), aparece como dirigente en la construcción de nuestros planes y programas y como el principal impulsor de la Educación Autónoma Zapatista, nosotros aclaramos que no está dirigida nuestra educación por alguien que no conozca nuestros saberes , nuestra lengua, nuestros sufrimientos, nuestra cosmovisión indígenas por eso nosotros los pueblos indígenas y no indígenas , somos quienes estamos trabajando en la construcción de nuestra propia educación , por eso no aceptamos que personas malinterpreten los trabajos que los pueblos construyen para mejorar nuestras condiciones y conocimientos en el aspecto educativo.

La educación que reclamamos como pueblos indígenas y no indígenas zapatistas es rescatar los conocimientos que tenían nuestros antepasados como son los Mayas , los Aztecas, los Mexicas, etc en la conservación de la Madre Tierra , ya que nuestra Madre Tierra, es la única que nos mantiene nuestra existencia en este mundo injusto, y por lo tanto estamos programando este tipo de educación para fortalecer la vida de los seres vivos que habitamos en nuestras tierras y territorios, este es el tipo de aprendizaje que nos debemos impartirnos para no ser injustos con el mundo.

Debemos saber que la Madre Tierra es el Mundo, la Tierra es la Humanidad, la Humanidad es la Tierra, la Patria nuestra es la Tierra, sin la Madre tierra no hay existencia humana, sin la Madre Tierra no hay lugar donde barbechar para sembrar la milpa, las verduras, las flores ; para sembrar la existencia de la vida humana y de todo lo que existe en el Mundo, sin la Madre Tierra , no existiría el agua, ni el aire, éste es lo que nosotros, los pueblos zapatistas queremos estudiar con nuestros hijos en las Escuelas Primarias y Secundarias Autónomas y en los demás niveles que vayamos construyendo, este es nuestra realidad que reclamamos en la Educación.

En nuestra educación fomentamos el cuidado del Medio Ambiente, porque el Medio Ambiente es la fuente de la vida de todos los seres vivos; como los seres humanos, las plantas , los animales; es necesario educar en la conservación de los bosques, de las selvas, de las minas, del agua, del aire, del suelo y de los animales; de esta manera, nuestro Medio Ambiente siga en la conservación de su biodiversidad biológica.

Nuestra educación estudia el Medio Ambiente, como un compendio de valores naturales, sociales y culturales existentes en lugar que influye en la vida material y psicológica de la Humanidad.
De igual forma, para nosotros los pueblos indígenas y no indígenas zapatistas,es muy importante tener conocimiento sobre la salud, porque la salud es vida, la salud es la capacidad de analizar nuestra situación como pueblos, en lo social, económico, político y cultural, que forma parte de la educación integral del ser humano, ya que sin la educación de calidad, apegada a nuestra realidad, no existe salud mental, corporal y por lo tanto la salud y la educación están íntimamente ligados, no están separados, ya que la Humanidad saludable construye su educación para todos y todas.

Una educación con buena salud, es una salud constructiva de mentes sanas de la Humanidad, porque una educación con mala salud, el mundo humano destruye la Humanidad, por eso con la educación queremos ser constructores de una buena salud solidaria y fraterna.

La educación que estamos llevando a cabo en nuestros pueblos en resistencia y rebeldía, es para educarnos en el rescate, en la conservación, en el fortalecimiento y mejoramiento de todos nuestros saberes en el aspecto económico, social, cultural, religioso, territoriales, etc; el rescate y fortalecimiento de nuestras lenguas indígenas, el de conservar nuestros patrimonios históricos, el de aprovechamiento y la conservación de nuestros recursos naturales renovables y no renovables. Nuestra Educación Autónoma rescata los saberes de nuestros antepasados, tal es el movimiento de los astros, la época de lluvia para la siembra de nuestra alimentación, que es un saber desde hace muchos miles de años por nuestros antepasados.

El estudio de la Historia en nuestra Educación Autónoma Zapatista, lo consideramos como la base fundamental para el desarrollo cultural, político, social, económico de cualquier pueblo, la Historia es la raíz de nuestra existencia, es la raíz de nuestra identidad como pueblos originarios antes de la conquista, si un pueblo que no tiene historia propia, es un pueblo que no conoce su realidad, si a un pueblo no le dicen su Historia , es un pueblo sin vida , si un pueblo carece de lo más elemental que es nuestra Historia es un pueblo que tiende a desaparecer(morir).

Por eso una educación sin Historia, no es una buena educación , una educación sin Historia es no saber nuestras costumbres, nuestra cultura y nuestra existencia, sin la Historia es no saber la historia verdadera sobre las grandes luchas que han suscitado en nuestra Madre Patria, sin historia, la educación es no saber de la defensa de la gran Tenochtitlán que encabezó Cuauhtémok, la educación sin Historia es no saber de los hombres y mujeres ilustres que independizaron a nuestro país y por lo tanto la educación es el Alimento Sagrado, es la Vida y es la existencia del pueblo mexicano, una educación impartida sin Historia es negar la existencia de los indígenas y no indígenas zapatistas mejicanos, la Humanidad sin Historia no existe, una educación sin Historia es una educación asesina, es lo que nosotros, los pueblos en resistencia del Sureste mexicano no aceptamos porque sin esa educación con Historia verdadera es nuestra muerte segura .Esto es lo que no quiere nuestro Sistema Educativo Rebelde Autónomo Zapatista de Liberación Nacional de la zona Altos de Chiapas.

Para ir terminando con esta carta abierta desmentimos públicamente las declaraciones hechas por AFP con fechas 7 de Septiembre del presente año. En donde nos acusa a nosotros los pueblos de estar echando (expulsando) a los hermanos y hermanas maestros oficiales, según porque no aceptaron ser militantes de nuestra organización, es totalmente falso quien haya hecho esas declaraciones a AFP. Ya que nosotros los pueblos zapatistas no sometemos a nadie y respetamos la forma de pensar de cada trabajador, pero sí queremos convencer a los hermanos maestros a que se den cuenta que la educación escolar no es ajena a las luchas del pueblo, por lo tanto ni hemos expulsado, ni expulsaremos a ningún maestro oficial, siempre de vez en cuando que ellos respeten la dirección de trabajos que los pueblos así lo exigen.

FRATERNALMENTE
DEMOCRACIA, LIBERTAD Y JUSTICIA

COORDINACION GENERAL DEL SISTEMA EDUCATIVO REBELDE AUTONOMO ZAPATISTA DE LIBERACION NACIONAL-ZONA ALTOS DE CHIAPAS
(S.E.R.A.Z.L.N.-Z.A.CH.)

Ler um vídeo.

Quinta parte: cinco decisões de bom governo.

Durante o primeiro ano das Juntas de Bom Governo se formalizaram alguns acordos internos, tomados já faz tempo, e se concretizaram novas decisões. São as que se referem à conservação dos bosques, ao narcotráfico, ao tráfico de migrantes clandestinos, ao trânsito de veículos nas regiões e às eleições estaduais para as prefeituras e a Assembléia Legislativa local.

1. Sobre a conservação dos bosques.

Transcrevo textualmente uma das leis vigentes nas Juntas de Bom Governo. A redação varia de uma região pra outra, mas a essência é a mesma:

Lei de cuidado das árvores, ou seja, cuidado com a natureza.

Por acordo da Junta de Bom Governo Coração do Arco-íris esta lei é válida nos territórios dos municípios autônomos rebeldes sem distinção; esta lei é para proteger os bosques porque os bosques chamam a água, o oxigênio, porque são nossa vida e também proteção dos animais silvestres; por isso, todos devemos entender que é importante cuidar do nosso bosque em todos os territórios dos municípios autônomos.

Como Junta de Bom Governo propomos que cada município faça o seu viveiro para ajudar a cumprir esta lei:

1. As árvores só deverão ser cortadas para as necessidades domésticas, não para vender.

2. Temos a obrigação de cuidar e preservar os bosques e temos também o direito de usar árvores de uso doméstico com a autorização das autoridades autônomas.

3. Por cada árvore cortada, a obrigação de quem a cortou é plantar duas mudas e cuidar delas.

4. Cada território autônomo sancionará em cada município de acordo com o seu regulamento.

5. Sem a autorização de derrubar uma árvore se punirá com plantar 20 mudas.

6. Todas as permissões se farão com a comissão de terra e território.

Há um acordo de que onde há um espaço a ser reflorestado, cada município o faça. Árvores com as quais se pode reflorestar são as que se fazem necessárias no interior da comunidade. Os espaços a serem pensados para plantar são lugares que são bons para realizar uma excursão familiar, como as margens do rio.

Por exemplo, no Município Autônomo 17 de Novembro temos 4 centros reflorestados por um total de 2 mil pés de cedro. Também os priistas continuam tirando licenças de até 10 anos de contrato, ainda que tenhamos tentado suspendê-las e vemos que para eles são motivos de provocação.

2. Sobre a semeadura, o tráfico, a comercialização e o consumo de drogas.

Ainda que a lei seja de antes do início da guerra, as Juntas de Bom Governo têm formalizado a proibição contra o narcotráfico. Aqui está um exemplo:

“A Junta de Bom Governo [decreta que] em território zapatista é totalmente proibido cultivar, traficar e consumir drogas; os que fizerem isso serão expulsos pelas leis zapatistas. As bases de apoio zapatistas que semearem este enervante serão rechaçadas na organização e na comunidade onde esta pessoa se encontra. O mesmo com os que consomem.

Caso se localize um terreno semeado com drogas será destruído e todas as plantas queimadas. Quem tiver feito a semeadura terá que arcar com os gastos da destruição, como os gastos da gasolina para queimá-la, e será expulso da organização. Quem consome é castigado com dez dias de trabalho e seis meses fora da organização. Por acordo da Junta de Bom Governo, cada município em seu território faz uma vistoria por ano para ter certeza de que não existem pessoas que fazem este trabalho ilícito”.

3. Sobre o trânsito de veículos nas regiões das Juntas de Bom Governo.

Nas Juntas de Bom Governo se registram os veículos que transitam pela região. A medida é para evitar o tráfico de pessoas, narcóticos, armas e madeira. Com este controle, a Junta de Bom Governo pode detectar um veículo que seja usado para atividades criminosas, investigá-lo e se tiver algum delito e for zapatista, castigá-lo de acordo com as nossas leis; e se não for zapatista levá-lo às autoridades oficiais.

O registro veicular zapatista permitiu ordenar também as rotas de transporte para que os povoados tenham transporte o dia inteiro, e para que não haja conflitos entre as várias organizações de condutores.

Para evitar que as regiões zapatistas se tornem santuários de carros roubados e chocolates os registros que a JBG outorga só são entregues àqueles que têm seus papéis oficiais em dia. Ou seja, para ter o registro veicular das JBG é necessário ter placas e documento de circulação. E o condutor deve ser habilitado.

4. Sobre o tráfico de migrantes clandestinos.

Alguns meses atrás, nas Juntas de Bom Governo, nos Conselhos Autônomos e em todas as comunidades zapatistas começou a circular quanto segue:

Recentemente, tem aumentado o número de migrantes clandestinos que são levados pelos chamados polleros em sua jornada rumos aos Estados Unidos. Os polleros são pessoas que se dedicam ao tráfico de pessoas, cobram delas muito dinheiro em troca da promessa de levá-las a trabalhar nos Estados Unidos.

Na grande maioria das vezes, os polleros enganam homens e mulheres do México e de outros lugares da América abandonando-os no lugar em que se escondem no interior dos veículos ou nos desertos, e estes homens e mulheres (às vezes, crianças) morrem de forma espantosa.

Sabe-se também que os polleros estão de acordo com as autoridades federais do governo mexicano, que participam do negócio. Os homens e mulheres que vêm de outros países rumo aos Estados Unidos para lá trabalharem são, em sua imensa maioria, pessoas pobres e humildes, e seus direitos e dignidade são violados pelos polleros e pelas autoridades do México e dos Estados Unidos.

Por isso, decidiu-se declarar delito grave o tráfico de pessoas, nacionais ou estrangeiras, pelo território zapatista. Comunica-se isso a todas as autoridades para que vigiem para que isso se cumpra e que os membros do EZLN que participarem, apoiarem ou protegerem aqueles que se dedicam ao tráfico de pessoas sejam castigados e, em caso grave, expulsos de nossa organização.

As comissões de vigilância do CCRI e as Juntas de Bom Governo irão vigiar para que nenhum zapatista, base de apoio, responsável, comitê ou autoridade autônoma cometa, apóie ou proteja este delito de tráfico de pessoas, porque é um crime contra a humanidade.

Todos os traficantes de pessoas (ou polleros) descobertos e detidos em território zapatista serão obrigados a devolver o dinheiro às pessoas atingidas e se, depois de advertidos, voltarem a cometer seu delito, se verá a forma de entregá-los às autoridades competentes para serem castigados de acordo com as leis do México.

Todas as pessoas, nacionais ou estrangeiras, que são transportadas clandestinamente serão libertadas, apoiadas no que for possível (cuidados médicos, hospedagem e alimentação temporária) e aconselhadas a não se deixar enganar.

Todos os seres humanos, independentemente de sua nacionalidade, têm passagem livre pelo território zapatista, mas deverão sujeitar-se às leis das Juntas de Bom Governo, dos Municípios Autônomos e das comunidades indígenas.

As Juntas de Bom Governo e os Municípios Autônomos Rebeldes Zapatistas informarão os companheiros e companheiras bases de apoio zapatista e os membros de outras organizações que vivem em território zapatista sobre estas recomendações, no entendimento que todo zapatista que cometer este delito será desconhecido como companheiro.

Os resultados? Vejam alguns exemplos:

Da Junta de Bom Governo de Morelia informam o seguinte:

Na questão dos migrantes clandestinos, por exemplo: no município Ernesto Che prenderam um pollero em seu território, ficou detido por dois dias e o avisaram de que da próxima vez o castigo ia ser maior e aos migrantes clandestinos se deu pousada, comida, foram avisados dos riscos do caminho e deixados irem embora. Aconteceu um caso de um companheiro que vendeu pozól a um preço elevado, e os companheiros que cometeram este erro foram castigados”.

De La Garrucha:

“Os polleros que forem surpreendidos enganando os migrantes clandestinos serão detidos para que devolvam a eles o dinheiro. Em território zapatista é terminantemente proibida a venda de comida, água e hospedagem aos migrantes clandestinos; eles são pobres como nós e temos a obrigação de dar-lhes água, comida e hospedagem e não de vender-lhes estas coisas. No caso de um pollero ser detido pela segunda vez, será entregue às autoridades do mau governo”.

De La Realidad:

“Com os migrantes clandestinos centro e latino-americanos, a JBG fala diretamente apresentando seus membros. Explicam que a JBG é fruto da luta do EZLN. Como autoridades civis e como bases de apoio do EZLN, explicam os sete princípios do mandar obedecendo e a autonomia. Explicam que são autoridades autônomas e que lutam contra o neoliberalismo, contra o Plano Puebla-Panamá, etcétera. Aconselham-nos a não abandonarem suas terras, que é mais seguro trabalhar o seu pedaço de terra, que é melhor lutar por democracia, liberdade e justiça em seus países, que o seu sonho americano não é seguro porque muitos morreram na passagem, que para nós não há nenhum problema e podem transitar livremente porque somos iguais a eles, que não se permitirá que lhes roubem muito dinheiro por sua viagem porque é assim que têm se enriquecido os empresários que lidam com migrantes clandestinos. Damos a eles comida, refrescos, galletas. [1] È aí que os migrantes clandestinos começam a confiar, começam a contar suas vidas, contam que alguns têm ouvido Rádio Insurgente em seus países. Ficam agradecidos. Aos polleros que se consegue identificar, todo o dinheiro que levam é repartido em partes iguais entre todos os migrantes clandestinos centro-americanos, adverte-se o pollero que da próxima vez que for surpreendido fazendo a mesma atividade será castigado.

Em outra ocasião, quando de um grupo de centro-americanos que transitavam a pé, falou-se com eles e se detectou o pollero, que disse ser de nacionalidade guatemalteca e que trazia hondurenhos, guatemaltecos, salvadorenhos e que havia cobrado mil e 5oo Pesos de cada um dos centro-americanos; foi revistado e se encontrou a quantia de 31 mil 905 Pesos, 700 Quetzales e 31 dólares, a mesma que lhe foi tirada e distribuída em partes iguais aos migrantes clandestinos. Atualmente, encontra-se detido um traficante de migrantes nacionais cumprindo um castigo de 6 meses depois da advertência que lhe havia sido feita”

5. Sobre as eleições locais chiapanecas de 3 de outubro de 2004.

Em julho deste ano, delegados do Instituto Estadual Eleitoral de Chiapas se apresentaram nas diferentes Juntas de Bom Governo para fazer um acordo que permitisse o trabalho do IEE. Esta foi a resposta dada:

Ao Instituto Estadual Eleitoral de Chiapas, México.

Secretaria Executiva.

Tuxtla Gutiérrez, Chiapas, México.

Presente.

Senhoras e senhores:

Escrevemos para informar quanto segue:

1. Recebemos sua atenciosa carta com a data de 14 de julho de 2004 que nos fala com respeito para solicitar o apoio desta Junta de Bom Governo para facilitar o trabalho do seu Instituto Estadual Eleitoral em terras zapatistas.

2. Como vocês sabem, nós não acreditamos que as eleições sejam um verdadeiro caminho para os interesses do povo, mas estamos conscientes de que haverá gente que ainda acredita nisso como um caminho para resolver os problemas do povo mexicano. O descrédito dos partidos políticos é muito grande porque só enxergam seus interesses e não os das maiorias, mas pode ser que haja pessoas que ainda pensem que nos de cima há um pouco de honestidade.

3. Como Junta de Bom Governo, o nosso trabalho é ver que se respeitem todos os pensamentos e maneiras de cada um nos territórios zapatistas, sem que para isso importe se as pessoas são zapatistas ou não, e também se são antizapatistas. Porque nós não queremos que todos se tornem zapatistas à força, mas sim que cada um seja como quer ser, mas respeitando e sendo respeitado nos diferentes modos e pensamentos.

4. Por isso, dizemos claramente que não terão nenhum problema em realizar o seu trabalho nas comunidades que integram os Municípios Autônomos reunidos nesta Junta de Bom Governo e que são: (lista dos Municípios Autônomos). Pedimos somente que, assim como nós respeitamos aqueles que querem votar, vocês respeitem aqueles que não querem fazê-lo e não obriguem ninguém a fazer o que não quer fazer.

5. Portanto, já têm a garantia para fazer o seu trabalho no território que pertence a nossa Junta de Bom Governo e veremos que não tenham problemas, claro que respeitando sempre a vontade das comunidades.

Nos dias que antecedem a jornada eleitoral do 3 de outubro de 2004 e neste dia, o Instituto Estadual Eleitoral de Chiapas poderá realizar seu trabalho sem obstáculo algum por parte das comunidades zapatistas que se agrupam em nossa Junta de Bom Governo.

6. Dizemos também que na lista das comunidades que nos passaram em sua atenciosa carta há algumas que não pertencem à nossa Junta de Bom Governo, mas sim à de (nome da outra JBG), razão pela qual recomendamos que se dirijam também aos irmãos e irmãs desta Junta de Bom Governo para obter sua permissão. Temos certeza de que responderão na mesma forma atenciosa e respeitosa por nós usada.

7. Como se vê, quando há respeito mútuo de ambas as partes, então há bom entendimento. Nós zapatistas não queremos impor nada, só queremos que nos respeitem e haja um bom acordo entre os diferentes.

Agradecemos o tom de sua carta e os saudamos da mesma forma.

Atenciosamente.

(Assinam os membros da Junta de Bom Governo em questão).

(a continuar...)

Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Subcomandante Insurgente Marcos.

México, agosto de 2004. 20 e 10.

___________________________

Comunicado divulgado através do La Jornada em 24/08/2004.


[1] Galleta: pequeno pão sem fermento, delgado e quebradiço, que pode ser doce ou salgado

17.9.04

Ler um vídeo.

Quarta parte: quatro falácias.

(Falácia: engano, fraude ou mentira com a qual se tenta prejudicar alguém).

Houve e há mais, mas foram quatro as principais falácias que foram levantadas por intelectuais de direita, juízes, legisladores e governantes para opor-se aos Acordos de San Andrés, ao projeto de lei da COCOPA e à realização prática destes acordos pelas comunidades indígenas zapatistas com a criação dos caracóis e das Juntas de Bom Governo, em agosto de 2003.

Como modernas profetizas, previram então a desintegração do Estado mexicano, a criação de um Estado dentro de outro Estado “para” Marcos (foi esta a manchete de uma edição de agosto de 2003 do jornal de propriedade de Ahumada, paradoxalmente chamado El Independiente), o aumento dos conflitos intercomunitários e a violação dos direitos humanos individuais pelo exercício dos direitos coletivos.

De acordo com isso, o que o EZLN preparava era uma ofensiva político-militar, que incluía um ataque ao quartel do Exército federal localizado na cabeceira de San Andrés, e outras bobagens desse tipo. Alarmaram-se, alertou-se o Exército, a Força Aérea, a Marinha, a PFP, se apresentaram armas, ordens de apreensão, operações policiais, dinheiro para comprar silêncios e palavras. Deram declarações que contradiziam minutos depois, e em seguida se contradiziam de novo (dando o devido peso a cada um, o campeão foi e é Santiago Creel). Histéricos, trocaram rumores disfarçados de informes de inteligência e informes de inteligência disfarçados de rumores. Nesses dias, o Sudeste Mexicano esteve a poucas palavras de transformar-se novamente (como em 1994, em 1995, em 1998) em cenário de combates.

Mas houve quem, de cima, mas de fora, disse que não, que se tratava de uma iniciativa política, não militar, e que não era outra coisa a não ser praticar o que o governo federal e o EZLN haviam acordado em fevereiro de 1996, só que 7 anos depois.

Alguém mais recomendou deixar que se fizesse, esperar o fracasso, e preparar o “eu disse” junto à avançada militar do Exército federal sobre as posições zapatistas.

O que conto ocorreu realmente nas reuniões do gabinete de Vicente Fox nos meses de julho e agosto do ano passado.

Como é evidente, o que decidiram foi esperar que fracassássemos. E, como sempre ocorre quando fazem um cálculo político ou militar em relação a nós, falharam.

Não só não fracassamos: além de melhorar significativamente as condições de vida das comunidades indígenas, agora temos argumentos práticos e comprovados para afundar as falácias sobre as quais se sustentou o rechaço à chamada lei COCOPA.

DESINTEGRAÇÃO DO ESTADO?

Alguns anos atrás, um dos membros da Suprema Corte de Justiça da Nação, esta instância que distribui impunidades aos poderosos (só que redigidas em termos jurídicos), argumentou sua posição contra o reconhecimento constitucional dos direitos indígenas assim: “Dividir-se-ia o estado mexicano, haveria muitos países num único território e leis particulares em cada lado. Em suma, o país balcanizar-se-ia”.

Alguém poderia pensar que estava se referindo ao narcotráfico e seu vínculo com governantes e juízes, mas não, falava da conveniência de reconhecer a existência dos povos indígenas mexicanos, ou seja, de reconhecer seus direitos coletivos.

Com a criação dos caracóis e das Juntas de Bom Governo, nós zapatistas decidimos praticar os Acordos de San Andrés e demonstrar, através dos fatos, que queríamos ser parte do México (do qual não éramos parte a não ser deixando de ser o que somos).

Passado um ano do nascimento dos caracóis e das Juntas o país está, de fato, desintegrado, mas não pela autonomia indígena, mas sim por uma autêntica guerra interna, pela impiedosa destruição de seus fundamentos: a soberania sobre os recursos naturais, a política social e a economia nacional. Estas três bases, que são as que, entre outras coisas, são destruídas nas guerras de secessão e imperiais, são agora dinamitadas pelos três poderes federais.

A soberania sobre o petróleo e a geração de energia, para dar um exemplo, é um dos objetivos das reformas constitucionais que estão pendentes no Congresso. A política social (ou o Estado do Bem-estar Social) transformou-se em algo ridículo: as dependências que cuidam deste aspecto não passam de instituições de caridade e esmolas, e as conquistas dos trabalhadores são desprezadas através de pactos secretos acompanhados de campanhas de mídia estridentes (o caso do IMSS, para citar um recente). Já faz um bocado que a economia nacional deixou de sê-lo e se transformou na “camelodromização” da sobrevivência. A planta produtiva nacional é um montão de sucatas industriais e saudades, o comércio está monopolizado por grandes empresas transnacionais, o sistema bancário é permeado pelo capital estrangeiro e o vaivém da especulação financeira manuseia variáveis globais, não nacionais.

Traduzindo: menos emprego, e mais precário, mais desemprego e subemprego, preços altos, salários baixos, importa-se o que podemos produzir, produz-se para um mercado global, do qual somos apenas uma variável macroeconômica, e não para o consumo interno. A pobreza já atinge não só os trabalhadores, mas também os pequenos e médios empresários, e os mexicanos ricos são cada vez menos e mais ricos.

Em suma, o governo federal renunciou às suas funções e o estado nacional cambaleia golpeado pelos de cima, não pelos de baixo.

Há uma forma de chamar as mudanças tão profundas como as que sofre o nosso país, quando se fazem de cima e prescindindo de qualquer consenso ou consulta aos de baixo: chama-se contra-revolução.

A única coisa que restaria seria refundar a nação. Com um novo pacto social, uma nova Constituição, nova classe política e nova forma de fazer política. Em suma, faltaria um programa de luta, construído a partir de baixo, com base na real agenda nacional, não na que promovem os políticos e os meios de informação.

De nossa parte, nada do que foi feito, como se verá nesta e em outra parte posterior, pelas Juntas de Bom Governo e pelos Municípios Autônomos Rebeldes Zapatistas, contribuiu para a desintegração do Estado nacional.

UM ESTADO NO INTERIOR DE OUTRO ESTADO?

Quem governa bem deve governar para todos, não só para aqueles que simpatizam com ele ou militam em sua organização, nem só para aqueles de sua mesma raça, cultura, cor ou língua.

Na concepção zapatista, a luta pela inclusão de um não é a luta pela exclusão de outro. Se a existência do mestiço não deve implicar no desaparecimento do indígena, o nosso reconhecimento do que somos não implica na negação dos que não são como nós. E isso vale para o indígena e para o zapatista.

As Juntas de Bom Governo são a prova de que o zapatismo não pretende hegemonizar nem homogeneizar, sob sua idéia e com o seu jeito, o mundo em que vivemos.

As JBG nasceram para atender todos, zapatistas, não-zapatistas, e inclusive antizapatistas. Nasceram para mediar entre as autoridades e os cidadãos, e entre diferentes âmbitos e hierarquias. Têm feito isso e continuarão a fazê-lo. Um ano atrás, quando do nascimento dos caracóis e das Juntas, o Comandante David ofereceu respeito a quem nos respeitasse. Estamos cumprindo isso.

Assim, as Juntas de Bom Governo mantêm uma comunicação respeitosa com diferentes organizações sociais, com muitos dos governos municipais oficiais com os quais os autônomos partilham o território, e, em algum caso, com o governo do Estado. Trocam-se recomendações e se procuram resolver os problemas através do diálogo.

À diferença do governo federal cujo “enviado” dedica-se a ser ridículo, com custos para o erário, e a panfletar isso na imprensa, o governo estadual preferiu não fazer uma campanha de mídia (no que se refere ao zapatismo) e optou por dar sinais e esperar pacientemente. Sabendo que os olhares do zapatismo não são locais, mas sim federais, o governo de Chiapas escolheu não ser parte do problema e tratar de ser parte da solução.

Enquanto alguns espertinhos enrolam don Luis H. Alvarez fazendo-lhe crer que têm contato com o EZLN, lhe tiram dinheiro e o levam de um lado pra outro com a promessa de que vai ver “aquele” (Marcos), e trata, sem resultados, de construir a “força camponesa” do PAN distribuindo telhas de zinco e painéis solares, o governo estadual tem uma linha de comunicação verdadeira com as comunidades zapatistas.

No caso específico, não nos opomos a que o governo Fox pague o salário ao autodenominado “enviado de paz”, mas achamos que deveria redefinir o seu trabalho: no lugar de pagá-lo para procurar o diálogo com os zapatistas (coisa que não faz), deveria pagá-lo para quitar os gastos dos antizapatistas.

Com o governo do estado de Chiapas, as Juntas de Bom Governo têm mediado os casos dos seqüestrados pela CIOAC em Las Margaritas, em parte da indenização aos agredidos em Zinacantán, na indenização de camponeses atingidos pelo trajeto da rodovia na região da selva tzeltal, no problema das “bicitaxis” da costa de Chiapas, e talvez em algum outro que agora me foge da memória. Verão tudo isso quando consultarem os informes específicos de cada Junta, porque não se esconde nada. Em geral, em qualquer momento, tem se procurado evitar enfrentamentos entre indígenas.

Atualmente se mantém contato para os casos do recente assassinato de um companheiro base de apoio em Polhó e do estupro de uma menina de 11 anos em Chilón.

Respeitar é reconhecer, e as Juntas de Bom Governo reconhecem a existência e a jurisdição do governo do Estado e dos municípios oficiais e, na maioria dos casos, as autoridades oficiais municipais e o governo do Estado reconhecem a existência e a jurisdição da JBG. Da mesma forma, as Juntas de Bom Governo reconhecem a existência e a legitimidade de outras organizações, respeitam e pedem respeito.

Só assim, respeitando, é possível fazer acordos e cumpri-los.

Demorou um tempo, mas agora as pessoas e organizações não-zapatistas e antizapatistas sabem que podem procurar as JBG para tratar de qualquer problema, que não serão detidos (as JBG são instâncias de diálogo, não de punição), que o seu caso será avaliado e se fará justiça. Se alguém quer um castigo por alguma coisa, procure um município oficial ou um autônomo, mas se alguém quer solução através do diálogo e do acordo, procure a Junta de Bom Governo.

MAIS CONFLITOS?

Este proceder das Juntas de Bom Governo começa a produzir efeitos nos municípios autônomos e nos oficiais. Para problemas sociais entre grupos, comunidades e organizações se recorre cada vez menos ao uso da força ou à troca de seqüestrados, e se procura cada vez mais o diálogo. Assim, foi possível ver que muitos casos não são de enfrentamentos entre organizações, mas sim problemas individuais que se apresentam como organizativos.

A nossa palavra é o que temos de mais importante. Sobre ela tem sido construída a autoridade moral de um movimento que procura, não sem tropeços, uma nova forma de fazer política. Antes se dava por batido que qualquer agressão que se apresentava tinha origem política, se fazia a denúncia e se realizavam mobilizações. Agora, antes se investiga se teve causas políticas ou se são crimes de foro comum.

Para isso, as JBG mantêm um canal de comunicação, através da Secretaria de Povos Indígenas, com o governo do Estado de Chiapas. Quando se apresenta uma agressão a zapatistas e não há comunicação com os agressores para determinar qual foi o problema e tratar de chegar a um acordo pelo diálogo, as Juntas de Bom Governo indicam à autoridade autônoma que inicie uma investigação e, ao mesmo tempo, repassam os dados do caso as autoridades estaduais. Enquanto a questão não for devidamente esclarecida não se recorre às denúncias, à mobilização ou às represálias.

Se a questão não é política e sim penal, então se espera um tempo razoável para que a justiça estadual exerça sua ação. Caso isso não ocorra, pois então, entra em ação a justiça zapatista.

Nos casos que têm se apresentado até agora, a justiça do governo de Chiapas tem brilhado por sua lentidão e ineficiência. Parece que a máquina judiciária chiapaneca só é rápida quando se trata de castigar os inimigos políticos do governo estadual. No caso das autoridades de Zinacantán, cujo delito foi flagrante e documentado, o governo do Estado se limitou a apoiar na indenização dos agredidos, mas quanto a determinar os responsáveis pela agressão e proceder juridicamente, não há prazo. E no caso de Chilón, onde, no marco de um enfrentamento entre zapatistas e não-zapatistas, foi violentada uma menina de 11 anos, já se acertou a diferença que deu origem ao choque, já foram passados todos os dados dos estupradores (incluindo as análises médicas que confirmam o estupro da menina) às autoridades competentes...e... nada (pelo menos até o dia em que escrevo). Os estupradores continuam em liberdade, apesar de não contarem com o respaldo da organização a que pertencem (que se deslindou do fato).

Contudo, temos que dizer que as agressões mais importantes que nós zapatistas temos sofrido ao longo deste ano não vieram do Exército federal, nem da polícia da Segurança Pública estadual (dos paramilitares se investigam atualmente as possíveis causas políticas no caso de um companheiro assassinado em Polhó).

Paradoxalmente, os problemas mais graves e as agressões sofridas neste ano foram com organizações e governos de filiação perredista: a CIOAC oficial da região de Las Margaritas e a presidência municipal oficial de Zinacantán (do PRD). Em ambos os casos, os zapatistas sofreram agressões. Em Las Margaritas seqüestraram companheiros e em Zinacantán atacaram com armas de fogo uma manifestação pacífica.

A CIOAC oficial da região de Las Margaritas (especifico isso porque com a CIOAC de outros municípios houve entendimentos e respeitos mútuos) só queria garantir seu grau de corrupção no interior do município e que seus dirigentes continuassem a se manter às custas das autoridades oficiais.

Em Zinacantán, o governo perredista planejou e executou uma emboscada que deixou vários zapatistas feridos à bala. Mergulhado na “crise dos vídeos”, o PRD nacional guardou um silêncio cúmplice e só abriu um processo para expulsar do PRD o prefeito. Nos seletos círculos do PRD foi dito que este era o pagamento aos zapatistas por eles não apoiarem o seu partido nas eleições. Esta é uma plataforma que irão promover a nível nacional em 2006? Para quem não for incondicionalmente do PRD, golpes e tiros? É uma pergunta.

Com outras organizações com as quais houve e há atritos, e com as quais as coisas antes se resolviam com a lógica do “se há um problema, agarro um dos teus, você agarra um dos meus, trocamos um pelo outro, e o problema continua o mesmo” (ou “você junta um bocado de gente, eu junto outro tanto, nos golpeamos e o problema continua o mesmo”), agora se procura falar, conhecer as versões das duas partes, fazer um acerto. Assim, sem enfrentamentos nem seqüestros mútuos. Desta forma, foram resolvidos problemas com organizações como a ORCAO, a ARIC-Independente, a ARIC-PRI, a CNC e muitas outras que estão presentes nos territórios onde atuam as JBG e até onde sua influência alcança.

À diferença dos anos anteriores, os conflitos entre comunidades e entre organizações nos territórios das Juntas de Bom Governo têm diminuído, e tem sido reduzido o índice de criminalidade e de impunidade. Os delitos se resolvem, não só se castigam. Se não acredita em mim, faça uma consulta nas hemerotecas, nos juizados, nos ministérios públicos, nos presídios, nos hospitais, nos cemitérios. Compare o antes e o depois e tire suas conclusões.

UMA JUSTIÇA A SEU MODO?

O bom governo não procura outorgar impunidade aos que simpatizam com ele nem é feito para penalizar aqueles que se opõem em idéias e colocações. Ou seja, não deve fazer como faz o governo federal que deixa impunes os criminosos porque são do PAN (Estrada Cajical, por exemplo) ou porque fez um trato com o PRI (Luis Echeverría, por exemplo), e pretende penalizar um de seus contrários (López Obrador) e deixá-lo de fora da eleição de 2006.

As leis que vigoram nos Municípios Autônomos Rebeldes Zapatistas não só não contradizem os princípios de justiça em vigor no sistema jurídico estadual e federal, mas em muitos casos os completam.

Disse que o bom governo não está aí para dar impunidade aos próprios e castigar os demais.

Como exemplo, e para ilustrar, tenho uma cópia do ofício expedido pelo Juizado Municipal Autônomo de San Juan de La Libertad, Chiapas, com a data de 19 de agosto de 2004, dirigido ao governo constitucional do Estado de Chiapas e com cópia para o prefeito de Chalchihuitán e para o juizado municipal de Chalchihuitán. O texto vale como argumento (respeito a redação original):

“Diante destas dependências autônomas e diante das autoridades do juizado municipal foi apresentado o Fulano, base de apoio do EZLN, de 17 anos de idade, originário de Jolik’alum, município de Chalchihuitán, Chiapas, no dia 14 de agosto deste ano, pelas autoridades locais desta comunidade que tendo praticado um delito de ordem comum no dia 13 de agosto do ano em curso quando Beltrano do Partido da Ação Nacional (PAN) havia saída de sua casa para fazer umas compras no mercado de Jolitontic e, na volta, quando vinha caminhando pela vereda encontrou este jovem Fulano escondido na montanha com uma arma longa de calibre 22 de um tiro, a mesma que tratou de disparar a uma distância de 5 metros de Beltrano pela arma que já não serve.

Encontrando-se já à disposição dos juízes municipais autônomos, o jovem Fulano esclarece que o próprio queixoso Beltrano foi o primeiro a dar início à provocação quando derrubou 300 pés de café de boa qualidade de propriedade do jovem Fulano e é por isso que este jovem já faz um ano que tem a coragem, nós, juízes autônomos, qualificamos isso que foi cometido por Fulano como um grave delito dentro da ordem e da disciplina revolucionária zapatista, a este respeito nós ratificamos sua detenção imediata na medida em que existem elementos para esse tipo de pena, mas no momento da detenção do que é apontado como culpado, o queixoso Beltrano saiu correndo dos juízes municipais negando-se a declarar as origens da questão, como se fosse ele o culpado deste fato. Nós, autoridades autônomas, podemos resolver qualquer tipo de assuntos ou de delitos de ordem e de foro comum. O Fulano, no momento, é punido com uma pena que o priva da liberdade(...) A arma do Fulano está nas mãos das autoridades autônomas de San Juan de La Libertad, a arma está em más condições porque já não funciona e será destruída”.

DIREITOS COLETIVOS VERSUS DIREITOS INDIVIDUAIS?

Imagino que vai ou irá ter estudos jurídicos que demonstrem não haver contradição no reconhecimento de uns e de outros. Falamos agora do que vemos através dos fatos e do que praticamos, e estamos abertos para qualquer um que venha e corrobore se o exercício dos nossos direitos como povos indígenas viola algum direito individual.

Os direitos coletivos (como a decisão sobre o uso e o aproveitamento dos recursos naturais) não só não contradizem os direitos individuais, como permitem que estes últimos estejam ao alcance de todos, não só de alguns. Como se verá na parte dos avanços, em território zapatista não aumentaram as violações dos direitos humanos individuais. Cresceram, sim, condições de vida melhores. Respeitam-se o direito à vida, à religião, à filiação partidária, à liberdade, à suposição de inocência, a se manifestar, a discordar, a ser diferente, à livre escolha da maternidade.

Neste ano, no lugar de metermo-nos numa discussão de termos jurídicos, nós zapatistas optamos por demonstrar nos fatos que a bandeira do reconhecimento dos direitos dos povos indígenas, levantados pelos indígenas mexicanos e por muitos mais com eles, não implica em nenhum dos perigos que foram argüidos contra eles.

Em terras zapatistas não está se gestando a pulverização da nação mexicana. Ao contrário, o que nasce aqui é uma possibilidade de sua reconstrução.

(a continuar...)

Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Subcomandante Insurgente Marcos.

México, agosto de 2004, 20 e 10.

___________________________

Comunicado divulgado através do La Jornada em 23/08/2004.

4.9.04

Ler um vídeo.

Terceira parte: três ombros.

A lua apareceu no ombro da noite, mas foi só por um momento. As nuvens se afastaram, como abrindo uma cortina, e então o corpo noturno fez brilhar sua pegada de luz. Sim, como a marca deixada por um dente no ombro quando, no vôo do desejo, não se sabe se cai ou se levanta.

Há 20 anos, depois de subir trabalhosamente a primeira encosta para entrar nas montanhas do sudeste mexicano, sentei num canto do caminho. A hora? Não lembro exatamente, mas era essa na qual a noite diz que já-foi-bom-de-grilos-melhor-ir-dormir, e nada do sol se levantar. Ou seja, era de madrugada.

Enquanto tratava de acalmar a respiração e as batidas do coração, pensava na conveniência de optar por uma profissão mais sossegada. Afinal, estas montanhas haviam passado muito bem sem a minha chegada, e não sentiriam a minha falta.

Devo dizer que não acendi o cachimbo. E tem mais, nem sequer me mexi. E não por disciplina militar, mas sim porque o meu formoso corpo estava todo dolorido. Iniciando um costume que mantenho até agora (com uma férrea autodisciplina) comecei a amaldiçoar a minha habilidade para me meter em encrencas.

Estava nisso, ou seja, no esporte da queixa-queixa-queixa, quando vi passar, morro acima, um senhor com um fardo de milho nas costas. Vulto visivelmente cansado, o homem caminhava curvado. Haviam me tirado a carga no meio da encosta para não atrasar a marca, mas o que me pesava era a vida, não a mochila. Enfim, não sei quanto fiquei aí sentado, mas, de repente, o senhor passou de novo, agora morro abaixo e já sem a carga. Mas o homem continuava caminhando curvado. “Xiii!”, pensei (e esta era a única coisa que podia fazer sem que me doesse tudo), “é assim que vou ficar com o tempo, minha postura varonil vai se arruinar e o meu futuro como símbolo sexual será como as eleições, uma fraude”.

De fato, há alguns meses caminhava como um ponto de interrogação. Mas não pelo peso da mochila, mas tão somente para não enroscar o nariz nos galhos e nos cipós.

Um ano depois encontrei o Velho Antonio. Numa madrugada fui até à sua choça pegar tostadas e pinole. (1) Naquela época não nos mostrávamos ao povo e só alguns indígenas sabiam de nós. O Velho Antonio se ofereceu para acompanhar-me até o acampamento, de tal forma que dividiu a carga em dois fardos e, no dele, colocou o mecapal. (2) Eu coloquei o fardo na mochila porque não me dava com o mecapal. Fizemos a caminhada com uma lanterna até chegar na beirada do potreiro, onde começavam as árvores. Paramos diante de um riacho, esperando amanhecer.

Não lembro bem de onde veio a conversa, mas o Velho Antonio me explicou que os indígenas caminham sempre curvados, mesmo que não carreguem nada, porque levam sobre os ombros o bem do outro.

Perguntei como é que era isso, e o Velho Antonio me contou que os primeiros deuses, os que deram origem ao mundo, fizeram os homens e as mulheres de milho de maneira tal que eles caminhassem sempre coletivamente. E me contou que caminhar coletivamente quer dizer pensar também no outro, no companheiro. “Por isso, os indígenas caminham curvados”, disse o Velho Antonio, “porque carregam sobre os ombros o seu coração e o coração de todos”.

Então eu pensei que para esse peso não bastavam dois ombros.

O tempo passou e, com ele, aconteceu o que aconteceu. Preparamo-nos para combater e nossa primeira derrota foi diante destes indígenas. Eles e nós caminhávamos curvados, mas nós pelo peso da soberba, e eles porque carregavam também a nós (mesmo que não nos déssemos conta). Então, nós nos fizemos eles, e eles se fizeram nós. Juntos, começamos a caminhar, curvados, mas sabendo que não bastavam dois ombros para este peso. Assim, nos levantamos em armas no dia primeiro de janeiro de 1994... para procurar outro ombro que nos ajudasse a caminhar, ou seja, a ser.

O terceiro ombro.

Como na origem da Nação Mexicana, a história contemporânea das comunidades indígenas zapatistas terá também sua lenda da fundação: aqueles que moram nestas terras têm agora três ombros.

Aos dois ombros que os seres humanos comuns costumam ter, os zapatistas acrescentaram um terceiro: o das “sociedades civis” nacionais e internacionais.

Nas próximas duas partes deste vídeo “raro” falarei dos avanços conseguidos nas comunidades zapatistas. Então, se verá que são grandes, de um tamanho que sequer havíamos imaginado.

Mas agora quero dizer-lhes que isso tem sido possível porque alguém nos deu o ombro.

Achamos que tivemos sorte. Desde o início, o nosso movimento contou com o apoio e a simpatia de centenas de milhares de pessoas nos cinco continentes. Esta simpatia e este apoio não se resignaram diante das limitações pessoais, das distâncias, das diferenças culturais e de idioma, das fronteiras e dos passaportes, das diferenças na concepção política, dos obstáculos colocados pelos governos federal e estaduais, dos postos de controles, das hostilidades e dos ataques militares, das ameaças e agressões de grupos paramilitares, da nossa desconfiança, da nossa falta de cortesia, da nossa incompreensão para com o outro, da nossa grosseria.

Não, acima disso tudo (e de muitas outras coisas que cada um conhece), as “sociedades civis” do México e do mundo têm trabalhado por, para e conosco.

E têm feito isso não por caridade, não por pena, não por uma moda política, não por afã publicitário, mas sim porque, de uma forma ou de outra, têm feito sua uma causa que continua ficando grande só para nós: a construção de um mundo onde caibam muitos mundos, ou seja, de um mundo que carregue o coração de todos.

Dos lugares mais insuspeitos do México e do mundo, das ilhotas que agüentam apesar do furacão neoliberal, para visitar os caracóis e falar com as Juntas de Bom Governo (para projetos, doações, esclarecimentos ou simplesmente para conhecer o processo de construção da autonomia), em um ano chegaram pessoas de, pelo menos, 43 países, incluindo o nosso, que é o México.

Homens e mulheres, como indivíduos e como organizações, da Espanha, Alemanha, País Basco, Eslovênia, Itália, Suíça, Escócia, Estados Unidos, Dinamarca, Bélgica, Finlândia, Austrália, Argentina, França, Canadá, Polônia, Suécia, Holanda, Noruega, Brasil, Guatemala, Turquia, Chile, Colômbia, El Salvador, Peru, Grécia, Portugal, Japão, Norte da África (está assim no informe, não sei qual é o país), Nicarágua, Inglaterra, Uruguai, Bolívia, Áustria, Nova Zelândia, Israel, Irã, República Tcheca e de todos os Estados da República Mexicana, colocaram seu ombro junto aos dois das comunidades para começar a alterar radicalmente as condições de vida dos indígenas zapatistas.

Assim, em um ano, os caracóis e as Juntas de Bom Governo (JBG) têm chegado (às vezes com projetos produtivos, às vezes com donativos, às vezes com o ouvido atento e respeitoso, às vezes com a palavra irmã, às vezes com a curiosidade, às vezes com o afã científico e às vezes com o desejo de resolver problemas através do diálogo respeitoso e do acordo entre iguais), milhares de pessoas, como indivíduos, como organizações sociais, como organizações não-governamentais, como organizações de ajuda humanitária, como organizações defensoras dos direitos humanos, como cooperativas, como autoridades de municípios de outros Estados do México e de outras partes do mundo, como corpo diplomático de outras nações, como pesquisadores, como artistas, como músicos, como intelectuais, como religiosos, como pequenos proprietários, como empregados, como operários, como donas ou “donos” de casa, como trabalhadores e trabalhadoras do sexo, como locatários de mercado, como vendedores ambulantes, como jogadores de futebol, como estudantes, como professores, como médicos, como enfermeiras, como empresários, como empreiteiros, como autoridades estaduais e como muitas coisas mais.

Só em Oventic, o caracol relata ter atendido, em um ano, 2 mil 921 pessoas de outros países e mil 537 do México, sem contar os companheiros e companheiras bases de apoio zapatistas que procuram a Junta para tratar de vários problemas.

O terceiro ombro da luta zapatista tem muitas cores, fala muitas línguas, vê com muitos olhares e caminha com muitos. Falamos e queremos bem a eles e elas, além de agradecer, vamos entregar-lhes...

A prestação de contas.

Bom, é a hora da prestação de contas. Peço-lhes paciência, porque me coube rever as contas de todas as Juntas para elaborar esta espécie de informe, e cada uma tem seu “jeito” de decidir o que coloca nas somas e o que põe nas subtrações. Enfim, não tem sido fácil, mas, seja como for, os detalhes disso tudo poderão ser consultados em cada caracol a partir do dia 16 de setembro deste ano.

<> Em conjunto, as cinco Juntas de Bom Governo que funcionam em território zapatista registraram entradas de quase 12 milhões e meio de Pesos [aproximadamente, R$ 3.300.000,00], saídas de cerca de 10 milhões [aproximadamente, R$ 2.530.000,00] e um saldo que anda por volta dos 2 milhões e meio de Pesos [R$ 770.000,00]. (3)

Há diferenças significativas nas contas administradas pelas JBG em cada caso. É assim porque algumas das Juntas registram todo o dinheiro de que tiveram conhecimento, ou seja, incluem na conta o que receberam diretamente e o que foi recebido pelos Municípios Autônomos Rebeldes Zapatistas (Marez) com a aprovação da Junta de Bom Governo. Outras Juntas só relatam o que foi administrado diretamente, sem incluir o que foi recebido pelos Marez.

Há também diferenças significativas no que entrou nas JBG; em alguns casos, se deve ao fato de que há Juntas (como a de Los Altos e a da Selva região de Fronteira) que cobrem um território muito grande; em outros, porque suas sedes são mais conhecidas pelas “sociedades civis” (Oventic e La Realidad), e, em alguns outros, porque a diferença de desenvolvimento organizativo entre as regiões é ainda muito grande.

Mesmo que aproximadamente (e arredondando, porque os companheiros registram cada centavo), são estes os dados relatados por cada junta no exercício de um ano:

JBG

Entradas anuais

Saídas anuais

R. Barrios

Um milhão e 600 mil Pesos

[R$ 416.000,00]

Um milhão de Pesos

[R$ 260.000,00]

Morelia

Um milhão e 50 mil Pesos

[R$ 273.000,00]

900 mil Pesos

[R$ 234.000,00]

La Garrucha

600 mil Pesos

[R$ 156.000,00]

300 mil Pesos

[R$ 78.000,00]

Oventic

4 milhões e meio de Pesos

[R$ 1.170.000,00]

3 milhões e meio de Pesos

[R$ 910.000,00]

La Realidad

5 milhões de Pesos

[R$ 1.300.000,00]

4 milhões de Pesos

[R$ 1.040.000,00]

O que foi feito com esse dinheiro? Bom, já vai chegar sua vez de prestar conta. Por enquanto só adianto que não foi nada em proveito individual de ninguém.

As autoridades autônomas que se revezaram na direção das Juntas de Bom Governo garantem suas necessidades pessoais, nos dias em que despacham nos caracóis, através de ajudas dos povoados ou com o apoio do EZLN. Por dia, o gasto médio (sem contar o da passagem de sua comunidade ao caracol e o retorno) de um membro da Junta de La Garrucha, por exemplo, é de menos de oito Pesos [R$ 2,08] (em outros lugares sobe um pouco mais). No caso de Oventic é de zero Pesos, porque as autoridades levam suas tostadas seu feijão e seu café, quando o tem (senão vão de chá de capim).

Compare isso com, por exemplo, o que ganha no México um diretor do IMSS (que cobra para desmantelar as conquistas dos trabalhadores deste instituto), ou, por exemplo, com o que custam as toalhas na residência presidencial do nosso país, ou, por exemplo, com o que se paga por alguns colchões na casa de um funcionário do governo Fox no exterior, ou com o que ganha um deputado ou um senador. (4)

É claro que nossas autoridades não usam guarda-costas, não pagam assessores, nem compram carros do ano para si, nem comem em restaurantes de luxo, nem nomeiam seus familiares.

Ou seja, governar não tem porque ser oneroso.

O ombro da aniversariante.

A menção do “terceiro ombro” não seria completa se não mencionasse aqueles que, mesmo com o silêncio sugerindo perda de rumo, desordem, disputas internas, desaparecimento ou o barulho que agora está na moda, têm continuado atentos e dispostos a tratar de entender as razões pelas quais aqui se luta (e os métodos e os tempos com os quais se luta).

Ouvir o que o outro fala e, sobretudo, o que cala, só é possível entre aqueles que partilham o caminho e, às vezes, a carga.

E me refiro àqueles que, tendo com certeza coisas mais importantes a fazer, reservam o tempo e a atenção necessários para ouvir e ver aqueles que não se costuma ouvir e nem ver (ou só quando há eventos “importantes”).

Como eu, aqueles dos quais estou falando, completarão 20 anos neste mês de setembro. Mencionei-os só de passagem na primeira parte porque, para nós, não são só um meio de comunicação. Já sabem então que falo e penso naqueles que dirigem e trabalham no jornal mexicano La Jornada.

Como muitos homens e mulheres que apóiam a luta dos povos indígenas (e por isso a dos zapatistas), os “jornadeiros” não olham ou escutam os povos zapatistas por moda ou por cálculo da mídia. Seu passo vai além da ação jornalística, tem a ver com o que alguns chamam de “ética do compromisso” e se inscreve no afã de uma mudança real e justa, e não no afã dos ganhos econômicos e/ou políticos. Não quero ser injusto dizendo só que os “jornadeiros” têm sido generosos, no lugar disso direi que têm sido coerentes e são poucas, muito poucas, as pessoas que podem dizer e manter isso por 20 anos.

Sei que estou me adiantando, mas é quase certo de que nesse dia, no dia da aniversariante, La Jornada apareça cheia de mensagens felicitando-a por seu vigésimo aniversário e dificilmente haverá lugar para a felicitação que nós, os menores de seus irmãos, lhe enviamos.

Por isso, nos adiantamos, e neste seu “não aniversário” enviamos um abraço a todos e a todas, só um, mas um desses que só se dão entre irmãos e que dizem coisas que não se podem dizer. Vai também o meu abraço pessoal, na espera de podê-lo dar pessoalmente (tomara que não seja post mortem), a tod@s e cada um@ d@s jornadei@s.

E como “pra quem madruga mais vale um pássaro na mão” (não é assim?, perdão, é que a incoerência do gabinete contagia), pedimos o mesmo na hora de repartir o bolo que, como sabemos, por maior que seja, nunca será do tamanho do coração que carregam.

Resumindo, sejam muito felizes pelo aniversário (não levantem muito o cotovelo, porque logo vão acontecer coisas que precisarão de ouvidos e olhares honestos).

E a todos e a todas, “sociedades civis”, parabéns pelos aniversários dos caracóis e das Juntas de Bom Governo. E obrigado pelo terceiro ombro.

Valeu. Saúde e se o pote dos doces a ser estourado tiver a cara do Bush, peço a minha vez.

(a continuar...)

Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Subcomandante Insurgente Marcos.

México, agosto de 2004, 20 e 10.

P. S. A minha festa de aniversário será de leve a moderada, terá pozól azedo e não porque eu goste, mas sim porque os companheiros gostam de dar uma de engraçadinhos. (5)

___________________________

Comunicado divulgado através do La Jornada em 22/08/2004.


(1) Pinole: farinha de milho tostado e adoçada com açúcar.

(2) Mecapal: tira de couro ou de pano grosso que se apóia na testa e ajuda a transportar a carga nas costas.

(3) A conversão para a nossa moeda foi feita tendo como base a cotação do Peso Novo Mexicano de 24/08/2004.

(4) IMSS: Instituto Mexicano de Seguridade Social.

(5) Pozól: bebida feita de milho e açúcar.

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