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Textos do Exército Zapatista de Libertação Nacional, do seu Sub[p]Comandante Insurgente Marcos e demais membros do Comité Clandestino Revolucionário Indígena - Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional

30.10.04

MUNICIPIO AUTÓNOMO DE STA. CATARINA, CHIAPAS, MÉXICO
25 /10/04
SOCIEDAD DE SOLIDARIDAD SOCIAL YACHIL XOJOBAL CHULCHAN
COLONIA EMILIANO ZAPATA S/N, PANTELHÓ, CHIS., MÉXICO

COMPAÑEROS Y COMPAÑERAS DE LA SOCIEDAD CIVIL NACIONAL E INTERNACIONAL

La sociedad de productores de café Yachil Xojobal Chulchan les envía un cordial saludo y al mismo tiempo exponerles lo siguiente:

En virtud de las injusticias que ha venido practicando el gobierno en cuanto a la comercialización de nuestros productos, en especial el café; un grupo de cafeticultores comenzaron a organizarse para luchar por obtener un pago justo por sus productos, es así como la cooperativa mencionada con anterioridad, nace desde el año de 2001 con 383 socios.

En la actualidad esta cooperativa cuenta con 1522 asociados distribuidos en 7 municipios que son: Santa Catarina, San Juan Apóstol Cancuc, San Pedro Polhó, Chalchihuitán, Tenejapa, Chilón y Sitalá; cuya producción de café para este ciclo está calculada como sigue: 96,369 kilogramos de café orgánico (6 contenedores), 376,947 kilogramos de café en transición (22 contenedores aproximadamente). Como podrán darse cuenta tenemos suficiente café para vender, y debido a esto, pedimos que nos apoyen comprando nuestro producto o, en caso de no tener posibilidades, que nos apoyen contactándonos con personas que se interesen en comprar café, ya sea orgánico o en transición.

Cabe mencionar que del total de esos socios ya mencionados, 239 son de categoría orgánica; mientras que el resto es de 1283 socios, se clasifican en la categoría de transición 1 y 2 respectivamente.

No existiendo otro inconveniente y esperando contar con su valioso apoyo, les damos las gracias por su atención.

ATENTAMENTE
YACHIL XOJOBAL CHULCHAN S. DE S.S.

22.10.04

A velocidade do sonho.
Terceira parte: pés descalços.


O clube das mutuas caricaturas.

Qual é a velocidade do sonho?

Não sei.

“Não sei”. Essas duas palavras deveriam estar mais presentes no repertório de todos, tão obrigados que às vezes nos sentimos a opinar a respeito de tudo, e a suplantar opiniões por dogmas e receitas (“verdades”, dizem).

No Clube das mutuas caricaturas, ou seja, entre a seleta intelectualidade que, nos e dos meios de comunicação de massa de direita (e alguns “de esquerda”), se mantém alheia (“objetiva”, dizem) à realidade, faz tempo que a crítica e o debate foram suplantados pelo escândalo na mídia, por “neutralidades” (que, no final da edição, são mais fundamentalistas do que Bush e Bin Laden), e por profecias que pouco importa se não são argumentadas ou não se cumprem (“afinal, quem se importa com a realidade?”).

Cortesãos versáteis da periferia do poder, estes intelectuais falam de tudo, são especialistas em tudo. Em sua filosofia instantânea e solúvel (“vamos ao ar – entrego a minha contribuição em poucos minutos, bom, não há tempo para pensar no que vou dizer/escrever”), seguindo as modas que se renovam de tempos em tempos, estes neo-filósofos da pós-modernidade imitam as poses e o método dos “grandes” pensadores, ou seja, abstraem e generalizam. Ou seja, supõem e criam um modelo, e logo o aplicam. As sobras? Pra lixeira (ou seja, fora da programação ou do índice da matéria).

E tem mais. O intelectual e o comunicador que atuam como analistas políticos de direita (e não poucos de esquerda), se erguem a juízes que ditam sentença e esperam, sentados na academia ou na sala de imprensa, que a realidade seja o verdugo que executa a sentença. Se o “sucesso” da filosofia política reacionária, ou seja, a do analista de direita, está em sua capacidade de “justificar” uma ação, o dos que pregam a partir do púlpito dos meios de comunicação está em banalizar a falta de razão. Propondo emoções refletidas e não razões, os comunicadores abordam a guerra, a pobreza, as catástrofes naturais, as arbitrariedades governamentais, os crimes e o cada vez mais freqüente aflorar do descontentamento popular.

Afinal, os sentimentos podem ser tão fugazes como os temas “mais importantes” dos noticiários. Assim, se desesperam pela falta de vídeos.

Mas acontece que muitos deles provocam reflexões, e digamos que a reflexão profunda não é a fonte da comunicação de massas.

A velocidade do pesadelo.

E é com a reflexão teórica (que não é sinônimo de masturbação mental), o debate (que não é pingue-pongue de adjetivos), a troca de experiências (que não é troca de receitas), que, se não se pode saber qual é a velocidade do sonho, se pode, por outro lado, calcular a velocidade do pesadelo. Da nossa própria experiência e do que vemos do globalizado andar de cima, aprendemos que é a mesma do baixar as mãos, do render-se, do resignar-se, do assumir a cômoda e estúpida posição de espectador, do abandonar ideais em nome de um pragmatismo que, no fim das contas, se revela estéril e deformador.

Se o poder mundial presta um culto doentio ao 11 de setembro e ao 11 de março, não é para trazê-los como argumento do pesadelo que globalizam, e querem nos “vender” o sonho de que seu poderio militar e policial evitará que se repitam outros “onzes” no calendário...semeando seu terror em outras datas e no mundo todo. Mas, diante dos “11” do terror de um e outro lado, há, por exemplo, um “15”, o de fevereiro de 2003. Nesta data, mais de 30 milhões de pessoas, de mais de 100 nações do mundo, se mobilizaram contra a guerra.

Muitos dirão que foi inútil, que, seja como for, a guerra se concretizou. Mas esquece-se que as colheitas das semeaduras de baixo nunca são imediatas.

E nem sempre as mobilizações terminam quando se encerram os noticiários. Na maioria das vezes resultam em aprendizagem e organização. O poder pode conviver bem com demonstrações de repúdio das massas, que acabam quando trocam de canal; mas não pode se sentir confortável com a organização deste repúdio, muito menos com seu crescimento.

Porque, em baixo, aprender é crescer.

As mentiras, por mais rating que ostentem, costumam provocar indigestão e vômito. As verdades, com certeza, provocam dor de estômago, mas este costuma ser aliviado ao fazer alguma coisa. Porque, se as mentiras são irremediáveis, as verdades sim têm remédio.

Diante do pesadelo, não basta despertar. A vigília pode florescer no sonho. O impreciso sonho zapatista.

Mas, qual é a velocidade do sonho?

Não sei.

Em nosso sonho, o mundo é diferente, mas não porque algum deux ex machina vai nos dar ele de presente, mas sim porque lutamos, na permanente vigília da nossa vigília, para que este mundo amanheça.

Nós zapatistas temos plena consciência de que, nem nós, nem ninguém, teremos a democracia, a liberdade e a justiça que precisamos e merecemos, até que, com todos, todos a conquistemos.
Com os operários, com os camponeses, com os empregados, com os jovens.

Com aqueles que fazem andar as máquinas, que fazem produzir o campo, que dão vida às ruas e aos caminhos. Com aqueles que, com seu trabalho, todo dia, precedem o sol.

Com aqueles que sempre produzem as riquezas e hoje só consomem as pobrezas.

Nossa luta, ou seja, nosso sonho, não termina.

Contudo, na vigília de todos os dias nos esforçamos para não deixar em herança, àqueles que virão, um espaço de rancor e afã de destruição.

Referendamos a cada momento nossa decisão de não impor a ninguém (nem a nós mesmos) – mesmo que na impunidade da ausência definitiva (tocados pela varinha mágica da morte, esta que transforma em perfeição o que não é outra coisa a não ser um montão de contradições) – uma série de cinismos disfarçados de “razões políticas” ou de fundamentalismo disfarçado de “neofilosofia” universal e eterna.

O zapatismo não é um guia para a ação.

A cada minuto de cada hora de cada dia estamos empenhados em não pregar o culto do “vale tudo”, que costuma ser só um limite para justificar que, no “tudo”, está incluído o trair os princípios. A razão que nos move é ética. Nela, o fim está nos meios.

Queremos, e por isso lutamos quotidianamente contra tudo (incluídos nós mesmos), colocar mais uma pedra em nossa casa, a que queremos toda portas e janelas, pela qual se possa entrar, se possa sair, olhar e ser olhado, sem outro limite a não ser a vontade de fazer ambas as coisas. Uma casa na qual não seja motivo de dor ser mulher, ou criança, ou ancião, ou indígena, ou jovem, ou gay, ou lésbica, ou transexual, ou trabalhador do campo e da cidade. Enfim, um lugar onde pertencer à humanidade não seja uma vergonha.

Queremos continuar lutando com o que somos, como zapatistas. Assim, o novo mundo não nascerá só do nosso passo, mas também dele.

Queremos, finalmente, desaparecer. Para isso, e não para outra coisa, foi que aparecemos. Por isso, nós não estamos em nosso sonho. Pés descalços.

Qual é a velocidade do sonho?

Não sei.

Mas agora, nesta madrugada de setembro, sem outra companhia a não ser a do vento gelado, com a chuva batucando impaciente no telhado da choça, e somando a nuvem que levo a que lá fora repousa, me ocorreu que, talvez, é a mesma velocidade com a qual, no meu sonho, a sombra que sou desvanece na outra e amável sombra entre as pernas dela, enquanto escrevo com meus lábios promessas impossíveis nas plantas de seus pés descalços...

Das montanhas do sudeste mexicano
Subcomandante Insurgente Marcos.
México, setembro de 2004, 20 e 10.

P.S. Termina aqui este programa “científico” do Sistema Zapatista de Televisão Intergaláctica. Depois de um intervalo anticomercial, continuaremos com nossa programação. Não mude de canal. (Na tela, ou seja, na cartolina, aparece: “Sandálias Yepa-Yepa, a única sandália g-l-o-b-a-l-i-z-a-d-a, lança no mercado seu novo modelo “Pozól azedo” edição limitada, a preço de sonho! Não se aceitam cartões de crédito e nem dinheiro. Permissão da Junta de Bom Governo número 69. Aplicam-se restrições”).
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Texto divulgado no La Jornada de 03/10/2004.
A velocidade do sonho
Segunda parte: sapatos, tênis, chinelos, sandálias e sapatilhas.


Setembro é o nono mês do ano, e, lá em cima, a lua tem uma barriga de grávida. E até fica um pouco vermelha quando se deixa cair sobre o ocidente. A chuva e as nuvens quiseram se aproximar, mas, preguiçosas, ficaram atrás da montanha, esta que se ergue a oriente. Lá em baixo, no gravadorzinho, Tânia Libertad canta a música que diz “não vão impedir (...), apesar do outono crescemos”. Confundindo-se entre as sombras, a sombra escreve uma carta. Depois do “Exército Zapatista etcetera”, e da data, setembro de 2004, se lê...

Para: Pierluigi Sullo
Direção da revista semanal Carta.
Itália, continente europeu, planeta Terra.

Pedro Luis, irmão:

Receba um abraço das montanhas do sudeste mexicano. Suponho que vai estranhar o “Pedro Luis”, mas é que fiquei contagiado pela “forma” dos companheiros “zapatizar” os nomes, assim coloco Pedro Luis no lugar de “Pierluigi”.

Bom, recebi a carta que você escreveu e não mandou. Ou seja, recebi a carta na Carta. Explico-me: acontece que primeiro me mandaram uma fotocópia da carta que apareceu em Carta (26 de agosto – 1° de setembro de 2004, ano VI, número 31). Como o meu italiano não dá sequer para se parecer com o “italianhol” dos “turbineiros e turbineiras” (que dois anos atrás trabalharam, e duro, para dar luz a La Realidad), tive que pedir que alguém fizesse o favor de traduzi-la. E o fizeram, só que numa língua que aqui chamamos de “itazapanhol” que, se não me falha a memória, foi inaugurada por Vanessa quando, sempre desobediente, ficou anos vivendo na realidade zapatista. Sendo assim, tive que recorrer a alguns dicionários que nos haviam enviado faz tempo (não me lembro muito bem, acho que foi Mantovani ou Alfio). Para isso, tivemos antes que procurar e encontrar os dicionários, que, como era de se esperar, estavam nivelando o pé de uma das mesas de um dos comandos gerais do único ezetaelene.

Talvez esteja enganado, mas cheguei a entender que o objetivo da sua carta é saudar-nos... e colocar problemas.

Segundo minha humilde opinião, o gênero epistolar é um dos melhores meios para o debate (outro, melhor ainda, é a prática política).

Você não diz isso abertamente, mas qualquer um pode perceber que, no fundo, a sua carta coloca, agora da Itália rebelde, o mesmo problema da velocidade do sonho. E mesmo não declarando isso explicitamente, da Itália que luta, ou seja, que sonha, você também responde: “não sei”.

Bom, aos problemas que coloca eu poderia responder com o axioma do inefável do grande (no ego) Don Durito de la Lacandona: “Não há problema suficientemente grande que não possa ser contornado”.

Mesmo parecendo uma receita excelente (em mais de uma ocasião me proporcionou bons resultados), acho que o que você coloca não procura uma solução, mas sim uma discussão.

O “que fazer na Itália?” é, de fato, um problema. Na minha maneira de ver é parte do problema “o que fazer no mundo?”.

Bom, a nossa resposta como zapatistas è... “não sabemos”.

Eu sei que, conhecendo-nos como você nos conhece, você não esperava outra coisa de nós. Contudo, a partir da nossa terra e da nossa luta podemos dizer o seguinte:

Primeiro. No México de hoje, todos os políticos, mesmo aqueles que estão am alta nas pesquisas, nas manchetes dos noticiários ou no número de manifestantes, sem ligar para a cor da retórica que levantam ou para o símbolo de sua organização política, contarão com a áspera desconfiança de nós zapatistas, com nosso ceticismo e nossa incredulidade. Baseados unicamente em suas palavras, promessas, intenções, números, estatísticas, estudos de opinião, não obterão de nós absolutamente nada de bom. Nada, nem sequer o benefício da dúvida. Como o chefe do Exército Libertador do Sul, general Emiliano Zapata, diante de Francisco I. Madero, a nossa hostilidade em relação aos políticos de centro será invariavelmente a norma; e, como Emiliano Zapata diante da cadeira presidencial, continuaremos dando as costas ao Palácio Nacional e aos que aspiram a sentar-se nesta cadeira. E o mesmo vale para o autodenominado “Congresso da União” e o circense Poder Judiciário da Federação.

Segundo. No caso específico dos partidos políticos que se autoproclamam de esquerda e têm registro [legal] no México (e que, não se deve esquecer, não são as únicas organizações políticas de esquerda que existem em nosso país), não podemos deixar de sorrir com amargura quando seus funcionários de partido, governantes, deputados, senadores e periquitos contratados jogam na cara de Vicente Fox o descumprimento de sua promessa de campanha de resolver o “problema” de Chiapas em 15 minutos. Não esquecemos que os que fazem esta crítica são os mesmos que votaram a favor de uma lei que, além de não cumprir um ato de justiça elementar, contrapunha-se fundamentalmente ao clamor dos povos indígenas do México, e de milhões de pessoas em nosso país e em outros lugares do planeta.

São os mesmos que fortalecem grupos paramilitares para hostilizar e agredir as comunidades zapatistas. São os mesmos que se empenham em parecer agradáveis a uma direita (chame-se ela de alta hierarquia eclesial ou empresarial) que, é preciso dizê-lo, não sente nenhum atração por eles. São os mesmos que carregam, debaixo do braço, os planos econômicos e policiais esboçados no board directory da cobiça internacional.

Mesmo assim, não podemos respaldar com o nosso silêncio as sujeiras jurídicas com as quais se pretende impedir que quem encabeça o governo da Cidade do México se apresente em 2006 para disputar a Presidência do país. Parece-nos que se trata de uma ação ilegítima, mal abrigada em falácias legais, que atenta contra o direito dos mexicanos de dizer se um ou outro ou ninguém é governo. A concretização de tamanha traição significaria, nem mais, nem mais, a invalidação do artigo 39 da Constituição mexicana, que consagra o direito do povo de decidir a sua forma de governo. Seria, para falar isso em termos simples, um golpe de Estado “brando”.

Ao assinalar isso, não nos colocamos do lado de uma pessoa e nem de um projeto de governo. Muito menos se traduz no apoio a um partido que não só não é de esquerda e nem é progressista e que tampouco é republicano. Colocamo-nos, pura e simplesmente, do lado da história de luta do nosso povo.

Terceiro. As eleições passam, os governos passam. A resistência fica como é, mais uma alternativa para a humanidade e contra e neoliberalismo. Nada mais, mas nada menos.
Contudo, coerentes com a aversão que professamos para os dogmas, admitiremos sempre que podemos estar equivocados e que poderia acontecer, de fato, como pregam agora os caga-tintas da moda, ser necessário, urgente, imprescindível, entregar-se incondicionalmente nos braços de quem, lá de cima, promete mudanças que se podem conseguir somente a partir de baixo.
Podemos estar equivocados. Quando nos dermos conta porque a dura realidade atravessa o nosso caminho, seremos os primeiros a reconhecer este equívoco diante de todos, próximos e contrários. Será assim porque, entre outras coisas, nós acreditamos que a honestidade diante do espelho é necessária para todos aqueles que, com a palavra ou de fato, se comprometem com a construção de um mundo novo.

Todavia, nós colocamos a vida em nossos acertos e em nossos equívocos. Creio sinceramente que, desde a madrugada de primeiro de janeiro de 1994, ganhamos o direito a decidir nós mesmos o nosso passo, sua cadência, sua velocidade, sua companhia contínua ou esporádica, suas estações e, sobretudo, o seu destino. Não cederemos este direito. Estamos dispostos a morrer para defendê-lo.

Quarto. Continuaremos fazendo o que acreditamos que é o nosso dever. E isso sem ligar para o rating que venham a ter nossas ações, para o lugar que ocuparemos nos noticiários, ou para as ameaças e profecias que, de um e do outro lado do espectro político, se preocupam em receitar-nos toda vez que não fazemos o que querem que façamos ou que não dizemos o que querem que digamos (coisa que acontece o tempo todo).

Não nos uniremos à gritaria histérica da classe política, e de seus fans nas colunas de “análise política”. O que pretendem impor, sempre de cima, é uma agenda que não tem nada a ver com o que acontece aqui em baixo no nosso país, a saber, o desmantelamento implacável dos fundamentos da soberania nacional.

Tampouco estapearemos o calendário para que 2006 adiante sua incerteza, sua feira de vaidades, seu cínico esbanjamento de recursos e estupidez. Muito menos será nosso guia de ação o daqueles que exigem de nós que ponhamos os nomes de presos, desaparecidos e mortos, enquanto eles põem os nomes nas listas múltiplas [das eleições].

Quinto. Isso não quer dizer que não estejamos ouvindo. Fazemos isso e continuaremos a fazê-lo. Palavras de alento e de crítica chegam até nós de todos os lugares do mundo, junto a conselhos e admoestações, adesões e repúdios. Ouvimos tudo e o guardamos no coração coletivo que somos. Qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo pode ter certeza de que nós zapatistas a ouviremos.

Mas uma coisa é ouvir e outra é obedecer.

As “polêmicas” sobre se nós zapatistas somos revolucionários ou reformistas, lights ou heavys, ingênuos ou maliciosos, bons ou maus, nos deixam indiferentes e, como os mosquitos nas longas noites das montanhas do sudeste mexicano, não são o que nos tira o sono.

Nas terras zapatistas não mandam as transnacionais, nem o FMI, nem o Banco Mundial, nem o imperialismo, nem o império, nem os governos de um ou outro símbolo. Aqui são as comunidades a tomar as decisões fundamentais. Não sei como isso se chama. Nós o chamamos “zapatismo”.

Mas o nosso não é um território liberado, nem uma comuna utópica. Tampouco o laboratório experimental de um despropósito ou o paraíso da esquerda órfã.

Este é um território rebelde, em resistência, invadido por dezenas de milhares de soldados federais, policiais, serviços de inteligência, espiões de várias nações “desenvolvidas”, funcionários que trabalham na contra-insurreição e oportunistas de todo tipo. Um território composto por dezenas de milhares de indígenas mexicanos acossados, perseguidos, hostilizados, atacados por se negar a deixar de ser indígenas, mexicanos e seres humanos, ou seja, cidadãos do mundo.

Sexto. No resto do planeta, a nossa ignorância é enciclopédica (de fato, ocuparia mais volumes do que as obras completas da palavra externa e interna dos neozapatistas, a qual, diga-se de passagem, é abundante) e pouco ou nada podemos dizer sobre organizações políticas de esquerda que lutam ou dizem lutar sob outros céus.

Aí, como em toda parte, preferimos olhar pra baixo, para movimentos e tendências de resistência e de construção de alternativas. Só nos viramos para olhar pra cima quando uma mão de baixo aponta para lá.

Sétimo. Com nossas grosserias ou acertos, definições ou aspectos vagos, estamos tratando, só tratando, mas colocando a vida nisso, de construir uma alternativa. Cheia de imperfeições e sempre incompleta, mas uma alternativa nossa.

Se chegamos até onde chegamos não foi, contudo, por nossa única capacidade ou decisão, mas sim pelo apoio de homens e mulheres do mundo inteiro que compreenderam que nestas terras não há um montão de necessitados ávidos por esmolas ou lástima, mas sim seres humanos que, como eles e elas, anseiam e trabalham por um mundo melhor, um mundo onde caibam todos os mundos.

Acho que tamanho esforço merece a simpatia e o apoio de toda pessoa honesta e nobre no mundo.

E acredito que, na maioria das vezes, este apoio encontra sua versão mais afortunada na luta que empreendem ou mantêm em suas respectivas realidades, seja qual for sua cultura, língua, bandeira, tipo de calçado, sapato, tênis, chinelo, sandália ou sapatilha.

Neste sentido, na nossa geografia, estão mais perto das comunidades zapatistas realidades que os mapas apontam como distantes.

Assim, está mais perto de nós a Europa de baixo: a Itália desobediente e da autogestão; a Grécia que se comunica com sinais de fumaça; a França dos chinelos, dos sem documentos e sem teto, mas com dignidade; a Espanha insurreta e solidária; o Euzkal Herria que resiste e não se rende; a Alemanha rebelde; a Suíça comprometida; a Dinamarca companheira; a Suécia perseverante; a Noruega conseqüente; a Pátria negada aos kurdos; a Europa marginal na qual sofrem os imigrantes; toda a Europa dos jovens que se negam a comprar ações nas bolsas do cinismo...e as mulheres mexicanas indígenas mazahuas.

Rebeldias e resistências que sentimos mais próximas do que as intermináveis distâncias que nos separam da soberba cidade de San Cristóbal de las Casas e dos partidos políticos que falam com a esquerda e agem com a direita.

Bom, companheiro Pedro Luis, por enquanto é tudo. Acredite que não lamento se, com o que te escrevo corro o risco “de ser julgado com alguém que está delirando, que não vê a realidade”. Seja como for, continua pendente o problema fundamental, a saber, o de esclarecer qual é a velocidade do sonho.

Enquanto se resolve, recebe um abraço e da próxima vez que for escrever, mande, além da carta em Carta, uma tradução, mesmo que seja em “italianhol”.

Valeu. Saúde, e que a gritaria de cima não impeça de ouvir o murmúrio de baixo.

(a continuar...)

Das montanhas do sudeste mexicano
Subcomandante Insurgente Marcos.
México, setembro de 2004, 20 e 10.
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Texto divulgado no La Jornada de 02/10/2004.
A velocidade do sonho.
Primeira parte: as botas.

Nas montanhas do sudeste mexicano, a madrugada não corre. Sem pressa, se deleita em todos os cantos, como amante paciente e delicada. Com seu longo vestido de nuvem, a neblina anda de mãos dadas com ela e consegue asfixiar a luz mais obstinada, a cerca, a rodeia com sua nívea parede, a encerra num aro difuso. Da metade do céu, a lua bate em retirada. Uma voluta de fumo se confunde com a neblina, vagarosamente, com a mesma lentidão com a qual a nuvem agasalha as choças dispersas sob o amplo vôo de sua anágua. Todos dormem. Todos, menos a sombra. Todos sonham. Sobretudo a sombra. Só estende a mão e apanha uma pergunta.

Qual é a velocidade do sonho?

Não sei. Talvez é... Mas não, não sei...

Na verdade, por aqui, o que se sabe, sabe-se coletivamente.

Sabemos, por exemplo, que estamos em guerra. E não me refiro só a guerra especificamente zapatista, que não satisfaz a ânsia de sangue dos meios de comunicação e de alguns intelectuais “de esquerda”, tão dedicados como são, uns às quantidades de mortos, feridos e desaparecidos, outros a traduzir mortes em erros “porque não fazem o que eu lhes dizia”.

Não só. Falo também desta que chamamos de “IV Guerra Mundial”, travada pelo neoliberalismo e contra a humanidade. A que se desenvolve em todas as frentes e por toda parte, incluindo as montanhas do sudeste mexicano. Tanto na Palestina como no Iraque, na Chechenia ou nos Bálcãs, no Sudão ou no Afeganistão, com exércitos mais ou menos regulares. A que, de mãos dadas com estas, é levada a todos os cantos do planeta pelo fundamentalismo de um e de outro bando. A que, assumindo formas não militares, faz vítimas na América Latina, na Europa social, na Ásia, na Oceania, no longínquo Oriente, com bombas financeiras que fazem voar em pedaços estados nacionais inteiros e organismos internacionais.

Esta guerra que, para nós (insisto: tendencialmente), pretende destruir/despovoar territórios, reconstruir/reordenar as geografias locais, regionais e nacionais, e criar, a sangue e fogo, uma nova cartografia mundial. Esta que vai deixando pelo caminho a assinatura de sua identidade: a morte.

Talvez, a pergunta “Qual é a velocidade do sonho?” deveria ser acompanhada da pergunta “qual é a velocidade do pesadelo?”.

Todavia, uma semana antes dos atentados terroristas de 11 de março de 2004, na Espanha, um jornalista-analista político mexicano (desses que depois de um doce se soltam e cantam elogios ridículos) louvava a visão “de Estado” de José Maria Aznar.

O analista dizia que, ao acompanhar os Estados Unidos e a Grão Bretanha na guerra contra o Iraque, Aznar havia conseguido um campo promissor para a expansão da economia espanhola, e que o único preço a pagar era o repúdio de uma “pequena” parte da população espanhola, “os radicais que nunca faltam, inclusive numa sociedade tão afortunada como a espanhola”, disse o “analista”. E mais, sublinhou então que os espanhóis deviam esperar sentados que o negócio da reconstrução do Iraque começasse a caminhar, e aí sim, receber carreadas de dinheiro. Em suma, um sonho.

A realidade não demorou a cobrar a verdadeira fatura da “visão de Estado” de Aznar. Naquela manhã de 11 de março se cumpria o fato de que o Iraque não está no Iraque, quero dizer não só no Iraque, como no mundo inteiro. Enfim, a estação de Atocha como sinônimo de pesadelo.

Mas antes do pesadelo havia o sonho, só que o sonho neoliberal. A guerra contra o Iraque havia se colocado em marcha com ampla antecedência em relação aos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 em território estadunidense.

Para ir a este começo, nada como uma foto...

Terreno plano, avermelhado. Adivinha-se duro. Talvez de argila ou de algo parecido. Uma bota. Sozinha, sem seu par. Abandonada. Sem um pé que a calce. Alguns escombros esparramados. De fato, a bota parece mais um escombro. É tudo o que há na imagem. Assim, são as linhas embaixo da foto que esclarecem se tratar do Iraque. Data? Setembro de 2004.

Impossível saber se a bota é de alguém que morreu, que a abandonou na fuga, ou se trata pura e simplesmente de uma bota. Tampouco se sabe se é a bota de um soldado estadunidense ou britânico, ou de um combatente da resistência, de um civil iraquiano ou de outro país.

Contudo, apesar da falta de maiores informações, a imagem dá uma idéia do que é o Iraque do “pós-guerra” de Bush: violência, morte, destruição, desolação, confusão, caos. Todo um programa neoliberal.

Ao vir abaixo o falaz argumento de que a guerra contra o Iraque era uma guerra “contra o terrorismo”, as verdadeiras razões emergem agora, mais de um ano depois que, ajudada pelos tanques de guerra estadunidenses, foi derrubada a estátua de Hussein e um Bush eufórico erguia outra a si mesmo declarando o fim da guerra. (Provavelmente a resistência iraquiana não ouviu a mensagem de Bush: o número de soldados estadunidenses e britânicos mortos e feridos não fez outra coisa a não ser aumentar desde que “acabou a guerra”, e agora se somam as baixas civis procedentes de várias nações).

Nos Estados Unidos, a ideologia conservadora tem um sonho: construir a “Disneylândia” neoliberal. No lugar de uma “aldeia modelo”, reflexo dos manuais de contra-insurreição dos anos 60, tratava-se de construir uma “nação modelo”. Escolheu-se então o território da antiga Babilônia.

O sonho da construção de um “exemplo” do que deve ser o mundo (sempre de acordo com os neoliberais) nutriu-se da “(...) mais apreciada crença dos arquitetos ideológicos da guerra (contra o Iraque): que a cobiça é boa. Boa não só pra eles e seus amigos, mas sim boa para a humanidade, e, com certeza, boa para os iraquianos. A cobiça gera lucros, os quais geram crescimento, que cria empregos, produtos e serviços, e qualquer outra coisa que, possivelmente, alguém possa precisar ou querer.

O papel de um bom governo, então, é criar as condições ideais para que as corporações levem adiante sua cobiça sem fim, de tal maneira que, por sua vez, se possam satisfazer as necessidades da sociedade.

O problema é que os governos, mesmo que neoconservadores, raramente têm a oportunidade de provar o quanto é correta a sua sagrada teoria: apesar de seus enormes esforços ideológicos, até os republicanos de George Bush são, em suas próprias cabeças, eternamente sabotados por democratas intrometidos, sindicatos teimosos e ambientalistas alarmados. O Iraque ia mudar tudo isso. No lugar da Terra, a teoria seria finalmente colocada em prática em sua forma mais perfeita e descomprometida.

Um país de 25 milhões de habitantes não seria reconstruído como era antes da guerra: seria apagado, feito desaparecer. No seu lugar, um deslumbrante salão de exposições para as políticas de lasseiz-faire, uma utopia como o mundo jamais havia visto” (“Bagdá ano zero. A pilhagem do Iraque depois de uma utopia neoconservadora”, Naomi Klein, em Harper’s Magazine, setembro de 2004. Tradução: Julio Fernández Baralbar).

Em vez disso, o Iraque é sim um exemplo, mas do que o mundo inteiro pode esperar se os neoliberais ganharem a guerra, a IV Guerra Mundial: desemprego de quase 70%, indústria e comércio paralisados, aumento exorbitante da dívida externa, muros a prova de explosões por todos os lados, crescimento geométrico do fundamentalismo, guerra civil... e exportação do terrorismo para todo o planeta.

Não vou saturá-los com algo que sai todos os dias nos noticiários: ofensivas militares da coalizão (atenção: numa guerra que “já acabou”), mobilização da resistência iraquiana, atentados, ataques contra alvos militares e civis, seqüestros, execuções, novas ofensivas da coalizão, nova mobilização da resistência iraquiana, etcetera. Tenho certeza de que encontrarão informação abundantes na imprensa do mundo todo. Em castelhano, sem dúvida a melhor fonte é o jornal mexicano La Jornada, que conta entre seus colaboradores com alguns dos jornalistas mais sérios e documentados sobre o tema do Iraque.

O certo é que já vimos este filme antes em outros lugares...e continuamos a vê-lo: Chechenia, os Bálcãs, Palestina, Sudão, são só exemplos desta guerra que destrói nações para tratar de “convertê-las” em “paraísos”...e acabam transformando-as em infernos.
Uma bota abandonada nas terras do Iraque “liberado” resume a nova ordem mundial: a destruição das nações, a desertificação de qualquer indício de humanidade, a reconstrução como reordenação caótica das ruínas de uma civilização.

Contudo, há outras botas, ainda que sejam...

Botas quebradas. Sim, as botas da insurgente Érika estão quebradas. Na ponta do pé direito, a sola se desprendeu e dá à bota um ar de boca insatisfeita. Os dedos ainda não estão visíveis, de tal forma que Érika não parece ter se dado conta de que suas botas, e sobretudo a direita, estão quebradas.

Desde os primeiros dias na montanha, ao olhar pra baixo acabei acostumando. O calçado costuma ser um dos sonhos/pesadelos do guerrilheiro (outros?: o açúcar, ter os pés enxutos, e outras obsessões mais úmidas), de tal forma que lhe dedica boa parte da sua atenção. Talvez é por isso que adquire essa mania de olhar sempre os pés do outro.

A insurgente Érika veio me avisar que acabaram de editar o conto A laranja mágica (última produção de Rádio Insurgente que trata de...bom, é melhor que se sintonizem e o escutem). Eu respondo que tem a bota quebrada. Ela baixa o olhar e me diz “você também”. Faz a saudação militar e vai embora.

Érika vai se trocar porque daqui a pouco jogam futebol duas equipes de mulheres insurgentes, uma se chama “8 de março”, e outra “As Princesas da Selva”. Não entendo muito de futebol, mas, a meu ver, as “princesas” jogam com um estilo que se distancia bastante dos bons costumes da corte real, e as da “8 de março” o fazem como se fosse o levante de primeiro de janeiro. Ou seja, boa parte delas acaba no posto de saúde insurgente. E tem mais, cada vez que vão jogar, as da saúde deixam a maca do lado da quadra. “Para não dar a volta”, dizem.
Empataram, ou seja, no futebol, as insurgentes empataram. Foram para os pênaltis e chegou a hora da formação sem que desempatassem. E é a insurgente Érika a me dizer isso. Érika é uma espécie de assessora sentimental das insurgentes, mas desta vez não vem me contar que uma companheira tem “o coração que dói” de mal de amores, mas sim que o jogo acabou e que ela vai falar nos povoados, mais concretamente, às mulheres dos povoados. Vá a paisana, ou seja, com roupa civil. Bom, isso é ela quem diz. Porque eu vejo que está com umas botas feitas nas oficinas zapatistas e tem gravado um “EZLN” num dos lados.

“Mmmh, se for usar estas botas é melhor ir com o uniforme completo”, digo tentando ser sarcástico. Érika vai embora. Daí a pouco, volta de uniforme. “Pra onde vai?”, pergunto. “Para o povoado”, responde. “Mas, o que te deu pra ir de uniforme?, pergunto em tom de reprovação. “Foi você que me disse!”, diz. Entendo que é inútil explicar as qualidades da ironia sutil, de tal forma que me limito a ordenar: “Não, vá a paisana e tire estas botas”. Ela vai embora. Daí a pouco volta, com roupa civil...e descalça. Eu suspirei, que mais podia fazer?

Não acreditem na Érika, a minha bota não está quebrada. Está descosturada, que não é a mesma coisa. Além disso, é só um ponto que soltou, e por isso o entrecruzar-se dos pontos da agulha parece um sistema político no neoliberalismo, ou seja, é uma confusão e não se sabe pra onde vai a direita e pra onde vai a esquerda. Estou explicando isso a Rolando quando chega... Toñita Primeira-Geração, ou seja, Toñita I (a do beijo negado porque “pinica muito”, a da xícara quebrada, a do sabugo de milho transformado em boneca) já tem 15 anos. “Ou seja, cumpriu 14, mas entrou nos 15, isto é, já vai para 16”, me diz o pai dela, um responsável zapatistas dos mais antigos a estar conosco.

Eu faço sinal que sim, sem confessar que nunca entendi as altas matemáticas que regem os calendários nas comunidades rebeldes zapatistas (depois de tratar, inutilmente, de explicar-me, Monarca se resigna e só acrescenta: “Acho que é porque esse é o nosso jeito, que é bem diferente”).

O pai de Toñita I (ou seja, Toñita Primeira-Geração) vem para que eu a veja, porque já faz mais de dez anos desde que a vi pela última vez. Dez anos não passam em vão, de tal forma que Toñita não só não me nega um beijo, como, sem que eu diga nada, me abraça e deixa cravado um beijo na fofa bochecha do passamontanhas e fica completamente corada (a Toñita I e não o passamontanhas). Não digo nada, mas penso “Mmmh, esse ano foi mau...e isso porque não tenho tirado o passamontanhas nem pra tomar banho”.

Então, Toñita I tira suas botas da mochila e as calça. Estou pra perguntar porque ela põe as botas depois de caminhar seis horas descalça desde o seu povoado no lugar de colocá-las para fazer o caminho e tirá-las ao chegar, mas Toñita I se adianta e me pergunta se pode ir pra “lá” – e aponta pra onde há um grupo de mulheres insurgentes. Toñita I sabe o que um beijo pode conseguir, mesmo que seja no passamontanhas, de tal forma que não espera a resposta e vai.
Enquanto Toñita I corre pra ver se a deixam jogar no jogo de futebol das insurgentes, o pai dela me conta do seu povoado (aquele que eu sempre chamei, cuidando para que ninguém soubesse, de “Cúpulas Tempestuosas”). Cheguei a ver a cicatriz de um corte no braço esquerdo de Toñita, e assim lhe pergunto sobre isso.

O pai de Toñita me conta que um jovem do povoado queria levá-la pra latrina. (Nota: esclareço o improvável leitor destas linhas que em alguns povoados a latrina não cumpre só suas cheirosas funções higiênicas, mas também costuma ser lugar de encontro de casais. Não são poucos os casamentos nas comunidades que têm como origem o nada romântico lugar da latrina. Fim da nota). O caso é que Toñita I não quis ir pra latrina. “Ou seja, não era do seu gosto”, me confirma o pai dela. Foi aí que o rapaz quis obrigá-la e, então, “como não era do seu gosto” – reitera o pai dela – lutaram. Toñita I conseguiu fugir, mas, como diz logo em seguida, o assunto se tornou público e chegou na assembléia do povoado. O pai de Toñita me conta que queriam prendê-la. Eu interrompo: “Mas por que, se é ela que foi atacada e até traz um corte no braço?”.
“Ah, Sup, é que você devia ver em que estado ficou o jovem... – me diz o pai -, ele ficou no chão inconsciente, é que, como se costuma dizer, Toñita é muito brava”.

Além de um rosto bonito, Toñita I tem um porte físico avantajado, ou seja... como é que vou dizer isso?, bom, para que vocês me entendam, só vou dizer que Rolando quer que ela jogue na zaga central da seleção zapatista de futebol.

“Mas o time das insurgentes já está completo”, digo a Rolando. Ele só acrescenta: “acaso é para o time das insurgentes, eu a quero no dos homens”. Nisso passam as da saúde com as insurgentes bastante machucadas. Toñita I está chorando porque, por culpa sua, marcaram dois pênaltis contra o seu time. Entendo Rolando e me viro em direção ao pai e lhe pergunto: “Toñita não tem dito que quer ser insurgente?”.

Toñita I tirou as botas e as colocou na mochila. Vai embora com o pai dela, caminhando descalça.
Não faz muito que ela foi quando aparece, acompanhada pela mãe...a Toñita Segunda-Geração, ou seja, a Toñita II.

A mãe da Toñita II, ou Segunda Geração, se chama Elena. É tenente insurgente de saúde e, entre seus méritos, está que em janeiro de 1994 ela salvou a vida de vários insurgentes e milicianos que saíram feridos dos combates de Ocosingo. Num mais que modesto hospital de campanha, Elena operou feridas de bala e extraiu estilhaços delas do corpo dos zapatistas. “Morreu-nos um companheiros” disse ao informar. Não mencionou os mais de 30 combatentes, que hoje vivem e lutam nestas terras, e que foram salvos por ela.

Toñita II tem três anos. “ou seja, completou dois e vai para quatro?”, adianto à explicação de Elena. Ela ri. Quero dizer, Elena ri. Porque Toñita está dando uns berros dignos da melhor causa. Acontece que, assumindo o meu olhar elegante (o de número 7 do meu exclusivo “catálogo de olhares sedutores”) lhe pedi um beijo. Toñita II nem sequer disse que “pinica muito” (ou seja, não é uma versão melhorada), simplesmente despencou a chorar com tal veemência que já tem ao seu lado um grupo de mulheres insurgentes que lhe oferecem balas, uma sacolinha com cara de coelho (ainda que me parece que tem cara de gambá – a bolsinha, se entende), e estão até cantando pra ela a do cordeirinho que rola e que tem um inusitado êxito entre as crianças zapatistas.

“Não te querem”, me diz a major Irma chovendo no molhado. Eu respondo: “Bah, está louca por mim”, e faço de conta que não tenho o coração despedaçado.

Saindo da bodega, Rolando me dá uma destas agulhas chamadas “capoteras” e um rolo de fio de náilon. Já na choça do comando do EZLN estou em dúvida...

Se não sei a velocidade do sonho, também não sei se devo costurar as botas ou o coração.

(a continuar...)

Das montanhas do sudeste mexicano
Subcomandante Insurgente Marcos.
México, setembro de 2004, 20 e 10.
________________________
Texto divulgado no La Jornada de 01/10/2004.

2.10.04

Ler um vídeo.

Oitava parte: Enter Durito

Quando, depois das palavras finais, a tela fica azul (bom, já sei que é uma cartolina, mas se entende que continuo com o vídeo) há muito pouca gente permanecendo na expectativa (logo, vão ver que há vídeos que depois do final ainda reservam alguma coisa). Pois então, quando ninguém espera (inclusive, eu), aparece na tela (ou seja, na cartolina) um escaravelho com a seguinte falação:

Vamos! Vamos! Nada de aplausos. Que as fêmeas segurem seus suspiros, que os varões controlem suas invejas, que as crianças não joguem inseticida em seus pôsteres do homem aranha. Fiquem tranqüilos que eu, o grande Don Durito de la Lacandona, ficarei só por alguns instantes e com o único objetivo de aumentar o rating deste...vídeo?

Na realidade, colocamos esta parte só por maldade, para detonar as previsões daqueles que achavam que seriam só sete partes, já que os primeiros deuses blá, blá, blá. De tal forma que esta é a oitava, e pode ser muito bem que da próxima vez venha a sexta (?).

Em nome do Comitê de Direção (ou seja, de nós mesmos) do Sistema Zapatista de Televisão Intergaláctica não lhes pedimos desculpas por tê-los importunado. Vamos deixá-los novamente com esta programação tão “apaixonante” de desaforos, cortes de lista, medalhas de prata, o avanço avassalador do “partido do palanque do estádio CU” (dixit o das casquinhas) e, last but not least, o informe do governo (não entendo porque são atraídos por ele se já sabem o desfecho desta telenovela).

Na hipótese improvável de que alguém queira continuar em nosso canal, terá a oportunidade de presenciar...ao vivo e a cores!...As Olimpiaaaaaaaaaaaaaadas Zapatoooooooooooonas!. Sim, com o lema de “mais baixo, mais devagar, mais fraco”, os zapatistas demonstrarão porque têm treinado tanto para perder. Comuniquem-se só com suas consciência e terão o evento onde quer que se encontrem. Os primeiros a se inscreverem receberão, além de nossa seleta programação, um pôster autografado (de tamanho modesto, ou seja, de cinco por cinco metros) de mim mesmo, mas numa pose para a qual não há “X” que chegue (há restrições).

Não troque de canal, voltaremos...

(Não vai mais continuar...ou melhor, sim, mas daqui a um tempo)

Das montanhas do Sudeste Mexicano.

O Sup correndo ao banheiro por causa de umas empadas, tomando o cuidado de não ir muito rápido, para chegar em segundo lugar (vamos ver se, pelo menos, assim nos chamam primeiro)

México, agosto de 2004. 20 e 10.

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Comunicado divulgado através do La Jornada em 28/08/2004.

Ler um vídeo.

Sétima parte: sete dias em território zapatista.

Segunda-feira: no caracol de Morelia.

Foi recebida a observadora F, e W que esteve aqui no caracol IV, informou que aprendeu muitas coisas durante os dias em que ficou por aqui e que vão lutar em seus países de origem, Itália e Espanha; levam a flor da palavra ao coletivo.

Aqui no caracol IV, se reuniram 13 professores de diferentes municípios, onde estiveram praticando o ensino das consoantes: L – CH – J – B – K – N – R – W – X – Y. Foram estas as letras estudadas com motivação e através da apresentação de objetos naturais e artificiais, palavras ou enunciados para identificar as sílabas de cada letra e programaram uma reunião; ficou para os dias 20 e 21 no município Miguel Hidalgo.

Três companheiros saíram em comissão rumo ao município Che Guevara para investigar os problemas que ocorreram no município mencionado em relação à semeadura de maconha, sim é possível que isso tenha acontecido no lugar dos fatos “X”, dois companheiros foram detidos por esta provocação no presídio do município Che Guevara para pagar por seus erros. Os companheiros do operador de vídeo filmaram o que aconteceu, o vídeo será entregue à Junta. As autoridades deste município se responsabilizam a levantar uma ata de acerto com o detido e entregam uma cópia na Junta de Bom Governo; os detidos reconhecem os gastos da comissão da Junta em seiscentos Pesos.

Recebemos o senhor I, da Argélia, que veio preparar a comida Cus-Cus, acompanhado por uma delegação do comitê de solidariedade da França.

Terça-feira: no caracol de Roberto Barrios.

Recebemos a irmã N, da Suíça, de uma organização Z, e entregou uma doação de 57 mil 790 Pesos para as comunidades necessitadas da Região Norte e a cada um dos 10 municípios coube a quantia de 6 mil 229. Se a conta não dá certo é porque somamos a isso o que foi dado por um irmão do DF e assim a conta dá certo.

Reunião da comissão para tratar do logotipo do carro que foi chamado Milho resistente, em chol P’atal ba ixim e em tzeltal Tulan ixim. Os auxiliares de Semente do Sol entregaram dois dicionários, dois globos terrestres e um mundo com pedestal.

Recebemos os irmãos do Japão da organização de solidariedade zapatista que quer trabalhar nos murais. Foi feita uma carta para a organização da Holanda sobre o projeto de nove farmácias, três casas de saúde, capacitação e uma ambulância.

Quarta-feira: no caracol de La Garrucha.

Apresentou-se o companheiro Benito do povoado “X” do município Francisco Gómez. Assunto: problema da lenha com a ARIC oficial. Por causa deste problema da lenha, as mulheres se enfrentaram na igreja, um homem da ARIC bateu numa mulher zapatista, também um companheiro de base se enfrentou com um tal de Artemio da ARIC oficial. Em meio a este pleito, uma mulher “prijista” tira a roupa diante de todos para ver se alguém a estupra. Isso não deu em maiores problemas e o companheiro Benito não esperou que seu dirigente se apresentasse à convocação do turno passado.

Apresentaram-se o senhor B e o senhor A, de Ocosingo. Assunto: informar em relação ao táxi detido. O coordenador do transporte da região de Ocosingo disse que o táxi já pode ser resgatado desde que se assine um papel onde se diz que o táxi não é para o trabalho. A JBG enviou outro ofício ao coordenador e ao delegado do governo do estado para que libere imediatamente o táxi porque se não respeitam o trabalho honrado então as pessoas se tornam delinqüentes ou políticos, ou o povo pobre se juntará e se levantará em armas como os zapatistas em primeiro de janeiro de 94 e que respeitem então seu trabalho de taxista.

Apresentaram-se na JBG pessoas da organização PRD de Ocosingo, para relatar o roubo de nove cavalos, quatro arreios e uma moto-serra. A JBG passou a investigação ao Município Autônomo Rebelde Zapatista Francisco Gómez, e quando encontraram os que haviam cometido o roubo, chamaram os donos para entregar a eles seus animais e suas coisas; não se aceitou o dinheiro que ofereciam por suas coisas, e aos que haviam roubado se disse que não voltassem a fazer isso porque podiam ir pra cadeia.

Apresentou-se na JBG a senhora Transita, assunto de um problema de terreno com os companheiros bases de apoio de um bairro de Ocosingo, cuja superfície é de 8 por 15 em terra recuperada; a JBG pediu seus papéis do terreno, e respondeu que não tem nenhuma documentação como dona, a JBG investigou e resultou que este terreno havia sido vendido por alguém que tampouco era o dono e por isso os companheiros e o resto do bairro destruíram a casa, e ela entrou com quatro processos no Ministério Público, três são contra bases de apoio e um contra o delegado que não é companheiro; depois de várias negociações a JBG propôs devolver o terreno e os materiais se ela retirar as quatro demandas; suas coisas já foram devolvidas e ela não retirou uma das demandas, que é a do delegado que não é companheiro, porque anda falando mal dela, a JBG exige que se cumpra o acordo feito sem que nada tenha a ver o que o delegado fala ou deixa de falar. Espera-se ainda o cumprimento.

Apresentaram-se as autoridades da organização “X” para resolver o problema de um estupro e de um enfrentamento que ocorreu por um problema de terra, e foram dadas três respostas com as quais eles, como autoridade, assinaram concordando: 1. As autoridades oficiais se ocuparão do problema do estupro; 2. Que os refugiados voltem a seus lugares de origem, e 3. Que haja um acerto pacífico para todos os problemas.

De 21 casos, 16 estão resolvidos, quatro estão pendentes e um não foi resolvido.

Quinta-feira: no caracol de Oventic.

Chegou Ofélia com um doutor para ver se damos a permissão de mostrar uns fogões para que não se gaste lenha e lhe demos a permissão.

Chegaram da revista Rebeldia e logo da FZLN para entregar o dinheiro da campanha que se chama “20 e 10, o fogo e a palavra” e que é para as Juntas de Bom Governo e foi enviado ao EZLN para que reparta o todo em cada Junta. Chegou também [alguém] dos Jovens da Resistência Alternativa do DF para a mesma razão.

Avaliou-se o projeto da bloqueria de Polhó com os de Enlace.

O município autônomo de San Andrés Sakamchén pede emprestados dez mil Pesos para consertar os carros da presidência.

Os que ajudaram para as necessidades dos refugiados de Zinacantán, do CIEPAC, da DESMI, da Alemanha, Granada, Médicos do Mundo, Associação Civil Comunitária, dos jogadores da Itália da equipe que se chama Internazionale de Milano, dos Estados Unidos e de pessoas individuais, deu um total de 616 mil 302 Pesos e 26 centavos.

Sexta-feira: no caracol de La Realidad.

Uma senhora de Cidade El Carmen, Campeche, veio até nós para colocar um problema que ela tem com um senhor da cidade de Comitán: prometeram-lhe que iriam negociar pra ela um crédito hipotecário e como garantia entrega a documentação da sua casa ao banco. Acontece que os recursos não lhe foram entregues, e, em seguida, ela exigiu a documentação antes entregada ao banco, mas esta não lhe foi devolvida porque os recursos haviam chegado sim nas mãos do administrador, mas não nas dela. A JBG a orientou que era melhor procurar uma organização de defensores de direitos humanos porque se trata de uma violação de seus direitos, foram-lhes recomendados os Frayba, e até o momento não se sabe se ela foi ou não.

Os solidários que construíram a turbina em La Realidad vieram ver como está funcionando e voltam com a fala da JBG.

Chegaram solidários da Austrália, pediram para saber sobre a autonomia e o que é o mandar obedecendo; explicamos a eles com detalhes, se mostraram muito maravilhados e disseram que levariam a mensagem para divulgar em seu país. Vieram também da Argentina, França, Canadá e Polônia para receber a fala sobre a autonomia.

Chegaram os do País Basco para ver os projetos que estão apoiando, voltam contentes porque vêem que o acordo está sendo cumprido.

Chegaram estudantes da UNAM, da UPN e do Poli para falar e para que se explique para eles o que é o mandar obedecendo e a autonomia.

Sábado: em algum povoado zapatista.

Cheguei com Rolando para cumprimentar Dona Julia. Ela me leva pra ver a casa-sala-refeitorio-cozinha-quarto. Dá-me café, guineo. Conta-me de seus filhos, de seus netos, de seus bisnetos, de quando ficou frente a frente com os soldados e “Eu olhava direto no seu olho, assim, (e arqueia as sobrancelhas grisalhas) e dizia-lhe: ‘vamos tire seu revólver e me dê um tiro, vamos’, mas ele não sacou o revólver, do contrário não estaria aqui contando”. Continua falando de quando seu filho se escondia para levar tostadas aos insurgentes na montanha, quando os povos se juntaram, quando se votou a guerra, quando foram todos para lutar na cidade, quando entrou na resistência, quando foram feitos os autônomos, quando os caracóis. Estava preste a tirar o cachimbo e o tabaco quando, de repente, ela pára e me pergunta: “Você vai falar isso ao Sup?”. Viro-me para Ronaldo que alisa o bigode para dissimular a risada. Deixo o cachimbo e o tabaco na bolsa. “Sim”, lhe digo. “Ah!, Pois, quando for vê-lo saúde-o para mim e lhe dê a minha benção, o condenado só deus sabe por onde anda porque já faz dias que não vem”, diz e me dá algumas empadas “para o Sup”. Despedimo-nos. Já no potreiro digo a Ronaldo: “Se continuar rindo desse jeito não vai voltar aqui de novo”. “Com certeza vamos morrer os dois”, diz ele rindo e indo à frente. Já a uma boa distância me grita: “Lembre-se de cumprimentar o Sup”. Chegando na choça do comando me olho no espelhinho e digo e repito: “Nós de então já não somos os mesmos”, e suspiro...que outra coisa poderia fazer?

Domingo: em algum lugar das montanhas do sudeste mexicano.

Madrugada. Topei com Moy que tampouco consegue dormir. Faz pouco tempo que a tropa foi descansar. Só se adivinha a sombra da sentinela. Falamos com Moy dos mortos, dos nossos mortos. Digo-lhe que qualquer um deles era melhor do que eu. Que agora o Eleazar se foi, que parecia que ia se safar e de repente morreu. Porque aqui a morte nunca chega devagarzinho, aparece sem mais nem menos, dando um pontapé, e simplesmente não se vê mais o seu passo e fica-se pensando que teria sido melhor se tivesse levado alguém e não ele, o morto. Eleazar era melhor do que eu, e Pedro, e Hugo, e Fredy, e Álvaro e todos os nomes que calo porque, por que herdar mortos? Eleazar, que está ainda na cama, queria ficar de pé e saudar militarmente, e pediu música pela manhã. Moy me diz que estou com o rosto molhado. Tiro as gotas com a mão e digo: “é a chuva”. Moy acende um cigarro, eu o cachimbo. Lá em cima um céu, dolorido de tantas estrelas, não chora, simplesmente se olha no espelho moreno da lua.

Certidão de autenticidade.

Dito, visto e ouvido o anterior, no pleno uso das minhas faculdades mentais e mais ou menos das físicas, certifico que o que foi exposto neste vídeo “tão diferente”, e o que tenho narrado a respeito dos povoados zapatistas é verdadeiro, possível de ser comprovado e, no caso, repreensível. O único aspecto que pode ser atribuído à fantasia ou à imaginação é o que se refere à existência daquele que escreve isso, pois é sabido que nós fantasmas não somos outra coisa que a mesma coisa até que, como disse não sei quem, morremos para viver. Dou fé.

Vídeo projetado para toda a galáxia a partir do estado de Chiapas, no sudeste mexicano, no ano quarto do século vigésimo primeiro, a 20 do nascimento e a 10 do início, quando agosto sofre de languidez e o país que nos abraça sofre de esperança (porque, em geral, é Bush que faz sofrer o mundo).

Nota: o presente vídeo não tem copyright e pode ser reproduzido total ou parcialmente onde lhe der vontade, quantas vezes e com quem quiser. Agora, se você lhe prestar atenção nele e trabalhar coerentemente, pois então pode ir parar na cadeia, mas isso não é por conta do distribuidor do vídeo que é, como já disse, o Sistema Zapatista de Televisão Intergaláctica.

Valeu. Saúde e falta o que falta...para quando faz falta.

(a continuar...)

Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Subcomandante Insurgente Marcos.

México, agosto de 2004. 20 e 10.

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Comunicado divulgado através do La Jornada em 27/08/2004.

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